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Após 16 anos de produção, "Mambembe" estreia no Recife nesta quinta-feira (21)

Longa de Fábio Meira ("As Duas Irenes") acompanha artistas circenses do interior de Pernambuco em uma narrativa marcada por pausas, retornos e reelaborações

Índia Morena, Patrimônio Vivo de Pernambuco, faz parte do elenco de "Mambembe"Índia Morena, Patrimônio Vivo de Pernambuco, faz parte do elenco de "Mambembe" - Foto: Roseira Filmes/ Divulgação

Dirigido por Fábio Meira, o longa “Mambembe” acompanha a trajetória de três artistas circenses itinerantes, Índia Morena, Madona Show e Dandara Ohana, que cruzam seus caminhos com um topógrafo no interior de Pernambuco interpretado por  Murilo Grossi. Gravado em Arcoverde e Limoeiro, o filme estreia oficialmente no Recife no dia 21 de maio, no Cinema da Fundação do Derby.

A trajetória do longa também atravessa o tempo: as primeiras gravações aconteceram em 2010, foram retomadas em 2020 e passaram por um processo de montagem de quase seis anos.

O filme retrata a troca das personagens com Fábio, que dialogava com elas sobre suas atuações, afinal, interpretavam a si mesmas dentro de uma narrativa e roteiro escrito pelo próprio diretor com Susana Barriga. 

A montagem mistura imagens gravadas com um vácuo de dez anos, embaralhando realidade e ficção ao longo da narrativa. O filme ganha camadas visuais com o trabalho de Tatiana Blass, responsável pelos frames de animação em pintura - que abrem o longa, mas que fazem falta no decorrer do vídeo. 

Atravessando o tempo

Durante a sessão de pré-estreia realizada no Cinema São Luiz, em um sábado chuvoso no Recife, Fábio Meira vai a frente das telonas e vitrais do cinema ao lado da artista circense Índia Morena, Patrimônio Vivo de Pernambuco. Enquanto comentava sobre a trajetória do longa, Índia relembrou as dificulda­des enfrentadas pelos circos itinerantes. “No Carnaval, ninguém quer saber de ir ao circo”, comentou.

Fábio, então, sorteia uma das ecobags do filme, entre os ganhadores estava Robson, trapezista que teve a sua primeira aparição no circo captada pela câmera de Fábio, nas gravações realizadas em 2010.

Anos depois, em 2026, Robson viajou de João Pessoa até Recife para assistir ao filme e revisitar, na tela, sua estreia no que exerce até hoje. O que seria “demora” na verda­de se torna sinônimo de troca, e estreita a relação dos personagens tanto com o diretor como com o público. 

O que o tempo não levou

As gravações de “Mambembe” começaram quando Fábio ainda estudava cinema em Cuba. Na época, o diretor acreditava que iniciar o projeto facilitaria a busca por financiamento para concluir o longa. Sem recursos suficientes, o filme acabou interrompido e só foi retomado anos depois. “Eu nunca desisti do filme”, relembra.

O financiamento veio em 2017, após o lançamento de “As Duas Irenes”, longa de Fábio Meira que foi exibido no Festival de Berlim.

“Eu não conseguiria mais voltar àquele filme exatamente como tinha concebido”, explica. A partir disso, decidiu incorporar ao longa o próprio processo de passagem do tempo, transformando o projeto em um documentário sobre reelaboração, permanência e insistência.

Jéssica Alve, personagem do filme que mistura documentário e ficção Jessica Alves | Foto: Roseira Filmes/ Divulgação

Antes do filme estrear comercialmente, Fábio retorna mais uma vez às gravações e capta o reencontro com Jessica, fechando a trama que já havia revisitado as outras duas personagens do longa. “Aí sim eu fechei esse ciclo, sabe?”.

De volta ao circo 
Para Fábio Meira, o filme também busca aproximar as pessoas dos circos itinerantes. “Que elas olhassem diferente para um circo e tivessem vontade de entrar”, resume. 

Mambembe carrega tanto na sua narrativa quanto na sua produção uma mensagem sobre a resistência e resiliência do artista brasileiro e do circo. A vontade de fazer e chegar ao público é maior que os desafios encontrados na falta de valorização, políticas públicas e formas de captação de recursos. 

Mais do que registrar a rotina de artistas itinerantes, “Mambembe” acaba refletindo sobre o próprio ato de permanecer. Entre pausas, reencontros e recomeços, o longa transforma o tempo em parte da narrativa e reafirma o circo como espaço de memória, afeto e resistência cultural. Ao chegar finalmente às telas, 16 anos depois das primeiras gravações, o filme também celebra a insistência de quem continua criando mesmo diante das dificuldades.

Trajetória 
Mambembe” estreou na Première Brasil do Festival do Rio e foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Forumdoc.BH e no CinePE. No Festival de Cinema de Vitória, conquistou os troféus de Melhor Filme, Melhor Interpretação (Índia Morena) e Menção Honrosa (Madona Show), além do Prêmio Sesc Glória. Também venceu Melhor Filme e Melhor Montagem no Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador, e levou Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Montagem no FICA. 

Madona ShowMadona Show | Foto: Roseira Filmes/ Divulgação

No Festival Guarnicê de Cinema, o longa foi consagrado como Melhor Filme (júris técnico e popular) e conquistou Melhor Atuação para Dandara Ohana, Madona Show e Índia Morena, além dos troféus de Melhor Ator (Murilo Grossi) e Melhor Fotografia (Daniela Cajías). No circuito internacional, Meira venceu como Melhor Diretor no Bravo Film Festival, em Los Angeles. O longa também passou pelo Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata e recebeu o troféu do Prêmio do Júri no Festival Internacional de Cinema Brasileiro em Milão.

Sobre o diretor
Nascido em Goiânia em 1979, começou no cinema como assistente de Ruy Guerra. “As duas Irenes”, seu primeiro longa, estreou no Festival de Berlim em 2017 e recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. 

Entre os curtas e médias metragem destaque para o documentário “Pátria”, feito para a ESPN Brasil em 2013 e “Atlântico”, premiado como melhor curta no Festival de Toulouse em 2010. Em 2023 lançou o longa “Tia Virgínia” protagonizado por Vera Holtz, Arlete Salles e Louise Cardoso, com seis prêmios em Gramado e sete indicações ao Grande Otelo, incluindo Melhor Atriz para Holtz e Melhor Atriz Coadjuvante para Salles.

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