HQ 'Sem Volta', de Charles Burns, chega ao País

Trilogia, lançada nos Estados Unidos entre 2010 e 2014, é editada no Brasil pela Companhia das Letras como coletânea. HQ 'Sem Volta' traz a poesia e o amor em meio ao caos

HQ 'Sem Volta'HQ 'Sem Volta' - Foto: Divulgação

SÃO PAULO (Folhapress) - As histórias do quadrinista americano Charles Burns são protagonizadas por jovens deformados, criaturas mutantes e aberrações da natureza em ambientações fúnebres. A recém-publicada HQ "Sem Volta" (Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 69,90) não foge ao padrão.

Coletânea de uma trilogia lançada nos Estados Unidos entre 2010 e 2014, o álbum narra a jornada do jovem artista Doug entre performances poéticas, uma vida romântica conturbada e seu empenho em sobreviver em um mundo pós-apocalíptico habitado por lagartos humanoides que operam uma fábrica de mulheres parideiras dos ovos que alimentam a população. "Eu sempre digo que os meus quadrinhos são histórias de amor", afirma Burns. O riso contido ao final da declaração tem o tom sombrio que remete às obras que fizeram do artista um dos autores de histórias em quadrinhos mais influentes e premiados do mundo.

Burns, hoje aos 62 anos, idealizou a HQ "Sem Volta" como um retrato de sua vida como fã de quadrinhos e música punk no final da década de 1970, mas a trama tomou outro rumo. O novo direcionamento, diz, surgiu após ele concluir que estava repetindo ideias de sua obra-prima, "Black Hole" (ed. DarkSide Books). Os direitos de adaptação para o cinema foram comprados recentemente pela produtora do ator americano Brad Pitt.

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"Sem Volta" é o projeto mais longo e pessoal do autor em seguida ao seu clássico. Apesar do diálogo entre os temas abordados e da arte característica do quadrinista, ele se reinventa utilizando cores e estabelecendo uma distinção entre a realidade banal do protagonista Doug e o universo paralelo fantástico no qual ele também está inserindo. Cabe ao leitor encontrar o elo.

"Existem vários fragmentos de ideias que foram se construindo aos poucos, não houve um momento exato em que a ideia surgiu formada na minha cabeça", conta o artista sobre a concepção do enredo de sua mais recente HQ. Há anotações relacionadas ao projeto feitas há mais de 40 anos.

À medida que a jornada de Doug avança em suas duas realidades paralelas, vão ficando mais claras as intenções e os temas tratados por Burns. Decisões tomadas por ele na juventude e culpas remoídas ao longo de décadas são determinantes para sua sobrevivência no universo hostil dos homens-lagartos.

Nesses trechos sobrenaturais e mais aventurescos da HQ, o autor dá ao seu protagonista feição caricata e um topete semelhante ao do jornalista Tintim, protagonista de quadrinhos do belga Hergé (1907-83), uma de suas principais influências estéticas.

O trabalho de Burns sofreu forte influência da leitura das aventuras do belga Tintim durante a sua infância e de quadrinhos americanos antigos pós-Segunda Guerra. "Talvez não o estilo, mas as histórias e a atmosfera com certeza impactaram a minha formação."


Trabalhos inaugurais também serão traduzidos

Com o lançamento de "Sem Volta" e o retorno de "Black Hole" às livrarias nacionais após dez anos de sua primeira publicação no país, os leitores brasileiros terão disponíveis trabalhos mais recentes e elogiados de Charles Burns. Mas o catálogo do autor em português deve crescer nos próximos meses, com o lançamento de publicações inéditas, do início de sua carreira.

Para o segundo semestre de 2018 está prevista "Big Baby", publicada originalmente em 1986. A HQ mostra as aventuras de um garoto em sua vizinhança macabra e explicita a influência de gibis de terror e ficção científica B dos anos 1950 no imaginário de Burns. Para 2019 estão previstos os lançamentos de "El Borbah" e "Skin Deep".

Lançado em 1983, o primeiro é protagonizado por um detetive particular que apura casos misteriosos sempre utilizando vestimentas de lutadores de luta livre. Já a segunda obra, de 1992, é uma coletânea de contos sobrenaturais que têm como personagem principal um rapaz com trejeitos de cachorro após receber o transplante de um coração de um cão.

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