Livro conta história de amor a partir do Alzheimer

Administrador Jaime Xavier lança, na quinta-feira (24), "Cuida de mim, meu amor - A jornada da desesperança", na biblioteca do Real Hospital Português

Jaime Xavier, 69, declara em livro o amor que sente pela mulher, Maria CristinaJaime Xavier, 69, declara em livro o amor que sente pela mulher, Maria Cristina - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Quem diz que o amor não perdura um casamento longo ou está mentindo ou não sabe o que fala. Neste outubro que marca os 48 anos do momento em que conheceu a companheira da vida toda, Maria Cristina, Jaime Xavier, 69, lembra até a roupa que ela usava. “Uma calça verde, que tinha uns risquinhos no tecido, uma blusa branca, uma sandália de cortiça preta. E o cabelo estava preso com duas marias-chiquinhas”, descreve, sorrindo.

Hoje a lembrança parece de outra pessoa. Desde 2014, quando recebeu o diagnóstico de perda de memória cognitiva, a psicóloga e engenheira mecânica de 67 anos não pode sair de casa sozinha nem assumir as tarefas do dia a dia, sempre à vista do marido e das cuidadoras.

“[A doença] é um estágio anterior ao Alzheimer. Se você vem aqui uma vez e volta no outro dia, ela não vai reconhecer. Ela lembra de pessoas do passado. As irmãs, por exemplo, ela conhece perfeitamente”, conta Jaime. A condição, que exige cuidado constante, motivou o administrador de empresas a escrever o livro “Cuida de mim, meu amor - A jornada da desesperança”, que será lançado na quinta-feira (24), às 18h, na biblioteca do Real Hospital Português, o da Agamenon Magalhães, na área central do Recife. “Uma ode ao amor”, define.

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No início feito de forma independente com o editor Tarcísio Pereira, o livro de 127 páginas será disponibilizado em e-book. Novos exemplares também estão produzidos pela editora Poligrafia, de São Paulo. A capa é do filho do casal, o designer Pedro, de 32 anos. “[O livro] é um pouco de catarse, uma vontade de tirar de mim, abrir a boca e falar, expressar aquilo que sentia e sinto”, explica o autor. O impulso de escrever veio para ele nos momentos mais solitários, principalmente à noite, enquanto Cristina dormia.

Diretor de uma rede de supermercados no Rio de Janeiro por mais de 20 anos, em 2017, Jaime voltou com a mulher para a Capital pernambucana, onde mora até hoje em um apartamento na avenida Boa Viagem.

Os primeiros sinais da perda de memória apareceram em 2014. “Ela cuidava de tudo da nossa vida. Pagamentos, venda e compra de imóvel, era sempre com ela. Daí começou a esquecer de pagar, a senha do cartão de crédito, que era sem limites, e o pessoal explorava. Começou a fazer compras muito altas de coisas que não precisávamos. Uma vez a gente foi para Búzios e teve que comprar tudo novo porque ela deixou todas as roupas em casa”, lembra ele. “Eu achava que era distração, não queria encarar o problema. E aí numa ocasião, quando eu estava viajando, meu filho a levou para um psiquiatra”, recorda.

Como a perda de memória faz com que ela estranhe lugares e pessoas novas, o administrador afirma que é preciso ter paciência. “Você tem que dar atenção, não pode se irritar. Você tem que concordar em tudo que ela diga e fazer com que ela mude de pensamento”, diz.

Um amor de quase 50 anos
No livro, Jaime Xavier fala sobre a doença por meio da história do seu casamento, desde quando conheceu a mulher com quem vive há 45 anos. O primeiro encontro foi em outubro de 1971. O jovem em início de carreira, com 21 anos, foi buscar a estudante de engenharia, de 19, a pedido de um amigo em comum, para levá-la a um churrasco organizado por um colega do trabalho, numa fazenda no interior. “A mulher desse meu amigo, que trabalhava comigo, era amicíssima de Cristina. Ele disse que não tinha mais espaço no carro para levar e perguntou se eu podia pegar ela em casa. Cheguei lá na hora, parei na frente da casa e vi meu anjo da guarda”, relata.

Apesar da paixão instantânea, o namoro levou um tempo para engrenar. Enquanto voltavam do churrasco, para vê-la de novo, resolveu pedir emprestado um livro que ela tinha. Ele foi buscar na mesma noite. “Me paramentei todo, botei perfume e fui na esperança de ela estar pronta para a gente dar uma saída. Quando cheguei lá, ela me entregou o livro e fechou o portão”, recorda. Depois de passar um mês viajando a trabalho, Jaime ligou para acertar a devolução do livro.

Depois de mais idas e vindas, sem aceitar sair com ele, veio o convite para uma festa junina. “Ela ficou dizendo que ia me ligar se fosse. E aí eu falei: ‘Se não for, me diga logo porque eu resolvo minha vida, o que fazer. Eu só vou se for’. Demorou para cá e para lá e falou: ‘Tá bom, eu vou com você’. E assim vai até hoje. Três anos de namoro e, em 1974, nos casamos na Igreja de São Francisco, em Olinda”, conta o administrador. "O amor é muito maior que o Alzheimer, transformando sofrimento em afeto", conclui.

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