Sáb, 07 de Março

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MÚSICA

Lello Bezerra transforma deslocamento em linguagem em "Matéria e Memória", seu segundo álbum solo

Guitarrista pernambucano radicado em São Paulo assume a voz, mistura tradição nordestina com eletrônica e faz do sentimento de estrangeiro o centro de sua nova obra

Lello Bezerra lança segundo álbum solo, "Matéria e Memória"Lello Bezerra lança segundo álbum solo, "Matéria e Memória" - Foto: José de Holanda/Divulgação

A trajetória do guitarrista Lello Bezerra é marcada por movimento. Nascido em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, o músico saiu de sua terra natal ainda adolescente para tocar em uma banda de forró, rumou para Sampa – onde vive há 18 anos –, passou por conservatórios, mergulhou no jazz, pesquisou improvisação em Paris e encontrou no teatro e na música contemporânea um campo fértil para expandir sua linguagem.
 
Agora, essa soma desemboca em “Matéria e Memória”, seu segundo álbum solo, que sai pelo selo Babel e marca uma virada: depois de “Desde Até Então” (2019), ele passa a cantar e a assumir a palavra como centro do trabalho.

Na sonoridade e conceito do álbum, aspectos como deslocamento, experimentação, identidade nordestina e pesquisa perceptiva – assuntos que orbitam a mente e a criação de Lello – ganham narrativa explícita.


Experimentação e identidade sonora
Atualmente, Lello toca com Jorge Du Peixe, Los Sebosos Postizos, mantém a Orquestra Laboratório Bastet e trabalha com montagens teatrais. Mas, seus acordes já soaram em trabalhos de nomes como Arnaldo Antunes, Chico César, Mateus Aleluia, Alessandra Leão, Siba, além de um sem fim de artistas.

Entre colaborações, projetos coletivos e temporadas de estudo, o artista transitou do popular ao erudito, da improvisação ao teatro, ampliando referências. Essa circulação intensa não resultou em dispersão estética. Pelo contrário: foi no contato com outros criadores que consolidou uma assinatura própria.

Em “Matéria e Memória”, Lello – que executou toda a instrumentação – condensa ritmos do Nordeste, improvisação e eletrônica, transformando a guitarra em paisagem sonora, muitas vezes, processada a ponto de não soar como tal.

Lello também utilizou pedais para alterar texturas, timbres e criar diferentes camadas sonoras, um organelle para clonar timbres de sintetizadores e a programação rítmica, via drum machine.

Mas, muito além da instrumentação, Lello Bezerra sintetiza o impulso criativo que move o novo trabalho: “A necessidade desse disco vem da necessidade de dizer.”

Voz, palavra e ficção afetiva
“Matéria e Memória” surge como uma necessidade de comunicação direta com o ouvinte. Diferente do disco de estreia, todo instrumental, a produção atual traz letras, construção narrativa e Lello passa a cantar.

Assumir a voz neste trabalho foi ao mesmo tempo desafio e descoberta: “Tive que me preparar mesmo, lidar com a minha voz, com a voz que eu tenho, não tentar construir um cantor agora”.

Distopia nordestina
A arte de “Matéria e Memória” funciona como síntese visual dos caminhos percorridos pelo álbum. O menino com capacete “Daft Punk” ao lado de um bode e o cenário sertanejo em combustão criam um contraste entre ancestralidade e ficção científica que espelha a proposta musical do trabalho - um território onde tradição, experimentação e deslocamento coexistem.

Para o artista, a imagem simboliza o sonho de deslocamento de um indivíduo que parte do sertão e passa a existir entre mundos, refletindo sua própria trajetória. “Chega um momento que esse indivíduo não é só sertanejo mais, é estrangeiro de todo lugar”, diz Bezerra.

Essa arquitetura sonora acompanha a ideia de estrangeiro, cruzando tradições e experimentação. “Isso tá no instrumental… Maracatu com IDM, improviso de jazz, coco com ciranda.”

Em resumo, ele define: “é um guitarrista dizendo coisas.”

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