Ganhador do Camões, cabo-verdiano é quase desconhecido no Brasil

Germano Almeida, de 73 anos, é o principal autor de sua geração em Cabo Verde. Tem apenas um romance publicado no Brasil, pela Companhia das Letras

Germano Almeida, escritor cabo-verdianoGermano Almeida, escritor cabo-verdiano - Foto: Divulgação

Germano Almeida, 73, é o principal escritor de sua geração em Cabo Verde. Best-seller também Portugal, venceu neste ano o prêmio Camões, principal láurea da literatura em língua portuguesa. De seus 17 romances, no entanto, apenas um -"O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo"- saiu no Brasil, publicado há mais de 20 anos.

"Meu livro saiu no Brasil pela Companhia das Letras, uma grande editora que o publicou com muitas esperanças. Mas Cabo Verde ainda é muito pouco conhecido no Brasil. Naquela época, era menos ainda. Ninguém sabia de nós e, portanto, ninguém nos procurava", disse o autor a respeito do fraco desempenho de seu livro em terras brasileiras.

Para o escritor, o cenário tem mudado progressivamente, e os brasileiros estão cada vez mais interessados pelos autores africanos. "A partir dos estudos universitários, já se conhece mais sobre autores africanos, sobre os cabo-verdianos. O brasileiro começou a se interessar mais pela literatura de Cabo Verde. Acho que, se publicassem um outro livro meu hoje, seria bem melhor", aposta.

Leia também:
Histórias de bastidores de Reginaldo Rossi serão contadas em livro
Projeto 'Cantos da Leitura' leva livros para catadores de Jaboatão
Livro 'Os Ecos de Clarice' celebra universo literário da escritora


Fã de Jorge Amado e Guimarães Rosa, o cabo-verdiano reconhece que também é difícil encontrar livros brasileiros em seu país natal. "Nós não temos acesso diretamente, acompanhamos à medida que eles vão sendo publicados em Portugal", comenta. Almeida conversou com a Folha de S. Paulo durante a Morabeza, maior feira literária da lusofonia da África, na qual o escritor foi uma das estrelas.

Com 1,90 m de altura, sempre vestido de branco e com um largo sorriso no rosto, o autor não passava despercebido entre o público, com quem posou para fotos e deu autógrafos. Germano Almeida ficou famoso pelo humor irônico, recheado de críticas sociais, que imprime a seus textos.

Seu romance de estreia, "O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo", conta a história de um homem que enriqueceu vendendo guarda-chuvas em uma cidade em que praticamente nunca chove. "Eu sou de uma terra em que a realidade desafia a ficção. As pessoas estão sempre a nos oferecer material sobre o que escrever", diverte-se.

   Produção afetada

Advogado, Almeida fez faculdade em Portugal, mas regressou a seu país logo após terminar o curso. Ele se diz apaixonado pelo arquipélago cabo-verdiano. "É interessante porque a minha ilha, Boa Vista, tem 4.000 habitantes e eu já publiquei dois livros sobre ela. Um amigo meu me perguntou como é que eu arranjei sobre o que escrever em dois livros sobre uma ilha tão pequena. Eu sempre digo que as histórias estão todas lá, nas pessoas", diz.

Almeida afirma que ter recebido o Camões "perturbou um pouco seu dia", com mais telefonemas e gente querendo entrar em contato. Com isso, sua produção literária acabou sendo inevitavelmente afetada. "Eu estava a escrever um romance quando me anunciaram o prêmio Camões. Desde aí eu nunca mais peguei nele", afirma o autor.

*A jornalista Giuliana Miranda viajou a convite do festival Morabeza 

Veja também

Manhãs de Setembro", nova série do Amazon Prime, estreia nesta sexta (25)
Séries

Manhãs de Setembro", nova série do Amazon Prime, estreia nesta sexta (25)

Quadro de Churchill que decorou iate dos Onassis é vendido por US $ 1,8 milhão
Leilão

Quadro de Churchill que decorou iate dos Onassis é vendido por US $ 1,8 milhão