Marcelino Freire testa fronteiras do ensaio no livro 'Bagageiro'

Publicação reúne textos curtos sobre assuntos variados. Marcelino Freire mantém na obra 'Bagageiro' sua literatura baseada em sentimentos do cotidiano

Escritor pernambucano Marcelino FreireEscritor pernambucano Marcelino Freire - Foto: Marco Del Fiol/Divulgação

Os livros de Marcelino Freire parecem feitos de explosões: a verdade do autor, seus sentimentos sobre o que está em volta, pulsando através de palavras, ritmos e sons. Escritor pernambucano, nascido em Sertânia e radicado em São Paulo, onde vive desde 1991, Marcelino lança "Bagageiro", obra difícil de rotular, mas de leitura empolgante.

Mistura de contos, crônicas e ensaios, peças de ficção baseada em sentimentos reais, o livro reúne pensamentos do autor sobre delicadas relações do cotidiano.

"Um dos títulos do livro era 'Quarto da Bagaceira'. É o quarto onde eu, criança, me trancava, gostava de ficar olhando para o teto, pensando em meio a caixas, almofadas velhas, tranqueiras. Em meio aquele bagaço de coisas eu resistia", diz o autor. Sua literatura, seus desafios enquanto artista no Brasil atual e suas ideias em torno de "Bagageiro" são temas desta entrevista.

Gostaria primeiro que falasse um pouco sobre como surgiu esse livro. O que o incentivou durante a escrita?
Há tempo venho fazendo anotações sobre a escrita, a reescrita, a vida literária. Inclusive, no meu blog eu criei uma seção chamada "Ensaios de Improviso". Coisas que eu vinha pensando, matutando. Reencontrei uma dessas anotações um dia: "Hoje todo mundo quer ter ração". É todo mundo mordendo todo mundo. Aí veio a ideia de fazer um livro cheio de ensaios. Para pensar sobre esses nossos tempos. Mas que fossem, na verdade, contos-ensaios. Nunca chamo meus contos de contos. Quis chamá-los de ensaios, faíscas, assim, relâmpagos, surtos ensaísticos. Gostei da feitura que ele foi tomando. Aqui e ali, quebro essa ideia solene dos ensaios.

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O livro tem uma estrutura interessante: ensaios, contos, pequenas ficções. O que levou a essa forma de narração?
Eu estou com dois romances engavetados. Engavetei porque eles estão chatos, estão muito donos de si, muito técnicos. O bom desse meu "Bagageiro" é que eu não sei o que o livro é, de fato. Só sei que gostei dessa viagem. No "bagageiro" de uma bicicleta a gente põe de tudo, você sabe. Criança, botijão de gás, jerimum. O livro é esse bagageiro lotado de coisas. Uma vez disseram que eu tinha muita bagagem. O título eu trouxe da resposta que eu dei: eu tenho é um "bagageiro", respondi. Eu soco tudo lá em cima.

Sua literatura parece quase inevitavelmente pender para o social: o cotidiano das pessoas, a voz dos que não a possuem, uma maneira de tomar posições. De que forma essa ideia se aplica ao seu projeto literário?
Eu costumo dizer que eu não dou voz aos que não têm voz. Porque todo mundo tem voz. O meu trabalho é o de ouvir. Quero ter a sensibilidade para escutar. O meu lugar é o da escuta. E o do grito também. Eu estou muito aperreado com o que tem acontecido no Brasil. Meus romances, que eu engavetei, não estavam conversando com este Brasil de agora. Este "Bagageiro" conversa. Gosto da atitude que ele tem. Escrever sem atitude é uma bosta.

Nesses tempos de eleição, com o País entrando em um momento fundamental de definições, o que pode a literatura? De que forma a arte pode afetar a política, a sociedade?
É dessa atitude que eu estava falando. Meu livro não é "bundão". Detesto literatura frígida. Eu mesmo tenho que me surpreender com o que eu estou fazendo. A escrita tem que me provocar primeiro. Nesse sentido, este "Bagageiro" me balança, me derruba da zona de conforto. Mas ainda é pouco. Eu preciso fazer mais. Por isso eu me agito, movimento outras frentes. Recentemente organizei, por exemplo, com o poeta Ademir Assunção a antologia "Lula Livre Lula Livro". Mas é pouco ainda, muito pouco. Eu ainda tocarei fogo em minhas próprias vestes. Vou ser aquele corpo do "Ensaio sobre xs outrxs". Todo mundo é, de alguma forma, aquele corpo queimado em frente à Fiesp. O Brasil está virando cinza...

Serviço
"Bagageiro", de Marcelino Freire
Editora José Olympio, 160 páginas
Preço médio: R$ 34,90

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