Grupo Experimental completa 25 anos reafirmando seus propósitos

Sob o comando da coreógrafa e diretora Mônica Lira, Grupo Experimental planeja novidades para 2019 em meio às incertezas do futuro

Apresentação de 'Pontilhados' em São PauloApresentação de 'Pontilhados' em São Paulo - Foto: Rogerio Alves/Divulgação

Criado nos anos 1990, o Grupo Experimental conseguiu a façanha de manter-se em atividade no Recife, mesmo diante das dificuldades que assombram quem ousa viver de arte no Brasil. Comandada pela diretora e coreógrafa Mônica Lira, a companhia construiu uma linguagem própria e alcançou lugar de destaque na dança contemporânea nordestina. Neste mês de dezembro, o grupo completa 25 anos de trajetória, reafirmando os princípios de experimentação e interação com a cidade que norteiam os seus trabalhos.

Ao longo de 2019, o aniversário deve ser celebrado de diferentes maneiras. Começando o ano, a companhia integra a programação do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos. No dia 13 de janeiro, os bailarinos ocupam o Teatro de Santa Isabel com "Breguetu", montagem inspirada na música brega pernambucana.

"Queremos lotar o espaço, levando uma coisa mais popular para dentro desse tempo das artes cênicas. O mais legal é que tem tudo a ver com a nossa história, já que nós dançamos na primeira edição do festival", compartilha Mônica Lira, em entrevista concedida à Folha de Pernambuco no Teatro de Santa Isabel.

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Outra novidade é o processo de criação de um novo trabalho. Com o o título provisório de "O que pousa em mim" e ainda sem data de estreia, o espetáculo deve falar sobre a difícil realidade de ser artista no País. "Vivemos muito nessa vulnerabilidade financeira, de segurança nenhuma, num lugar de mendicância mesmo. Inclusive, conheço muito artistas que hoje estão morando na rua, porque não querem fazer outra coisa na vida, enquanto outros abandonaram a arte para fazer outras coisas. Ao mesmo tempo em que somos muito felizes com o que fazemos, carregamos essa insegurança sempre", conta.

A escolha da temática desta nova montagem está completamente ligada às incertezas que a coreógrafa carrega em relação ao futuro de seu grupo. "A gente imagina o que nos espera, mas não tem certeza de nada. Tento sempre pensar positivo, nunca desistir, mas confesso que o que vem pela frente me dá medo. Percebo que já não estão surgindo novos grupos na cena, e muitos bailarinos querem desistir de dançar. Acho que há uma rede de relações que a gente precisa fortalecer, entre público, artistas e financiadores. Mas sinto que a classe artística está fragilizada e cansada", lamenta.



Essa preocupação com a dança se estende à cidade do Recife como um todo. Ao longo de mais de duas décadas, Mônica buscou transformar a cidade por meio do Experimental. Entre 2004 e 2014, o grupo manteve em sua sede, no Bairro do Recife, um projeto social de formação de dança, que contemplou mais de 650 jovens. Mesmo com o fim do curso, o Espaço Experimental seguiu servindo à capital pernambucana como equipamento cultural independente.

Atualmente, o lugar está de portas fechadas, mas não por vontade de seus ocupantes. Em março, eles saíram do lugar a pedido da Santa Casa de Misericórdia, proprietária do prédio, que realizaria uma reforma. Até agora, no entanto, a obra não começou.

"O dono do bar que fica no térreo se recusou a sair e, por isso, a reforma não teria sido feita. Nossas coisas estão lá, mas eu ainda não posso entrar para fazer nada. Tentei negociar com a Santa Casa, mas não consegui nada. Se não voltarmos para lá, temos que encontrar outra sede", diz. Além da coreógrafa, atualmente, o grupo é formado pelos bailarinos Gardênia Coleto, Rafaella Trindade, Everton Gomes, Jorge Kildery, Anne Costa, Silvia Góes e Jennyfer Caldas.

Pontilhados

As comemorações dos 25 anos da companhia tiveram início com a execução do projeto aprovado pelo edital Rumos, do Itaú Cultural, que levou o espetáculo/intervenção urbana "Pontilhados" às ruas de Porto Alegre e São Paulo, em setembro e novembro. Originalmente criada para o Bairro do Recife, a obra guia os espectadores em um passeio feito a pé, convidando-os a observar a paisagem urbana para além dos prédios, carros e calçadas. O desafio, nesta miniturnê, foi adaptar a trama aos contextos de outras cidades.



"O legal desse espetáculo é fazer as pessoas reconhecerem o lugar onde elas vivem. Por isso, chegamos às cidades bem antes das apresentações, para fazer uma pesquisa histórica e recolher depoimentos", explica Mônica. Em cada passagem, o espetáculo acaba incorporando características distintas.

"São realidades completamente diferentes, mas algumas cenas do original permaneceram, já que tratamos de temas universais. No Recife, a gente já tocava questões que são comuns às grandes cidades do mundo inteiro", complementa a diretora, que gostaria de continuar a adaptar "Pontilhados" para outras localidades.

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