Livro revela a indignação de Charles Baudelaire a respeito dos conflituosos anos 1860 na França
Em 'O pintor da vida moderna', o autor do clássico 'Flores do mal' cria protagonista que é alter ego do pintor franco-holandês Constantin Guys (1802-1892)
Estamos em meados do século XIX, dezenas de diários circulavam em edições matutinas, vespertinas e noturnas em Paris. As revistas existiam aos montes, atendendo a segmentos específicos como alta costura, música e suplementos literários. A vida social era fervilhante e a mídia tratava de levar o Império muito antes do american way of life pegar. Paris era o centro do mundo e, por meio da divulgação de texto em jornais, autores se consagraram clássicos.
O poeta Charles Baudelaire (1821-1867) se tornou um dos mais lidos na França. Assíduo colaborador da imprensa, escrevia sobre a vida urbana, costumes e papéis sociais, bastidores da nata, era crítico de tudo que se impunha contra aquilo que considerava belo. Da maquiagem exagerada das mulheres aos cenários devastadores dos campos de batalha, Baudelaire analisava fatos políticos com assombro e firmeza. Sobre o cotidiano, oscilava entre a acidez e o deslumbre, da moda ao automobilístico, transitando entre todos os temas com naturalidade.
Como colaborador do jornal Le Figaro, Baudelaire foi um comentarista cujas opiniões frequentemente refletiam convenções sociais que hoje se mostram ultrapassadas. Em “O pintor da vida moderna”, é possível ver que alguns de seus textos sofreram com o passar do tempo, sobretudo as reflexões sobre as mulheres. Entretanto, a leitura da obra como um documento histórico revela a intensidade e a indignação do escritor. Seus ensaios e crônicas capturam a atmosfera dos anos 1860, período conflituoso para a França.
Leia também
• Lançamento mundial do novo livro de Dan Brown, autor de "O Código da Vinci"
• Matthew McConaughey lança livro de memórias no Brasil e elogia "Ainda Estou Aqui"
• "O Perigo de Estar Lúcida": sobre o que é o livro que Odete Roitman lê em "Vale Tudo"
O protagonista do livro é o misterioso Sr. G., alter ego do pintor franco-holandês Constantin Guys (1802-1892). Correspondente do Illustrated London News em guerras épicas como a da Crimeia (1853-1856), o repórter se destacou no início da década de 1850 por representar o horror do conflito de Balaclava, na Rússia. Sr. G enviava ao jornal notas, desenhos e aquarelas para ilustrar a barbárie. Baudelaire foi quem descobriu o artista, que ganhava a vida como em publicações inglesas e francesas — os dois países uniram esforços na ofensiva contra os russos.
Descrito como um homem mundano por Baudelaire, G é “dominado por uma paixão insaciável, a de ver e de sentir, [e] se aparta violentamente do dandismo”. Sobre a figura do dândi, modelo de bom gosto na época, o autor disseca o termo, o tratando mais como um estilo de vida em que um homem se dá ao luxo de ser “indiferente, ou finge sê-lo, por política e razão de casta”.
Campo de batalha
Nos croquis do artista, o escritor descreve como G captava com emoção o conflito e suas consequências, como quando “aparecem ambulatórios nos quais a própria atmosfera parece enferma, triste e pesada: cada um dos leitos contém uma dor”. É possível afirmar que o elo das personalidades tão diferentes beneficia o texto como um todo por conta da curiosidade exercida pelo narrador. É o criador desenvolvendo sua criatura e narrando seus passos no campo de batalha.
Há uma inegável admiração, quase devoção, derramada em determinados momentos. A terra arrasada ganha face e dramaticidade nos ensaios, como quando Baudelaire relata a conversa de duas irmãs de caridade em um hospital, “espichadas, pálidas e rígidas”, enquanto nas “veredas agrestes e tortuosas, cobertas pelos destroços de um combate já antigo, marcham lentamente animais, mulas, burros ou cavalos, que carregam nas, em duas toscas cadeiras, feridos lívidos e inertes”.
Baudelaire lamenta que as ilustrações da guerra não tenham sensibilizado o imperador Napoleão III na época. Ao longo do livro, por meio da peregrinação de G pelos lugares impactados pelo conflito, o escritor reconstrói minuciosamente momentos históricos presenciados pela vista e pelas tintas do artista, como a visita do Sultão do Egito a Constantinopla. Com riqueza de detalhes, a opulência da comitiva do paxá escandaliza o escritor francês cujos “funcionários turcos, verdadeiras caricaturas de decadência”, nos cortejos, esmagavam “seus magníficos cavalos”. Ao mesmo tempo, Baudelaire fica deslumbrado com a indumentária dos reis, descrevendo minuciosamente a luxúria dos abastados.
Essa mistura de sensações e complexidades do próprio autor, precursor do Simbolismo (ele publicou “Flores do mal” em 1857), mostra como a escrita de Baudelaire captou as contradições, os misticismos, as dores e as sombras que cada um carrega. Em “O pintor da vida moderna”, embora a figura de G seja excessivamente reverenciada, o francês revela mais sobre si do que sobre sua personagem. Ele evoca Montaigne e Santo Agostinho para justificar o dandismo. É contraditório, e, por isso, tão humano, tanto quanto seus leitores.
Livro: 'O pintor da vida moderna'. Autor: Charles Baudelaire. Tradutor: Tomaz Tadeu. Editora: Autêntica. Páginas: 86. Preço: R$ 37,90.

