Isadora Melo lança primeiro álbum nesta quinta, no Teatro de Santa Isabel

Dona de uma voz afinada e precisa, a cantora se divide en­tre narrativas, divagações e melodias de compositores per­nambucanos contemporâ­neos

Rodrigo TeaserRodrigo Teaser - Foto: Divulgação

 Tom Zé costuma dizer que compõe para o cognitivo, porque não possui a beleza de um Milton Nascimento para o contemplativo. De acordo com a tese do baiano, ele precisa investir em histórias e no jogo das palavras para atrair o ouvinte para seu conteúdo, quando basta ao cantor mineiro soltar a voz em uma poesia para satisfazer o público. Os dois tipos de apreciação da palavra definidos pelo artista se aplicam ao trabalho da pernambucana Isadora Melo, que lança hoje o seu álbum de estreia “Vestuário”, em show gratuito no Teatro de Santa Isabel, às 20h.

Dona de uma voz afinada e precisa, a cantora se divide entre narrativas, divagações e melodias de compositores pernambucanos contemporâneos. A abertura com a faixa-título de Juliano Holanda, que também é produtor do disco, introduz a proposta do álbum dizendo “visto o verso e ele é minha roupa se faz frio ou se faz calor/ saio pela rua esperando o inverno ou a primavera que restou”. “’Vestuário’ é no sentido filosófico de vestir canções, do que está sendo dito. Acabou sendo um álbum muito autorreferente no sentido de falar de canção, porque a gente manteve uma clareza, uma limpeza nos arranjos. Foi uma decisão que tomamos logo no início para se voltar para o que está sendo falado”, explicou a intérprete, que é acompanhada majoritariamente por baixo, bandolim, violão e acordeon, sob os comandos de Walter Areia, Rafael Marques, Holanda e Julio Cesar.

“Escolher e combinar esses instrumentos da maneira mais inteligente o possível, foi uma decisão que tomamos para não deixar o disco monocromático. Acho que explorar esses elementos acabou virando uma assinatura de um projeto. De como esses quatro artistas usam esses instrumentos e como insiro minha voz dentro disso”, comenta Isadora que, antes de gravar o álbum, já se apresentava com a mesma formação desde 2014, quando lançou o EP homônimo. O trabalho funcionou como um preâmbulo de “Vestuário”, que herdou “A Joia” e “Partilha” do disco de três faixas. Para o show desta noite, Rogê passa a substituir Areia, que atualmente vive em Portugal.

Assim como “A Joia”, “Partilha” ganha roupagem mais limpa no álbum que chega agora às lojas, com direito a uma reprise mais minimalista ao final do disco. “’Partilha’ é de Juliano e foi primeiramente gravada por Alessandra Leão, mas a gente acabou se apropriando dela. Eu e ele entramos em um impasse, porque ele queria usar a versão tecnicamente melhorada e eu queria colocar uma versão mais vazia, aí acabamos resolvendo colocar as duas”, justifica Isadora, sobre a repetição. Além do produtor, a cantora também “veste” autores como Julio Holanda (em parceria com Juliano), em “Braseiro”, e Zé Manoel, Kassin e Mavi Pugliesi, em “Habanera Hobie Cat Acalanto”.



Ambas as músicas também já haviam sido gravadas por outros artistas antes, mas ganham uma personalidade mais delicada na interpretação da cantora. “Zé chegou a me mandar sete músicas inéditas, mas ainda assim quis gravar “Habanera” (primeiramente lançada em ‘Canção e Silêncio’, do próprio Zé Manoel). Ele disse: Dora, faz a tua versão”, lembra ela, que canta com o pianista em “Ave D’Alma”. As demais faixas são inéditas e incluem dois momentos de quebra na linearidade sonora do trabalho. O primeiro acontece com “Pequena”, de Glauco Cesar II, cujo coro dicotômico conta com a participação do pai Karlson Correia, e depois em “Praia do Sossego”, de Caio Lima, em que a cantora é acompanhada somente pelo violão de aço e-bow.

“’Pequena’ tem harmonia e melodia complicadas, mas a gente achou que cabia uma faixa mais experimental ali. E ‘Praia do Sossego’ traz o e-bow para o disco que é todo acústico”, obseva Isadora, que teve a preocupação de escolher um repertório formado praticamente só por pernambucanos. A única exceção foi a colaboração do carioca Kassin em “Habanera”. “Acho que o álbum todo tem uma nostalgia, tem saudade, tem imagem. É o retrato de uma época da minha vida, ele traz uma versão de mim. Como não tenho a menor pretensão de ser
compositora, é natural que eu procure pessoas que digam o que eu quero, mas não consigo. Não pensei em restringir ao Estado, mas tinha a intenção de trazer compositores daqui, porque temos uma maneira muito própria de falar as coisas. No próximo talvez não esteja tão direcionada”, comenta ela, que ainda interpreta músicas de Hugo Linns, Hugo Coutinho, Clara Simas e Paulo Paes.

Simas é amiga de infância da cantora e compôs "O De Mais Valia" em parceria com Paulo Paes durante a adolescência. A gravação de Isadora para a música reafirma o caráter pessoal do trabalho que transparece diferentes a memória afetiva da cantora. Depois de uma temporada em São Paulo como parte do elenco do musical “Gabriela”, dirigido pelo conterrâneo João Falcão, Isadora já alça vôos em outros terrenos, mas carrega na voz um universo próprio que não precisa de tantos enfeites para afirmar sua beleza.

SERVIÇO

Show de “Vestuário”, de Isadora Melo
Quando: Nesta quinta, às 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, S/N)
Entrada gratuita
*Ingressos disponíveis para retirada a partir das 18h

“Vestuário” está disponível em plataformas digitais como Deezer e Spotify

Veja também

Festival de Telluride cancela edição de 2020 por causa do coronavírus
Coronavírus

Festival de Telluride cancela edição de 2020 por causa do coronavírus

Ator diz ser filho de Francisco Cuoco e pede exame de DNA
famosos

Ator diz ser filho de Francisco Cuoco e pede exame de DNA