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Livro monta mosaico do sambalanço

Crítico musical Tárik de Souza reuniu informações durante 15 anos para o livro “Sambalanço, a Bossa que Dança - Um Mosaico”

Líder do PSB na Câmara Federal, Tadeu Alencar.Líder do PSB na Câmara Federal, Tadeu Alencar. - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

 

SÃO PAULO (Folhapress) - Quem não se atreve a dizer do que é feito o sambalanço não precisa se envergonhar. Jornalistas e até músicos têm dificuldade para traduzir esse subgênero do samba, nascido em meados da década de 1950. Nos últimos 15 anos, nas brechas de outros projetos, o crítico Tárik de Souza reuniu informações para o livro que está lançando agora: “Sambalanço, a Bossa que Dança - Um Mosaico”.
A palavra “mosaico” no título indica que a obra não aspira a ser um tratado teórico. Após um ensaio introdutório, Tárik lista 80 discos marcantes, apresenta 15 entrevistas e 13 verbetes biográficos. “Sempre achei estranho a bossa nova ter tantos teóricos e o sambalanço não ter nada. Ele foi ignorado. Ninguém sistematizou, delimitou”, afirma o crítico. Parte das entrevistas foi feita para o documentário quase homônimo de Fabiano Maciel, “Sambalanço, a Bossa que Dança”. O filme está pronto desde dezembro de 2015, mas aguarda liberação da Ancine (Agência Nacional do Cinema) para estrear. “O sambalanço foi muito popular na época e acabou esnobado pela crítica”, diz Maciel.
Para Tárik, a onda começou em duas pequenas boates da zona sul carioca, ambas com pianistas talentosos como proprietários: a Drink, de Djalma Ferreira (1913-2004), e a Arpège, de Waldir Calmon (1919-1982).
Mas quem se tornou o nome mais forte foi Ed Lincoln (1932-2012). Pilotando seu órgão Hammond à frente de um conjunto de ótimos músicos, o cearense radicado no Rio comandava bailes em que centenas de pessoas dançavam por até cinco horas. “A marca do sambalanço é o samba tocado no órgão e no Solovox, que é aquele pré-sintetizador eletrônico. É a eletrificação do samba mais a percussão caribenha”, delimita Tárik.
Ele ainda arrisca que o samba-exaltação dos anos 1930 e 1940 - cujo exemplo maior é “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso - foi precursor do sambalanço, por apontar “na direção dos gestos largos da dança, abrindo espaço para repiques e interseções de percussão e metais em brasa”.
Outro organista de destaque foi Walter Wanderley (1932-1986), que estourou nos EUA em 1966 com sua versão de “Samba de Verão” (Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle) e nunca mais voltou.
E nas escalações dos protagonistas estão o violonista e guitarrista Durval Ferreira (1935-2007) e o cantor Orlandivo, este perto de completar 80 anos. Crooner do conjunto de Ed Lincoln e autor de sucessos como “Samba Toff”, ele recebeu do então Jorge Ben a incumbência de lançar “Mas que Nada” e “Por Causa de Você, Menina”. Mas convenceu o compositor de que era o próprio quem deveria gravar esses espécimes muito peculiares de sambalanço.
Para marcar o ritmo, Orlandivo usa um chaveiro com sete chaves. Seus discos passaram a ser cultuados e pirateados na Inglaterra, no Japão e em outros países.
De 2003 a 2006, Henrique Cazes, músico e estudioso de choro, participou com Orlandivo do quinteto Sambaflex. Com um cavaquinho elétrico, Cazes evocava o órgão de Ed Lincoln. “Música para dançar não é música para ouvir. É preciso aprender a dinâmica do baile. Eu fui aprender com o Orlandivo”, conta.
O sambalanço ainda é praticado por nomes como Rogê e Clara Moreno, no Rio, e Clube do Balanço, em São Paulo. “Existem talentos hoje capazes de fazer coisas muito criativas. O que não existe é oportunidade. É mais fácil pôr um DJ para tocar do que um conjunto, uma orquestra”, diz Cazes.

 

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