"Joaquim": a história antes do herói

Filme “Joaquim” levanta as motivações que levaram um homem comum se tornar um importante personagem brasileiro: o Tiradentes

"Joaquim", filme sobre Tiradentes"Joaquim", filme sobre Tiradentes - Foto: Imovision/Divulgação

Em "Joaquim", o cineasta pernambucano Marcelo Gomes narra os eventos que levaram Joaquim José da Silva Xavier a se tornar Tiradentes, importante personagem da história nacional. O filme será exibido nesta quinta-feira (20) , em pré-estreia, no Cinema São Luiz, às 20h; nesta sexta-feira (21), o diretor estará no Cinema do Museu, ao lado dos atores Júlio Machado (Tiradentes) e a portuguesa Isabél Zuaa (a escrava Preta), para participar de um debate depois da sessão de 20h15. Ainda nesta quinta-feira, às 17h, Isabél estará no evento "Trajetória: o espaço social e artístico da mulher negra", no espaço Apolo 235.

O filme parece baseado em uma interessante combinação entre precisão histórica e vontade de examinar as ações de Tiradentes a partir das leituras e das preferências estéticas de Gomes. "As bases da história são inspiradas em elementos reais. Ele era alferes e dentista. Trabalhou no caminho que ligava Minas [Gerais] ao Rio de Janeiro. Trabalhou no registro de Paraibuna, onde era feita a fiscalização de entrada e saída de mercadorias. Caçava contrabandistas. Viajou pelo Sertão proibido para fazer diligências", diz o diretor.

"Já na minha ficção, penso que o contato que ele teve com os índios e com os africanos vindos como escravos e que sofriam crueldades do Império português foram fundamentais para a tomada de consciência do personagem. Imaginei que não somente as ideias iluministas influenciaram Joaquim. O caldo social e cultural foi fundamental para sua tomada de consciência. E nesse sentido o filme é mais uma crônica sobra o Brasil colônia do que uma novela histórica, mais uma poesia do cotidiano do século 18 do que um relato oficial", opina o diretor.

O filme começa com a narração de Tiradentes, um depoimento feito pelo homem descrevendo aspectos que levaram a sua morte. Na imagem, em relativa distância, vemos sua cabeça, enfiada em uma estaca. A conexão inicial é com Machado de Assis e o livro "Memórias Póstumas de Brás Cubas": um homem morto, que detalha aspectos importantes sobre sua existência. Esse primeiro momento antecipa certos movimentos do filme: o debate sobre classes sociais, hábitos e costumes de um povo e uma geografia em processo de mudança.

"Dois livros me marcaram", diz Marcelo. "Primeiro 'História da vida privada no Brasil - Volume 1', com textos de vários autores e organizado por Laura de Mello e Souza. Nessa leitura descobri textos sobre costumes, hábitos e modos dos brasileiros nos primórdios da colonização brasileira: o que comiam, como se vestiam, como eram educados, como era o cotidiano dos escravos, como viajavam para o interior das Minas, hábitos de higiene, o dia a dia das vilas. E ainda li 'Os desclassificados do ouro', da mesma autora", detalha.

Embora o filme não aborde diretamente o destino de Tiradentes, a última imagem antecipa o futuro do protagonista, uma construção que indica com certa ironia eloquente as diferenças fundamentais que separam Tiradentes do resto dos integrantes da Inconfidência. Em um delicado jantar no campo, vemos Joaquim devorar a comida sem utensílios ou modos, enquanto as pessoas em volta observam expressando através do olhar e da linguagem corporal desconforto por dividir espaço à mesa com um homem sem requintes.

De onde veio a ideia
A ideia para o filme surgiu há oito anos, quando Marcelo foi convidado pelo produtor José Maria Morales, da Wanda Films, para participar de um projeto da TVE (Televisão Espanhola), chamado "Libertadores", para comemorar o Bicentenário das Independências. "A ideia era realizar oito filmes sobre protagonistas das lutas de independência na América Latina. As películas pretendiam resgatar o pensamento e a obra das figuras mais relevantes do processo de emancipação do continente", diz Marcelo.

