Livro conta a vida de 28 escravos brasileiros, 130 anos após a abolição

Obra resgata, por meio de pesquisas realizadas em documentos diversos, histórias de três séculos de tráfico e servidão. Apesar das tentativas de esconder o registro da escravidão no Brasil, livro traz à tona o cotidiano de 28 personagens

Livro de Leandro Narloch conta a vida de escravos esquecidos pela HistóriaLivro de Leandro Narloch conta a vida de escravos esquecidos pela História - Foto: Divulgação

Existem poucos documentos que comprovam a história da escravidão no Brasil. Em parte, porque a maioria dos negros não sabia escrever. Outro motivo é que pouco depois da princesa Isabel assinar a Lei Áurea, abolindo a escravidão no Brasil em 13 de maio de 1888, a monarquia caiu e o ministro republicano Ruy Barbosa mandou queimar todos os documentos de registro, posse e patrimônio envolvendo os escravos, alegando querer "apagar a mancha" do passado nacional. 

Muitos dizem que isso aconteceu por medo dos antigos proprietários pleitearem indenização do governo, como vários chegaram a tentar. Mas a destruição, por muito tempo, foi motivo para tornar esse período ainda mais nebuloso - o que tem mudado dos anos 1990 para cá, com o aumento dos cursos de graduação e pós-graduação em História e a descoberta de centenas de documentos esquecidos em arquivos, por falta de quem os analisasse.

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É por conta do seu teor inusitado que o livro "Escravos: a vida e o cotidiano de 28 brasileiros esquecidos pela História" se destaca e merece ser lido, num momento em que a abolição completa, oficialmente, 130 anos.

Ele aborda três séculos de tráfico e servidão, trazendo detalhes pouco conhecidos, como a escravidão portuguesa de povos não-africanos (um chinês, batizado como Antônio, chegou a ser trazido para o Brasil), a negociação com os reis africanos e a vida nas cidades, fazendas e quilombos da época.

Entre os personagens descritos no livro está Nicolau, que era escravo da Ordem Beneditina de Pernambuco e administrava uma fazenda onde viviam cerca de cem cativos. Ele tinha acesso a todo o conforto de um homem livre e chegou a comprar a liberdade da mulher, dos filhos e de dois escravos para seu uso pessoal, mas os monges não o quiseram libertar porque era importante demais na administração dos negócios.

Ao mesmo tempo em que um escravo podia ter seus próprios escravos, há o caso de uma mulher livre, Joanna, filha de uma índia com um negro, que vendeu a si mesma por 40 mil réis e um brinco e um colar de ouro.

Se muitos relatos confirmam a brutalidade que marcava aquele sistema, alguns espantam, como o caso do ex-escravo que mandava dinheiro à viúva de seu antigo dono, ao saber que ela havia empobrecido, ou das várias escravas e libertas que enriqueceram por meio de suas uniões com brancos ou de seu próprio trabalho. A partir dessa colcha de retalhos, pode-se perceber como o período de escravidão foi complexo e cheio de nuances.

Autor de livros controversos 

Conhecido nacionalmente por sua série de "Guias politicamente incorretos da História", iniciada em 2009, o jornalista curitibano Leandro Narloch alcançou altos índices de vendagem e espaço na mídia brasileira, chegando a ter seus livros transformados em programa pelo canal de TV a cabo History.

Ele também enfrenta diversas críticas, especialmente por parte dos segmentos de esquerda. Em seus primeiros livros, o escritor tendeu a estabelecer um padrão controverso de desconstrução de personagens históricos (como Zumbi dos Palmares, Salvador Allende, Aleijadinho e vários outros), apontando seus "defeitos" e pondo abaixo as visões que as pessoas tinham sobre eles. 

Nesta obra, que é o primeiro volume de uma nova série intitulada "Achados e perdidos da História", Narloch se ateve a mostrar aspectos curiosos vivenciados por personagens desconhecidos. "Quis contar histórias de vida, sem influência política. Algo para ser lido com prazer por qualquer pessoa e em qualquer lugar", explica.

Sob esse ponto de vista, as histórias são saborosas o suficiente para fazer com que todos, independentemente de cor de pele ou crença política, consigam se identificar com os relatos e se surpreender com eles.

Serviço:
"Escravos: a vida e o cotidiano de 28 brasileiros esquecidos pela História"
Editora Sextante, 209 páginas
Preço médio: R$ 39,90

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