João Cavalcant: 'Bicho Saudade' com Lenine e carreira independente na música

Filho de Lenine se inspira no pai mas segue em trajetória autoral e com sonoridades diversas

João Cavalcanti e LenineJoão Cavalcanti e Lenine - Foto: André Rola

Nem só de samba vivem cariocas da gema que crescem ouvindo, vivendo e cantando o gênero na fluidez da boemia do bairro da Lapa. Tampouco a máxima de ‘tal pai, tal filho’ necessariamente conduz carreiras de pai e de filho para uma mesma direção. Que o diga João Cavalcanti, 39, o primogênito do artista pernambucano Lenine.

“Postamos ‘Bicho Saudade’ nas redes sociais e as pessoas (comentavam): Ué, filho do Lenine? Como assim? Isso de alguma forma para mim deflagra o resultado de que meu pai e eu pensamos nossas trajetórias com independência”, enfatiza ele, sobre o single gravado por ambos e recentemente lançado nas plataformas digitais.

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Assinado por João e musicado por Lenine, o single retrata com fidelidade uma inversão nos papeis de pai e filho, além de denotar uma parceria afinada entre os dois que trilham musicalidades independentes, autorais, mas sem privações de acolhimento em composições de um e/ou de outro, como em "A Causa e o Pó", de Carbono (2015).

"Escrevi 'Bicho Saudade' em forma de poema, sem pretensão de que virasse música, na véspera de uma viagem longa que eu faria a trabalho, e que me deixaria distante de meus filhos. Eu sabia que seriam dias muito doídos. E num desaguar poético, prevendo a sensação de afastamento, quis brincar com a expressão saudade, personificando-a como um bicho partido", contou João em conversa com a Folha de Pernambuco.

"E quando meu pai estava fazendo o 'Em Trânsito' (2018), ele me sondou sobre possibilidades para o disco e eu contei sobre o poema que havia escrito, pautado muito por minha relação com meus filhos, mas também sob o ponto de vista de um filho que também já sentiu sua falta. (...) Ele pirou com a letra", complementou.

Assista ao clipe de 'Bicho Saudade':



E, como diria o próprio João, foi uma "janela poética de tempo que os uniu como pai e filho (e artistas) que são", porque inerente às suas carreiras estão os períodos de estrada distantes das famílias. "Eu tinha 13 anos, o Bruno (irmão), 5, e meu pai saiu em turnê com 'Olho de Peixe' (1993) e ficou uns 4 meses em viagem fora do país. Então a saudade é algo que nos une", ressaltou ele, que, em um ambiente "nu e desarmado", deu a "Bicho Saudade" a intimidade desejada numa gravação entre as inconfundíveis cordas do violão de Lenine, que também lhe emprestou uma segunda voz na canção. "Jogamos em outro lugar que é um lugar carregado de emoção", ponderou João.

Do samba para liberdades (na música)
"Sou fã do Sting, amo o Dominguinhos e ouço a Billie Holiday e a Nina Simone, além de ser louco pela música latino-americana. Isso tudo não cabia no Casuarina. Não vou deixar nunca de fazer (samba), tenho vontade de estar perto, mas é uma entre muitas coisas que gosto, um entre muitos gêneros e maneiras de lidar com a música que me faz sentir vivo". É ecletismo que chama? Ou talvez uma versatilidade consonante com a maneira de dialogar com a arte pensada por João Cavalcanti quando seguiu, a sós, em sua carreira musical depois de mais de uma década dedicado ao grupo que resgatou a Lapa das rodas de samba e choro?

Desde "Placebo" (2012), primeiro álbum solo de João Cavalcanti, já se delineava uma individualidade artística que, à altura, não cabia mais (apenas) em uma única sonoridade. Assim como em "Garimpo" (2018), que o levou a uma expressão mais integral de tudo que o envolvia na música, incluindo o samba que outrora ele ouviu Lenine cantar junto a Bráulio Lacerda, compositores dos enredos dos blocos carnavalescos cariocas.

Fato que influenciou seus primeiros passos, assim como os Carnavais que frequentou em Olinda que, somado a outros tantos recortes que ele tem na música, o fez, como artista, à parte de sua relação como filho do cantor e compositor pernambucano. "Nunca capitalizamos nossa relação", reforçou.

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