HQ 'Deus aos domingos' apresenta narrativa orgânica

Autor Rafael Campos Rocha retorna à personagem depois do quadrinho 'Deus, essa gostosa' (2012). Sua versão de Deus é mulher, jovem e negra

Capa do quadrinho "Deus aos domingos", de Rafael Campos RochaCapa do quadrinho "Deus aos domingos", de Rafael Campos Rocha - Foto: Divulgação

Deus segundo Rafael Campos Rocha é uma mulher negra, sexualmente livre, fascinada por arte e violência. "A ideia era inverter a imagem do Deus ocidental judaico-cristão tradicional. Ele é homem, velho, casto, sábio, hierático, inacessível. Um patriarca. Meu Deus é mulher, jovem, negra, sexual", explica o autor, que lança o quadrinho "Deus aos domingos", sequência da HQ "Deus, essa gostosa" (2012).

"Ela não posa de Matriarca, de sábia, de ponderada, de nada disso", diz Rafael. "Age pelas próprias vontades, age de acordo com seu desejo, muitas vezes sexual, e age muito sobre o efeito do álcool. Ela é também um retrato de minhas amigas e minha companheira. E um autorretrato. Os gostos dela são os meus: sexo, violência e arte. E liberdade. Liberdade é minha pedra de toque", ressalta, o autor, destacando as principais características que movem sua versão de Deus.

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Rafael apresenta uma história peculiar: não é uma narrativa ordenada e metódica, tende mais para um desenvolvimento orgânico e sentimental. "Não planejo muito a história", diz o autor. "Os personagens surgiram como tudo o que eu faço, da ponta da caneta. O livro continua de onde parou o primeiro; um domingo. É um livro mais apocalíptico também, já que o mundo é destruído diversas vezes. Ele é uma despedida do personagem, de certa forma. Nunca mais desenhei Deus, e acho que nunca mais vou desenhar", ressalta.

Através dessa personagem, Rafael parece falar sobre os modos da vida contemporânea: estão na pauta do autor sexualidade e capitalismo, além de religiosidade e racismo. "Os temas, como os desenhos, vêm naturalmente", diz. "O tema capitalismo é uma constante em minha vida, já que sou um socialista e um trabalhista que detesta ricos. Hoje sou filiado ao PCO, mas sempre fiz coisas para movimentos sociais e outras encrencas. O sexo é parte da minha vida, assim como, não vou dizer a religiosidade, mas uma espécie de espiritualidade difusa", ressalta.

   Volta

O retorno a essa personagem, publicada inicialmente na Folha de S. Paulo e na revista Piauí, ocorre depois da "péssima" repercussão do quadrinho de 2012. "No meio dos quadrinhos foi ignorado pelos outros autores, mas editado com afinco por alguns editores, o que foi sinal de sorte. A maioria dos fãs é composta por mulheres negras que se identificam com o personagem. Algumas se sentiram ofendidas, mas a maioria dos ofendidos é de homens desenhistas ignorantes e sem talento. Tipo 90% do mercado", sugere o autor.

"Decidi pela continuação assim que terminei o primeiro livro, em 2011. O livro está pronto há mais de cinco anos. Como o meu editor da Companhia das Letras saiu, o André Conti, tirei meu livro da editora. Mas acho que eles nem deram falta. Lancei esse pela Veneta, porque o Rogério de Campos, além de ser o maior editor de Quadrinhos do Brasil, é meu amigo. Continuar para mim é continuar a amar os amigos e minha pequena família de dois filhos e uma esposa", ressalta.

Serviço

"Deus aos domingos", de Rafael Campos Rocha
Editora Veneta, 96 páginas
Preço médio: R$ 39,90

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