“Hot Sul” prende o leitor do início ao fim

Romance de suspense, morte e rituais religiosos sombrios de Laura Restrepo

Cantor ZezoCantor Zezo - Foto: Divulgação

 

O sonho norte-americano cai por terra em um triller de suspense, assassinato e rituais religiosos um tanto sombrios. Difícil despregar os olhos da tela. Ops, do papel, em “Hot Sul”, de Laura Restrepo. E olha que estamos falando de uma caudalosa obra de 516 páginas que não deixam o leitor tomar fôlego, do início ao fim. Se fosse um filme, provavelmente seria um longa de três horas.

A história começa com duas crianças passando por um ritual de auto-flagelamento. E corta para 30 anos depois, quando Cleve, um escritor de quadrinhos que dá aula de redação criativa para presidiárias, encontra pelo caminho um rosto pregado numa árvore. Ironicamente, o homem assassinado, antes apenas um pobre vendedor de ração com feições comuns, tornou-as marcantes após ser vítima de uma morte grotesca.

O livro é repleto de referências de história e cultura pop. Desse universo a autora, que é colombiana e jornalista, além de vencedora de inúmeros prêmios de literatura, retirou do lado dinâmico da cronologia não linear da sua narrativa, que tem mais de um protagonista. Além de Cleve, assassinado também em outro momento ritualístico e encontrado com uma coroa de espinhos, temos María Paz, filha de Bolivia. Esta última é irmã de uma família em que todos tinham nomes de países da América Latina.

Isso a fez detestar o que ela via como sinônimo de atraso e de vida difícil. Passou anos longe das filhas, nos Estados Unidos, ralando em subempregos e se submetendo até a prostituição para conseguir o tão sonhado visto e trazer as filhas. Para quê? Pa­ra morar em um bairro sujo, cheio de lixo, com uma qualidade de vida pior do que a que levava na Colômbia. A crí­tica é forte à hipocrisia nor­te-americana, sempre com um sorriso no rosto mas que não quer dizer nada se o próximo precisar de ajuda. Principalmente se este for um imigrante pobre.

Mesmo assim, María não vai embora. Até que consegue um emprego bonzinho, de pesquisadora de hábitos de hi­giene. Um tema no qual a autora se atém com afinco, pa­ra falar da essência das pessoas, de como é diferente o que se entende por limpeza. Em um certo bairro em que os moradores tinham como vizinho um fétido lixão, o que lhes causava mau cheiro era a presença de imigrantes! Enquanto isso, casou-se com um branco e conseguiu o vis­to definitivo, algo imprescindível para deixar de ser eternamente discriminada. Só que o tal marido de pele branquinha é da Croácia e tem um irmão violento e vagabun­do, um tanto estranho, com quem María Paz se envolve mesmo depois de casada.
Sem querer adiantar demais o enredo, há uma vivên­cia em uma prisão de estilo medieval cuja construção e o funcionamento intrigam. Assim como os arredores, on­de em um bar o dono cobrava ingressos para que os clientes pudessem ver as presas caminhando acorrentadas quando entravam e saíam do ônibus que as transportava.

Com tempo de sobra e umas aulas de redação criativa, María começa desembestadamente a escrever sua vida com riqueza de detalhes, numa escrita leve, romanceada, como se fosse um livro dentro do outro. Sim, pois a obra é dividida em relatos de protagonistas. Tem a narrativa sob a ótica do professor de redação de María, um escritor de quadrinhos que queria ser romancista e vê a estrutura do romance como um ritual: “o único grande dilema é a condenação e o perdão. Basta escavar nele para encontrar entre seus personagens a vítima e o algoz, o crucificado e o crucificador”. A essa altura, nossa heroína é apenas crucificada e vítima, e o algoz é os Estados Unidos, a tal terra prometida que só lhe trouxe tristeza, dor e confusão. E nesse cenário, sonho e decepção parecem sempre a mesma coisa, em eterno loop.

 

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