Irmãos Grimm em metáforas

Filme “A menina sem mãos”, que será exibido hoje dentro do Animage, é uma adaptação de conto de fadas

Desde 2014, 3,8 milhões de postos de trabalho com carteira assinada foram fechados no paísDesde 2014, 3,8 milhões de postos de trabalho com carteira assinada foram fechados no país - Foto: Pixabay

 

A animação parece o meio ideal para explorar o potencial de metáforas como forma de condução narrativa; é possível criar universos ou ideias com liberdade poética, sem as amarras tradicionais da realidade. Essa é uma característica particularmente interessante no filme “A menina sem mãos”, de Sébastien Laudenbach, que será exibido hoje, às 19h, no Cinema São Luiz, dentro da programação do Animage - Festival Internacional de Animação de Pernambuco.

No enredo, um homem vende sua filha para o diabo; ela escapa, mas sem suas mãos. Em sua jornada pessoal, encontra uma deusa, um jardineiro e um príncipe. “Eu criei o filme diretamente em animação, sem script ou storyboard, desenrolando a história do começo ao fim, seguindo o contorno do conto de fadas de Grimm, mas tendo muita liberdade em relação à história”, diz Sébastien. “O filme foi escrito com desenhos, não com palavras”, ressalta o diretor.

A história foi adaptada de um conto que aparece na literatura dos Irmãos Grimm. “É formado mais por uma sucessão de metáforas do que propriamente por um cenário dramático”, explica o autor. “Sua fraqueza é a falta de drama. Na minha adaptação, injetei mais drama na história, mas eu queria manter o mistério metafórico. Metáforas são sujeitas à interpretação, e cada espectador faz sua própria leitura. É o oposto do cinema de entretenimento, que expõe tudo e explica tudo. Com a metáfora há tantos filmes quanto há espectadores”, sugere.

Sébastien se sentiu cativado pela modernidade do enredo. “Na história original a gente vê uma menina que se torna uma princesa. Mas o estado de princesa é um estágio intermediário e não um apogeu. É um estado que não é satisfatório para ela. O conto diz que é melhor ser uma mulher feliz do que uma princesa insatisfeita.
Essa trajetória psicológica está relacionada a um caminho físico. E eu queria incorporar esta menina próxima de seus humores corporais: o sangue, o leite materno, a urina, as lágrimas. Queria que esta menina, que se tornou princesa para acabar como mulher, tivesse um corpo vivo”, detalha.

O filme explora o potencial simbólico da animação, a misteriosa lírica poética contida nas imagens. “Como qualquer arte, a animação oferece uma linguagem com sintaxe própria”, sugere o cineasta. “Isso me interessa, porque permite determinar uma distância com a realidade. A deficiência da animação é a ausência de corpos, rostos. O cinema clássico capta rostos. A animação não. Assim, usando esta técnica, nos esquecemos de encontrar outros caminhos, outras maneiras de contar histórias a partir de corpos e rostos. E isso é interessante”, destaca.

 

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