Literatura

Livro revela como padres se aproveitaram da miséria no Haiti para abusar de crianças

História é contada no livro "A Cruz Haitiana - Como a Igreja Católica Usou seu Poder para Esconder Religiosos Pedófilos no Haiti" (Tagore Editora)

Livro chega às livrarias na sexta-feira (18)Livro chega às livrarias na sexta-feira (18) - Foto: Divulgação

No país mais miserável das Américas, marcado pela violência endêmica e pela destruição provocada por tragédias naturais, religiosos da Igreja Católica aproveitam a vulnerabilidade das crianças locais para cometer todo tipo de abuso.

Ao contrário dos casos de pedofilia ao redor do mundo, que ganharam destaque nos últimos anos, muitos dos crimes cometidos no Haiti por padres e núncios se mantiveram nas sombras, acobertados por autoridades eclesiásticas e também por lideranças políticas locais. Mais do que isso, o país virou destino de religiosos da Igreja Católica com um histórico de violações.

Essa história é contada no livro "A Cruz Haitiana - Como a Igreja Católica Usou seu Poder para Esconder Religiosos Pedófilos no Haiti" (Tagore Editora), com previsão de chegada às livrarias na sexta-feira (18). A obra é fruto de uma pesquisa de dez anos da jornalista Iara Lemos, repórter da sucursal de Brasília da Folha de S.Paulo.
 


O livro narra os casos de abusos cometidos por religiosos ao longo de três décadas. São criminosos que se aproveitam não apenas da miséria mas também da vulnerabilidade das crianças na cultura haitiana, usadas como escravas domésticas e como moeda de troca.

Além disso, conta a favor dos violadores o poder da Igreja Católica, mesmo em um país que preserva as tradições originárias do continente africano.

Grande parte da população haitiana é adepta do vodu. No entanto, essa religião ainda se desenvolve nos recônditos da sociedade, em rituais escondidos, normalmente à noite. Por outro lado, o catolicismo é a religião "do dia", a fé dos homens poderosos e o conforto da população carente, principalmente por conta dos projetos assistencialistas que desenvolvem.

"As histórias de abusos mais comuns são de troca de sexo por comida, remédios e até mesmo banho", afirma a autora.
"O alvo desses religiosos são crianças que vivem nas ruas, o que é bastante comum no Haiti. Eles levaram as crianças para as escolas, onde elas eram violentadas. Uma das vítimas, que engravidou de um padre, era ameaçada com uma arma para fazer sexo com ele."

Iara esteve pela primeira vez no Haiti em 2008 para a produção de uma série de reportagens, a partir da cidade de Jérémie. Acompanhou o dia a dia de freiras brasileiras em missão no país e pela primeira vez ouviu falar de casos de abusos.

Nos anos seguintes, começou sua pesquisa para o livro, resgatando documentos no Vaticano, no Canadá e nos Estados Unidos. Voltou ao Haiti e recolheu os depoimentos de vítimas, contando com o apoio do jornalista haitiano Cyrus Sibert, que realizou as primeiras denúncias de abusos, o que despertou a ira das lideranças da Igreja. Sibert precisou deixar o Haiti com a família, após as ameaças se tornarem mais frequentes.

A jornalista brasileira também trabalhou em parceria com o advogado Mitchell Garabedian, conhecido por suas pesquisas dos casos de abusos cometidos por religiosos. Garabedian é um dos responsáveis por desvendar as violações cometidas por padres na região de Boston, nos Estados Unidos, e que foram acobertadas por importantes figuras da Igreja. O caso, divulgado pelo jornal Boston Globe, depois virou roteiro do filme "Spotlight" (Tom McCarthy, 2015).

Os documentos analisados pela jornalista brasileira apontam que os primeiros casos datam dos anos 1990, quando o país vivia a transição da ditadura de Jean-Claude Duvallier, o Baby Doc, para sua ainda hoje frágil democracia. Calcula-se que foram centenas as vítimas dos religiosos nesses últimos 30 anos.

O livro relata os casos de violência com nomes e sobrenomes dos perpetradores. Alguns casos se tornaram notórios internacionalmente, enquanto outros eram de conhecimento apenas de uma parte da sociedade haitiana. Em todos, prevalece a impunidade por parte da Igreja Católica.

Um dos casos que ganharam notoriedade envolveu o ex-núncio para o Haiti e para a República Dominicana, uma figura equivalente a embaixador do Papado, Dom Józef Wesolowski. Entre 2008 e 2013, o então núncio praticou crimes nos dois países contra jovens em situação de rua, que eram levados até ele por outros representantes da Igreja.

Quando denunciado pela mídia dominicana, fugiu do país com passaporte falso, de volta para o Vaticano. Foi destituído de seu cargo, mas seu processo andou lentamente, com pouca transparência. O acusado aguardou em um quarto residencial na sede do Papado, como medida de restrição.

Em uma rara manifestação, o Vaticano informou na ocasião que "a iniciativa dos órgãos judiciais do Estado é consequência da vontade expressa do Papa, de modo que um caso tão sério e delicado seja tratado sem demora, com o rigor certo e necessário, com total assunção de responsabilidade pelas instituições chefiadas pela Santa Sé".

Wesolowski foi encontrado morto em seu quarto, em 2015, mas as causas da morte não foram totalmente esclarecidas.
A situação de marginalidade que se encontrou o país ao longo da sua história, e que permitiu a atuação de religiosos criminosos, aos poucos vai se restabelecendo.

Após um período atraindo a atenção mundial, por conta do terremoto que matou 220 mil pessoas, em 2010, o país caribenho está caindo no esquecimento. A missão de paz da ONU, que era comandada pelo Brasil, deixou o país em 2017. O Haiti novamente se vê assolado pela pobreza e pela violência.

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