Arte

Livro aprofunda os significados da performance nas artes

Os autores argentinos Gonzalo Aguilar e Mario Cámara lançam pela editora Rocco "A máquina performática - A literatura no campo experimental"

Ney MatogrossoNey Matogrosso - Foto: Divulgação

 Quando a literatura sai de dentro dos livros e interage com outras artes, como a visual, a música e a dramaturgia, pode virar performance. Isso aconteceu lá pelo Concretismo dos anos 1950 e pelo Tropicalismo dos anos 1970, no Brasil, quando a letra escrita deixou de ser a única forma de expressão literária, e o segmento artístico performático passou a ser de grande relevância no País. É o que observam os autores argentinos Gonzalo Aguilar e Mario Cámara, atentando, porém, para o fato de os estudos ainda serem ignorados na academia.

 
Daí a importância do livro "A máquina performática - A literatura no campo experimental" (editora Rocco, 192 páginas, R$ 34,90), em que os autores analisam os significados do que está na periferia do acontecimento literário-performático. "Nossa ideia é propor uma leitura daqueles signos efêmeros, precários, que acompanham o texto literário e que tendem a se perder pela imponência do formato livro: os gestos, as vozes, a vestimenta, as imagens", disseram os autores em entrevista à Folha de Pernambuco, por e-mail.

Afinal, o ato performático acontece uma vez e o que fica é seu registro, e não o ato em si. Diante desse registro, novos signos surgem, a depender do momento, do corpo, da voz, do espaço, tornando-se mais essenciais do que a obra em si.

O corpo nunca é lido apenas em si mesmo. Quando desnudo representa a nudez, que já foi natural para os povos indígenas, mas que não o foi para o europeu que aqui chegou chocado.

Desde então, o nu sempre foi usado artisticamente ou como sinal de protesto. Os autores mencionam então o Movimento de Arte Pornô, de 1982, em que propunham uma "suruba literária", com o corpo como lugar político e criando poemas, desenhos, manifestos, ensaios e leituras referentes ao ato sexual.

A nudez foi usada como arma de experimentalismo; o prazer se tornou uma ferramenta de conhecimento e criação. "A repressão que castra nossos versos é a mesma que censura nossos corpos", disse Leila Miccolis no "Manifesto Corpofágico", inspirado no Antropofágico, de Oswald de Andrade, baseado nos tempos do nu sem culpa. Diferente da nudez do escritor Nelson Rodrigues, que sempre será castigada. Mas ao mesmo tempo desejada e apreciada, um paradoxo eterno.

A voz também é signo da literatura. E quando grita é agressiva. Assim foi na adaptação teatral "O Rei da Vela", de Oswald de Andrade, realizada por José Celso Martinez Corrêa, em 1967, "com uma encenação que combinava técnicas circenses e teatro de revista, ópera e teatro crítico, rigor gestual e trasgressão, ritual e pornografia, protesto e festa (...)".
Na música, a postura de Ney Matogrosso no palco, nos anos 1970, era altamente transgressora para a época, e dizia tanto quanto a letra de sua banda, os Secos e Molhados.

Poeta e músico, Arnaldo Antunes também era performer quando dançava nos shows de sua antiga banda, os Titãs. "Os movimentos do jovem Antunes assemelhavam-se a uma dança espasmódica (...)".

Já na poesia, usa as palavras de muitas maneiras, conferindo à linguagem uma liberdade que parece roubada do indivíduo: "Pensamento vem de fora/ e pensa que vem de dentro / pensamento que expectora/ o que no meu peito penso./ Pensamento a mil por hora,/ tormento a todo momento./ Por que é que eu penso agora/ sem o meu consentimento? (...)".

O espaço também possui sua contrubuição literária. Aguilar e Cámara citam a obra "Isto não é uma nuvem", de Lygia Pape. Trata-se de uma caixa de madeira aberta com um novelo de náilon em forma de nuvem dentro. "É mais que uma nuvem, é um mundo de sonho que se concretiza no espaço", definem os autores. Graças ao experimentalismo aplicado à literatura, o sonho vai além da escrita e das páginas de um livro.
Serviço
"A máquina performática - A literatura no campo experimental"
Editora: Rocco, 192 páginas
Preço médio: R$ 34,90

 

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