Livro 'Me chame pelo seu nome' traz narrativa tóxica e intensa

Escrito por André Aciman, romance inspirou o filme homônimo concorrente ao Oscar

Elio e Oliver é o casal de protagonistas de "Me chame pelo seu nome", livro que inspirou o filmeElio e Oliver é o casal de protagonistas de "Me chame pelo seu nome", livro que inspirou o filme - Foto: Divulgação

Intenso é a palavra que melhor descreveria “Me chame pelo seu nome”, livro escrito por André Aciman que inspirou o filme homônimo, ainda em cartaz nos cinemas e que concorre aos Oscars de Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado. Publicado pela editora Intrínseca, o romance é um turbilhão de emoções que transpassa a história de Elio e Oliver, casal que o protagoniza. Narrado em primeira pessoa por Elio, conhecemos seu personagem — um adolescente que passa seus verões com a família em uma cidadezinha na Itália — a partir de seus pensamentos sobre Oliver, um rapaz que, convidado pelo pai de Elio, passa se hospeda em sua casa como pesquisador e historiador.

A premissa da história é explorar o jogo de sedução e a paixão entre os dois — o sentimento borbulhante e obsessivo no qual o protagonista não consegue parar de pensar; o ritual de trocas de olhares, toques e questionamentos. O peso que ele coloca em sua paixão pelo pesquisador vem carregado de autodescoberta, de tentativas de se encontrar em meio ao mar de pensamentos e desejos que tomam sua mente e seu corpo. A paixão de Elio por Oliver parece ser sua maneira de explorar sua bissexualidade de forma final, como se comprovando-a de uma vez por todas.

Ao mesmo tempo, tudo está no campo da fantasia, no mundo das ideias, e o adolescente idealiza sua sexualidade como idealiza também a Oliver: perdido em sua embriaguez de emoções, ficciona eventos, cria debates imaginários em sua cabeça, teoriza cada gesto. É uma narrativa completamente idealizada, mas o leitor sabe disso, e Elio sabe disso, porém o belo e a angústia se encontram no idealizado, nos "será que" e "e se". Não se sabe o quanto daquilo é real, o quanto Elio está apenas permitindo mostrar ao leitor, o quanto se permite admitir a si mesmo.

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O livro aposta no psicológico de Elio para trazer o leitor para dentro dessa relação. Elio tem medo e tem desejo, dois sentimentos que parecem se entrelaçar na medida em que ansia por Oliver, mas se questiona, se arrepende, enche-se de insegurança, se afirma e reafirma. Às vezes anda na estrada do desejo nas pontas dos pés, cautelosamente, repensando cada pensamento e atitude; às vezes é dominado pela vontade de correr, se jogar do precipício sem pensar nas consequências e lidar com elas, quaisquer que sejam, após. Procura, através do outro, se entender, se conhecer. “Me chame pelo seu nome e eu te chamarei pelo meu”, a frase que acaba dando título ao livro, traduz esse sentimento em uma hora de intimidade, de troca.

“Me chame...” poderia ser a típica narrativa sobre uma paixão de verão, uma história recontada por infinitas obras literárias e cinematográficas. O que torna o livro diferente, contudo, é sua espiral de pensamentos: ao “permitir” que Elio divague sobre paixão, vida, amor, sexualidade e afins, a obra adquire um tom envolvente e turbulento. Por vezes caminha com tranquilidade pelas memórias do adolescente, como quem segue pelas areias de uma praia deserta. Outras vezes cai no furacão de sensações e pensamentos que não podem ser interrompidos nem sequer por uma mísera vírgula.

Há algo na narrativa — na forma em que Elio detalha cada movimento, como pensa demais sobre cada palavra trocada e especula sobre a natureza de sua paixão, as palavras que usa e a forma como escreve quase que um poema de 288 páginas — que a torna inebriante em sua essência. Íntima, fisica e emocionalmente, mas também tóxica e intensa.

Serviço
"Me chame pelo seu nome"
Autor: André Aciman
Editora: Intrínseca
Preço médio: R$ 39,90

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