"Sou apaixonado por filmes históricos e já havia trabalhado em outros dois filmes de época extremamente gratificantes: 'Madame Satã' (como roteirista) e 'Cinema, Aspirinas e Urubus' (como roteirista e diretor). Além disso, José Maria me ofereceu completa liberdade criativa. O convite era irrecusável. A crise na economia da Espanha paralisou o investimento da TVE. Eu já estava fascinado com a ideia de refletir sobre a sociedade brasileira do século 18. O produtor João Vieira Jr. e eu decidimos seguir em frente com o projeto e fomos à procura de financiamento", diz.

Ao retomar o projeto, Marcelo começou um processo de leituras de publicações históricas. "Todos dão sua versão dos fatos sobre Tiradentes. O que se percebe é que nem mesmo entre os historiadores existe uma unanimidade sobre a figura de nosso herói. Às vezes apresentam ele com um homem sem defeitos, puro. Às vezes como uma pessoa de suma importância na inconfidência, e às vezes como um personagem secundário no processo da conspiração.

Foi a consciência moral e ética de Tiradentes que chamou a atenção do diretor. "O que realmente soltou aos meus olhos é imaginar o que o levou um alferes da guarda real a tomar parte em um movimento conspiratório contra a coroa portuguesa. Essa mudança de paradigma dentro de uma ética do século 18 era o que mais me interessava. E assim foi tomada a decisão de narrar a vida do alferes Joaquim antes da Inconfidência Mineira. Muito antes dele se tornar o herói Tiradentes", detalha.

Perguntas para Marcelo Gomes
"Existe uma terrível concentração de renda e um abismo econômico entre as classes sociais no Brasil, que é uma herança do período colonial".

Em que sentido esse filme se comunica com sua filmografia prévia?
Esse filme é um filme de personagem. Todas as decisões estéticas foram tomadas em função do drama do personagem. E ainda, esse filme fala de um personagem solitário, com seus conflitos e contradições. Um mergulho na alma do Joaquim. É nesse sentido o "Joaquim" dialoga com os meus outros filmes.

Como foi o trabalho com o elenco? Como é seu método de trabalho com atores?
Eu adoro fazer testes e dessa vez não foi diferente. Eu queria que atores portugueses fizessem os personagens portugueses, os personagens africanos por africanos ou descendentes e assim sucessivamente. Testei vários atores, pensando principalmente no biotipo necessário e também no poder de improvisação. A partir daí, fiz um longo trabalho de ensaios onde tentávamos descobrir a partitura do personagem. Começo, antes de mais nada, pela fisicalidade: como eles andam, como comem, como se comportam. Depois disso vamos para a coreografia das cenas e somente depois os diálogos.

O que esse filme revela sobre o Brasil de hoje? Acha que é possível conectar temas/personagens com o período político atual?
Acho que sim, mas não quero adiantar ou comentar onde se encontram essas conexões no filme. Espero que cada espectador, à sua maneira, faça essa avaliação. O filme revela que as fraturas sociais de hoje têm origem no nosso passado colonial e que esse passado faz parte de nosso presente. Existe uma terrível concentração de renda e um abismo econômico entre as classes sociais no Brasil, que é uma herança do período colonial. Até mesmo em pequenas coisas a herança colonial está presente. Por exemplo, a maioria dos prédios brasileiros construídos nos anos 1950, 1960, 1970. Centenas de anos após o fim da escravidão ainda preservam algo extremamente colonial em sua estrutura: existe a entrada social e a entrada de serviço. Isso é o modelo da casa grande e senzala que se perpetua.

Serviço > 

“Joaquim”
Pré-estreia
Onde: Cinema São Luiz (Rua da Aurora, 175)
Quando: quinta-feira (20), às 20h

Sessão debate
Onde: Cinema do Museu (Av. Dezessete
de Agosto, 2187)
Quando: sexta-feira (21), às 20h15

Palestra
“Trajetória: o espaço social e 
artístico da mulher negra”
Onde: Apolo 235 (Rua do Apolo, 235)
Quando: quinta-feira (20), às 17h

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