Livro: 'Na outra margem, o Leviatã' fica entre o real e o fantástico

Escritor paraibano Cristhiano Aguiar lança livro de contos nesta segunda-feira (7), às 19h, no Ursa Bar e Comedoria. Livro parte das experiências do autor, que foi premiado pela prestigiada revista Granta, entre São Paulo e o Recife

Escritor paraibano Cristhiano AguiarEscritor paraibano Cristhiano Aguiar - Foto: Malu Vanz/Divulgação

Foi com o conto "Teresa" que o escritor paraibano Cristhiano Aguiar foi selecionado para primeira edição brasileira da Granta, prestigiada revista literária britânica, em 2012. 

Cristiano, formado em Letras pela UFPE e hoje professor da Mackienze, em São Paulo, foi escolhido para o livro "Melhores jovens autores brasileiros", que reuniu 20 autores com menos de 40 anos. Agora o texto faz parte de "Na outra margem, o Leviatã", da editora Lote 42, reunião de contos que será lançado nesta segunda-feira (7), às 19h, no Ursa Bar e Comedoria. Na ocasião, Yuri Pires apresenta seu livro "A pedra", da mesma editora.

Os contos recorrem a São Paulo e à experiência do deslocamento, de fronteiras. "O livro é muito calcado nas minhas vivências do trânsito entre o Recife e São Paulo entre 2010 e 2011", diz Cristhiano. 

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"Recentemente assisti a um evento sobre literatura contemporânea que abordava a importância da ideia de deslocamento na ficção atual. Acredito que esse tema surja no meu livro por uma sintonia com o momento no qual vivemos, quando exílios, migrações e fronteiras fazem parte da nossa pauta de debates políticos", sugere. 

"Isso também diz respeito à minha trajetória, pois o livro começa a ser escrito fora do País e é finalizado em São Paulo, cidade na qual não nasci e que adotei como atual moradia. Venho mudando desde que nasci. Sou natural de Campina Grande, mas hoje minha cidade natal é em muitos aspectos irreconhecível para mim. Morei 11 anos no Recife, mas sempre que volto sinto um estranhamento. Esse é um sentimento contraditório e angustiante, contudo pode ser matéria-prima para a ficção", reflete. 

É nos personagens que está a força central do livro: a maneira como se movem, os pequenos momentos fundamentais de inquietude e transformação. 

"Escrevo com uma imagem na cabeça e a essa imagem eu alio um conceito e um personagem. Tudo vem mais ou menos junto e eu fico alguns dias, ou mesmo semanas, pensando sobre a imagem e a personagem. Depois, tomo algumas notas e, por fim, faço um esboço bem geral do que quero com a narrativa. Em seguida, começo a trabalhar", explica Cristiano 

Aos poucos, os contos parecem se abrir para possibilidades fantásticas. "A ideia era trabalhar com experiências íntimas, desestabilizadoras, na fronteira entre o delírio ou o fantástico, e isso exigia uma abordagem mais intimista", diz o autor. 

"Meu foco temático consiste em vivências de uma certa classe média intelectualizada de São Paulo/Recife e para tentar, ao menos em parte, fugir a esse lugar comum, que tem sido explorado à exaustão por nossa literatura contemporânea, tentei conectar tudo isso ao imaginário da ficção científica e de horror e à criação de uma atmosfera do fantástico", detalha.

Origem 

O livro começou a ganhar forma em 2012. "Foi quando eu estava morando em Berkeley, Califórnia, trabalhando como pesquisador visitante no departamento de Spanish and Portuguese, através de uma bolsa de doutorado-sanduíche concedida pelo governo brasileiro mediante a CAPES", comenta Cristhiano.

"A ideia inicial era fazer um romance, mas com o passar dos anos fui percebendo que as histórias que eu queria contar pediam mais fragmentação e mais foco em momentos-chave dos personagens. Mantive a ideia dos contos dialogarem entre si, inclusive com personagens se repetindo de um conto a outro, porque esse é meu tipo favorito de livro de conto. Para dar uma costura aos contos do livro, decidi que quase todos teriam como personagem recorrente Lucas Motta, uma espécie de alter-ego meu e de anfitrião", detalha. 

"Foi algo que trouxe repercussões que mexem comigo até hoje", diz Cristhiano, sobre a Granta. "O impacto imediato foi grande: viajei, tive textos traduzidos, participei de eventos. A publicação me empolgou a dar continuidade ao trabalho da escrita ainda quando morava nos Estados Unidos. Muitas portas se abriram, mas como eu não tinha um material maduro naquele calor da hora, as portas rapidamente se fecharam e passei anos para me recuperar do que chamo hoje de um fracasso inicial", detalha. 

Depois da Granta, o conto se tornou um momento importante na trajetória do autor. "Foi um aprendizado longo e que me amadureceu muito. Só hoje me sinto mais à vontade para falar de forma mais franca sobre todo aquele processo. Acredito que ter participado da antologia me afetou de uma forma que muito do que escrevi nos últimos anos foi uma tentativa de ir contra 'Teresa'. Eu quase não o incluí no 'Na outra margem, o Leviatã', mas por fim me reconciliei com o conto e acho que ele contribui muito para o meu livro", explica. 

Serviço: 
Lançamento de "Na outra margem, o Leviatã", de Cristhiano Aguiar
Editora Lote 42, 112 páginas, R$ 40

Na URSA Bar e Comedoria (Rua Carneiro Vilela, 30, Encruzilhada)
Nesta segunda-feira, às 19h

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