Luthier: a obstinação de um ofício

Cada vez mais raro, o trabalho se mantém vivo e resistente, graças à sua importância no universo musical

Methal - luthierMethal - luthier - Foto: Bruno Campos/Folha de Pernambuco

Para que o guitarrista de uma banda de heavy metal consiga executar um solo potente ou para que uma orquestra sinfônica emocione o público com um repertório clássico é fundamental o trabalho do luthier. O nome, que pode soar estranho para muita gente, diz respeito ao responsável por construir, consertar, restaurar e customizar instrumentos de corda com caixa de ressonância, como violino, guitarra, rabeca, violão, baixo, bandolim e viola caipira. A profissão é milenar e, embora cada vez mais rara, sobrevive graças a sua importância para o universo musical.

Em outubro de 2016, Pernambuco perdeu um mestre da luteria. João Batista de Lima tinha 89 anos de idade e há mais de seis décadas se dedicava ao ofício. Ao longo da vida, o artesão fez alguns discípulos, ajudando a implantar a primeira escola de formação de luthier e archetier (especializado na fabricação de arcos para violino) do Estado. Inaugurado em 2012, o projeto existe até hoje e é ligado à Orquestra Criança Cidadã (OCC). Atualmente, quem repassa o conhecimento aos nove alunos inscritos no curso é o capixaba Carlos Alberto Gomes Filho, que mora no Recife há dois anos.

O tempo de formação dos futuros profissionais é de três anos. Em uma oficina montada na sede da OCC, no quartel do Cabanga, os pupilos aprendem a utilizar as ferramentas necessárias para a construção de violinos. De acordo com Carlos Alberto, as chances de esses aprendizes serem absorvidos pelo mercado são boas. “É muito difícil conseguir mão de obra qualificada no Brasil. No caso do violão, já existe um mercado consolidado e uma procura grande. Quando falamos de instrumentos clássicos, no entanto, as portas estão se abrindo agora. Por isso, a concorrência é menor”, afirma o professor.

O metaleiro
Fazendo uma busca em fóruns de música na internet, uma das oficinas mais indicadas pelos usuários para manutenção de guitarras, baixos e violões no Recife é a de Methall, apelido de José Antônio Matos de Almeida. Roqueiro convicto, o luthier recebeu esse apelido na adolescência. “Na época da escola, comecei a tocar guitarra numa banda de heavy metal, chamada Necropsia. Os meus amigos começaram a me chamar desse jeito e até hoje, aos 44 anos, sou conhecido assim”, conta.

Apesar da experiência musical, Methall preferiu não seguir carreira artística. Depois de se formar em relações públicas, o guitarrista trabalhou como vendedor de lojas e gerente de um laboratório de análises clínicas. Foi só quando ficou desempregado que decidiu enveredar no ramo da construção de instrumentos musicais. Nessa época, ele conheceu o mestre João Batista. “O braço da minha guitarra havia torcido e ninguém conseguia resolver o problema. Eu já tinha ouvido falar sobre ele e resolvi procurá-lo. Quando fui buscar o trabalho pronto, levei uma miniatura de guitarra que eu fazia. Seu João ficou louco e me convidou para trabalhar com ele”, relembra.

Após um ano de experiência como ajudante de João Batista, Methall decidiu ganhar independência e passou a atender seus clientes no quintal da casa dos pais. Mais de 15 anos depois, o que era apenas uma mesa montada embaixo de uma mangueira se transformou em uma oficina. Hoje em dia, o luthier é procurado por diversos artistas, como Nando Cordel, Robertinho do Recife e Alceu Valença, e possui uma marca própria de guitarras: a Methall Guitars.

Com um público consolidado no ramo de manutenção, Methall ainda está começando a divulgar sua marca. Geralmente, ele demora cerca de dois meses para terminar uma guitarra, isso porque trabalha sozinho na criação dos objetos e ainda precisa dividir com a irmã os serviços de restauro que garantem a manutenção do negócio. A maior dificuldade, no entanto, é a mesma apontada pelo professor Carlos Alberto Gomes: a matéria-prima. “O material usado interfere muito no som produzido. Por isso, a maioria dos músicos preferem instrumentos feitos com madeiras importadas. Toda a madeira que eu uso vem dos Estados Unidos e do Canadá. Então, o investimento é alto”, confessa.

Para o pernambucano, o diferencial do produto feito manualmente está na qualidade. “Quando o instrumento é fabricado em grande escala, não há uma seleção cuidadosa. O luthier está atento aos pequenos detalhes, seleciona com cuidado os materiais, realiza testes. Existe um critério muito maior. Gosto de manter um grau elevado de exigência com o meu trabalho, e acho que não faço isso nem pelos clientes, mas por mim mesmo. Não consigo não ser perfeccionista”, diz.

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