Leonard Cohen em tom de despedida

Morte e espiritualidade, tão comuns na obra de Leonard Cohen, tomam ares de adeus em seu novo disco

Deputado Ricardo Teobaldo participa de reunião da liderançaDeputado Ricardo Teobaldo participa de reunião da liderança - Foto: Divulgação

 

Dois mil e dezesseis tem sido um ano de grandes despedidas musicais. Em janeiro David Bowie lançou “Blackstar”, sua carta de adeus. Em setembro foi a vez de “Skeleton Tree”, de Nick Cave, um disco arrasador sobre a morte do filho adolescente, Arthur. E agora chega “You Want It Darker”, de Leonard Cohen, em que ele parece dizer “Foi bom enquanto durou, vejo vocês do outro lado”.
Cohen tem 82 anos e está doente e fraco. Numa raríssima entrevista, dada à revista “The New Yorker”, deixou claro que não deve mais se apresentar em público - talvez um show de despedida ou uma pequena série de shows no mesmo local. Viajar, nem pensar.

Ele passa os dias em casa, em Los Angeles, e nem saiu de lá para gravar os vocais do novo trabalho. Gravou na sala, com a ajuda do filho, Adam, produtor do disco.
Mesmo para um compositor há muito obcecado por temas como morte e espiritualidade, “You Want It Darker” surpreende pelo tom de despedida. As letras falam de sóis que se põem, noites eternas e luzes que se apagam. Algumas frases são mais diretas: “Estou pronto, meu Senhor”, ele canta na faixa-título; em “Leaving the Table”, Cohen diz: “Estou deixando a mesa / estou fora do jogo”.
Musicalmente, o novo disco segue a mesma produção minimalista e arranjos espartanos de seus dois últimos trabalhos de estúdio, “Old Ideas” (2012) e “Popular Problems” (2014): a voz de Cohen, cada vez mais grave, áspera e sussurrada, é mixada mais alta e com mais destaque do que os instrumentos, como se a banda segurasse a onda para realçar o som cavernoso da voz de Cohen e permitir ao ouvinte apreciar melhor seus versos.
Como sempre, as letras são misteriosas e autobiográficas, e farão os obsessivos pela obra do compositor passar um tempão discutindo seus significados. “Treaty” parece falar de sua musa Marianne Ihlen, a norueguesa que Cohen conheceu nos anos 1960 na ilha de Hidra, na Grécia, e que inspirou canções como “Bird on a Wire” e, claro, “So Long, Marianne”: “Peço desculpas pelo fantasma em que te transformei / apenas um de nós era era real - e esse era eu”. Marianne morreu em julho, aos 81, de câncer.
Outra canção nova que periga entrar para o cânone de Leonard Cohen é “Leaving the Table“, com uma levada preguiçosa de guitarra, típica de música havaiana, e que lembra um dos grandes ídolos de Cohen, Roy Orbison (1936-1988). Já “If I Didn’t Have Your Love” é uma baladona romântica clássica, em que o autor diz que viver sem sua amada seria como “viver em uma noite eterna [...] em que um vento frio e triste engole o mundo”. Dá para imaginar os suspiros das fãs ouvindo essa beleza.
Parentes e amigos de Leonard Cohen dão a entender que “You Want It Darker” é o último disco do compositor. Mas ele já surpreendeu no passado – voltou ao palco em 2008, depois de 15 anos, e gravou sete discos (três de estúdio, quatro ao vivo) depois dos 75 anos de idade. Então, se ele aparecer daqui a pouco com mais uma coleção de grandes canções, por favor, não estranhem.

 

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