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Livro 'Meu velho guerrilheiro' aborda memória e política

Escrita por Álvaro Filho, livro 'Meu velho guerrilheiro' apresenta relato sobre um homem que anuncia um suposto "golpe"

Escritor Álvaro FilhoEscritor Álvaro Filho - Foto: Líbia Florentino/Divulgação

Há uma interessante mistura entre memória e política na prosa ficcional de Álvaro Filho. No enredo de "Meu velho guerrilheiro", um homem decide cuidar de seu pai, a pedido da mãe. O velho estaria falando de forma aparentemente desconexa, anunciando um suposto "golpe", enquanto a família se preocupa com sua saúde mental.

É através desse cenário que Álvaro constrói, com a estrutura de um mistério, um drama sobre os efeitos do passado, a maneira como certos homens agem quando confrontados com a ponta aguda da existência. O texto tem a cadência de quem não quer esquecer: frases curtas, repetição de palavras, ideias que circulam e voltam com mais força - uma maneira de reproduzir, através da literatura, os labirintos da memória.

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Nesta entrevista, o autor fala sobre suas motivações e o cruzamento entre literatura e política.

Gostaria de saber sobre seu processo de escrita: parece uma narrativa fluida, um texto que surge de forma orgânica. Como foi a escrita?
É um texto "novo" para mim, que, há 20 anos como jornalista, escrevi justamente da forma inversa, com clareza e sem redundâncias de pensamento e de palavras. Mas foi proposital, pois como o livro toca na dificuldade em lidar-se com a memória, ou com a falta dela, quis que os leitores experimentassem um pouco como funciona a cabeça de quem precisa criar estratégias para fixar as informações e tentar estruturar as ideias, e isto passa por repetir as palavras e as ideias, para verificá-las se ainda fazem sentido.

O que revela essa imagem do pai, balbuciando a palavra 'golpe' e percebido, pelas pessoas em volta, como alguém fora de si?
O livro é uma autoficção, ou seja, uma ficção estruturada numa biografia ou vice-versa. A parte biográfica começa em 2014, quando o meu pai começou do nada a falar no risco de um "golpe" no Brasil. Naquele contexto, parecia improvável, uma espécie de desvario, que nos levou a tomar algumas medidas em relação à saúde dele. Porém, quando o "golpe" se deu, a ficção começou. Pois percebi que as certezas podem cair, assim como caem as democracias. É sobre esta fragilidade das coisas, das memórias, das pessoas e das instituições que o livro trata.

O que esse título, "Meu velho guerrilheiro", comunica em termos de sentimentos e emoções?
Meu pai é um servidor público e professor aposentado, e um cidadão pacato. Sempre foi um entusiasta da democracia, da generosidade em preocupar-se com o bem estar dos outros, mas até onde sei, não se envolveu em movimentos de resistência à ditadura à época. Talvez, como ele uma vez deixou escapar, porque havia os filhos, eu e minha irmã, ainda pequenos. Mas agora, quando a democracia e os valores que ele estima estão em risco, reconheci nele uma face que não conhecida, "estranha" como trabalho no livro, de um guerrilheiro tardio, disposto, mesmo com a fragilidade imposta pela idade, a desprender forças em nome do que acredita. Neste sentido, este "meu velho" e outros tantos por aí, são "guerrilheiros" e dar voz à esse pequeno drama familiar é ampliar uma voz maior.

O livro tem uma pulsão política. De que forma a literatura pode afetar o real? Qual a importância da arte em tempos de crise?
É um livro político, mas no sentido nobre do termo. Tenho minhas opções políticas que são claras nas minhas redes sociais, pois são tempos difíceis e obscuros, e posicionar-se é um dever em situações assim, extremas. Mas não peço voto a ninguém no livro, nem elogio um plano de governo. Acredito na política não como a defesa dos meus interesses, como muitos pensam, mas na defesa dos mais fracos, daqueles que não têm condições de se defenderem sozinhos. A democracia, no meu ponto de vista, não é tratar todos iguais, mas dar chances para que todos obtenham os mesmos direitos e, principalmente, benefícios. Se, para isto, alguns precisarem de mais apoio que outros, isto deve ser feito. A política, para mim, é um ato de generosidade e se alguém for tocado por esta ideia ao ler o livro, acredito que ele fez o trabalho dele.

Serviço:
"Meu velho guerrilheiro", de Álvaro Filho
Editora Jaguatirica, 94 páginas
Preço médio: R$ 42,90


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