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Longe de fábricas abandonadas, raves de techno migram para o Zoom

Longe de fábricas abandonadas e ruínas urbanas, eventos underground migram agora para a internet e buscam sobreviver em meio à pandemia

Balada do isolamentoBalada do isolamento - Foto: Club Quarentine/Divulgação

 Depois de passar dias isolado em seu apartamento, em Belo Horizonte, o designer Gustavo Bernadi, de 26 anos, decidiu comprar uma lâmpada colorida para iluminar seu quarto. Em plena pandemia do novo coronavírus, o espaço se tornou uma pista de dança para raves de techno.


"Dançar numa cadeira é cansativo", diz ele, que desde o início do distanciamento social já participou de mais de uma dezena de eventos promovidos por festas eletrônicas no Zoom, plataforma online que ele também usa para reuniões de trabalho.


Longe de fábricas abandonadas e ruínas urbanas, eventos underground migram agora para a internet e buscam sobreviver em meio à pandemia. "Eu não tenho nenhuma caixa de som de dois metros e nem o calor humano de outras pessoas ao meu lado. Mas eu realmente consigo me sentir numa festa", diz Bernardi, que frequenta a cena eletrônica mineira há três anos. Segundo ele, a atmosfera dos eventos online é, no mínimo, parecida com aquela já existente nas festas presenciais.


Imagens de danças exorbitantes, apresentações artísticas, paqueras, uso de drogas, roupas e maquiagens chamativas são exibidas nas telas de celulares e computadores dos participantes desses encontros online, que podem durar algumas horas ou até mesmo dias.


Diferente do que acontece nas lives, os shows transmitidos em plataformas digitais de videochamadas, como Zoom e Hangouts, possibilitam maior diversidade de interação entre os espectadores, que podem conversar no chat, enviar arquivos multimídia e ligar a câmera para aparecer nas telas dos outros.


Para aplacar o apetite sexual, afetado pelas medidas de distanciamento, as maneiras de flertar também foram adaptadas. "O vídeo em destaque [na conversa do Zoom] vai mudando ao longo da noite", conta Bernadi. "Por isso, quando surge alguém atraente, é só comentar algo no chat e, dependendo da situação, você e o 'crush' vão a um chat privado para curtir a sós. Essas festas já me trouxeram até gente de outros estados."


Sem precisar se deslocar, amantes de eletrônica aproveitam para buscar diversão em festas que ainda não conheciam e descobrir artistas do gênero.


Usando como inspiração o Club Quarentine -boate no Zoom, criada no Canadá, que desde março tem acontecido diariamente e reúne pessoas de diversas partes do mundo-, Pablo Araújo, um dos idealizadores da festa techno Avulsa, conta que promover encontros na internet tem sido uma maneira de arrecadar dinheiro para os trabalhadores envolvidos nesse tipo de evento e, ao mesmo tempo, oferecer entretenimento ao público.


Com ingressos limitados e divididos em três categorias -gratuita, de colaboração e de compra de bebida alcoólica-, os interessados em participar da Avulsa de maneira remota podem pagar até R$ 116 para receber bebidas em casa antes do início do evento.
Segundo Araújo, o dinheiro arrecadado na venda dos ingressos é destinado aos artistas e demais profissionais envolvidos na organização e realização da versão presencial e remota da festa.


Criada na quarentena, a campanha Salva Rave foi lançada pelos organizadores da Versa Festa e reúne alguns coletivos paulistanos para arrecadar doações e cestas básicas para profissionais de segurança, limpeza, bar e brigadistas de alguns desses eventos.


O DJ Quimera, do coletivo musical LGBT Namíbia, afirma ter ido a mais de 15 raves online nessa quarentena, incluindo o festival de aniversário de sete anos da paulistana Mamba Negra, que durou três dias no Zoom.


"No último dia [do festival da Mamba Negra] todos já estávamos cansados, mas valeu muito a pena. Foi muito marcante ouvir DJs como Malka e Miss Imigration", diz ele."É claro que não é igual a uma festa física, mas não é sobre ser igual. É sobre amenizar o sentimento de solidão e consumir arte neste momento."


Segundo o músico, o mundo pós-pandemia dará maior relevância ao uso de artes visuais em festas do gênero.


A artista Transalien, que se apresentou na rave remota da Mamba Negra e é responsável pelo festival online Marsha, diz que sempre teve o sonho de performar dentro da própria casa e definiu a experiência como "algo incrível".


"Eu permiti que pessoas que não conheço pudessem acessar a minha intimidade como nunca antes. Presencialmente, há uma aproximação física que, na verdade, distancia", afirma Transalien.


Isolados, frequentadores da famosa Vampire Haus enviam gravações caseiras de sons como o de liquidificador ligado, miado de gato e pingos de água aos organizadores do coletivo. A sonora será parte da playlist de shows da Putas Vampiras e faz parte do projeto Sua Casa Pode Virar Techno.


Suzana Haddad, autor do set Putas Vampiras, afirma que o mais desafiador, neste momento, é propor uma ação que seja não só criativa, mas também encante os olhos alheios e gere renda às festas.


"Não basta fazer live, nós temos que fazer interação", diz Haddad. Para isso, ela diz que vários modelos de eventos online estão sendo estudados pelo grupo, que tem oferecido aulas no Zoom de introdução à discotecagem e outros vouchers como tentativa de sobreviver à crise financeira.


Mas se, por um lado, há quem diga que as baladas online continuarão existindo mesmo depois do fim do distanciamento social, por outro, há quem considere uma questão de tempo para que esse tipo de entretenimento suma da agenda das pessoas.


A troca de galpões abandonados por equipamentos digitais não agrada Nikkatze, idealizadora da Blum, festa paulistana que também promoveu um encontro remoto durante a quarentena. "É o que temos para hoje, mas não gosto muito", diz ela. "Ninguém vai querer ficar no Zoom quando tudo isso acabar."


Nikkatze, no entanto, diz que a Blum planeja lançar uma plataforma digital própria para disponibilizar novas formas de interação entre seus frequentadores. Enquanto isso, o futuro das raves fica à luz da incerteza.

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