Marcelo Brennand grava 'Curral', seu próximo filme, em Gravatá

Primeiro longa-metragem de ficção do diretor pernambucano Marcelo Brennand mostra os bastidores de uma campanha eleitoral para vereador no Agreste de Pernambuco

Marcelo Brennand filma em Gravatá seu primeiro longa-metragem de ficçãoMarcelo Brennand filma em Gravatá seu primeiro longa-metragem de ficção - Foto: Daniela Nader/Divulgação

Quando filmou o documentário "Porta a Porta", entre 2008 e 2009, Marcelo Brennand acompanhou de perto como funciona uma campanha eleitoral no interior do Nordeste. O filme, que estreou em 2011, revela as estratégias utilizadas por candidatos a vereadores e seus cabos eleitorais em Gravatá.

Depois de sete anos, o cineasta pernambucano retoma o mesmo tema e cenário, desta vez, guiado por uma dramaturgia. Até o dia 15 de dezembro, ele roda no município do Agreste de Pernambuco cenas de "Curral", seu primeiro longa-metragem de ficção.

"Acho que, no documentário, fui no limite de cada personagem. Sentia a necessidade de me aprofundar, mas não tinha como ir além, já que não me sentiria bem fazendo algo investigativo. Acho que na ficção a gente tem uma liberdade autoral maior", conta Marcelo, em entrevista à Folha de Pernambuco, em um dos sets de gravação.

A partir da vivência que obteve com casos reais, o diretor criou - junto com os também roteiristas Fernando Honesko e Marcelo Muller - a história de Chico Caixa (Thomás Aquino), um homem humilde que trabalha na campanha do amigo e aspirante a vereador Joel (Rodrigo García). Segundo o cineasta, o longa traz uma visão antropológica da política, traçando perfis humanos de indivíduos envolvidos neste processo.

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"Geralmente, quando falamos sobre políticos, nos referimos a eles como psicopatas. No final das contas, eles são pessoas movidas por seus desejos e descontroles. Se classificarmos todos como psicopatas, nunca vamos entendê-los como seres humanos", aponta Rodrigo García, que estudou diferentes figuras políticas para a composição do seu personagem. "Fiz um recorte de pessoas de várias gerações, mas foi o lado psicológico do Joel que me impulsionou mesmo. Ele é muito preocupado com dinheiro, retenção, controle", adianta.

Na trama, o candidato usa o amigo de infância para conquistar os votos de um bairro popular. Ex-funcionário da distribuidora de água do município, Chico acaba utilizando o fornecimento de água como moeda de troca para garantir apoio do povo. "Ele é aquele trabalhador típico, humilde, de boa índole, mas que, em algum momento, se vê confrontado a quebrar seus próprios princípios", explica Thomás Aquino. O elenco principal conta ainda com a atriz fluminense Carla Salle e participação do paraibano José Dumont.

Os embates morais vividos pelo protagonista Chico Caixa revelam uma perspectiva sobre o processo eleitoral brasileiro. "Acho que o filme é uma grande delação de como funciona o nosso ciclo político. Independentemente da intenção ou da vontade das pessoas, toda vez que elas entram nesse meio são sugadas para esse sistema corrupto", comenta Rodrigo.

A produção deve chegar às salas de cinema no primeiro semestre de 2020, em pleno ano de eleições municipais, o que alimenta ainda mais a sua atualidade. "Acho que a gente vive isso no Brasil e sempre viveu. Não será diferente no futuro", defende Marcelo. Ele divide a produção da obra com Bárbara Maranhão. A direção de fotografia é de Beto Martins. Juliano Dornelles assina a direção de arte e Rita Azevedo os figurinos.

Cidade cenário

Com uma equipe de quase 50 pessoas, "Curral" está sendo filmado desde o dia 10 de novembro. Antes disso, ainda em outubro, os produtores já haviam se estabelecido em Gravatá para escolher as locações. A rotina de parte da cidade mudou para receber as filmagens, que conta com cerca de 600 figurantes, todos moradores locais.

"Desde o começo do filme, eu estabeleci Gravatá como personagem. Muitas vezes, assim como alguns personagens do filme, ela quer ser uma coisa que não é, com essa vontade de ser conhecida como a 'Suíça brasileira'. É uma cidade do Agreste, mas que está se urbanizando. Há zona rural ainda, mas também uma área urbana e periferia. Você vai ao campo e vê carro, eletricidade, antena de TV, mas falta uma coisa primária: a água. É o desejo de se tornar moderno, mas ao mesmo tempo ainda cultivar costumes arcaicos. Tudo isso está impresso dentro do filme", diz o diretor Marcelo Brennand.

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