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NOTURNO

Maria Bethânia lança disco de inéditas

"Noturno" mescla boemias, sentimentos e realidades dos tempos atuais

Maria Bethânia, em "Noturno"Maria Bethânia, em "Noturno" - Foto: Jorge Bispo

“Do lado de cá tem uma baiana e por aí uma pernambucana. Então…”. Bom, então a prosa por telefone com a cantora Maria Bethânia, 75, para falar sobre “Noturno” (Biscoito Fino) seguiria em tom de leveza e alegrias justificáveis pelo resultado de um dos seus discos mais completos, lançado nesta sexta-feira (30), disponibilizado nas plataformas digitais e em formato físico. 

Inquietação criativa
“Quanta inquietação neste álbum, Bethânia, com contrapontos de delicadeza e intensidade notórios”. Afirmação prontamente consentida por ela, em voz sutil (e grave) com um “Sim, muita inquietação. Eu estava aflita, já não aguentava mais, precisava voltar a ficar próxima do meu público”. Gravado entre 2020 e 2021, o álbum foi feito com dificuldade, mas havia um repertório pronto e eu precisava trazê-lo. Não poder estar no palco tem sido uma coisa muito triste”, completou.

 



Com a visceral “Bar da Noite” e com as “mentiras noturnas de bar (...) refúgio barato dos fracassados no amor.” Bethânia abre “Noturno” e dedica a canção no encarte, para ela mesma e seus recôncavos. A canção de Bidu Reis e Haroldo Barbosa (1953), engrandecida por Nora Ney (1922-2003), veio à tona com a improvável combinação de mesclar à boemia as delicadezas de um piano, especificamente o do pernambucano Zé Manoel. “Era ele que eu queria, só ele”.

O petrolinense volta em outras faixas do disco, inclusive para a dramaticidade da cantora baiana em “Flor Encarnada”, incontestável canção de Adriana Calcanhotto que Maria Bethânia já deu voz, outrora, como um samba-canção. “Tem que ter estrutura para cantar, incorporar o que a letra diz. Imagina afirmar que ‘o amor não gosta mais de mim’. Eu consigo, pelos anos de vida e de estrada que carrego”.


Álbum com família e amigos
Do sobrinho Zeca Veloso o disco ganhou “O Sopro do Fole”, com letra que emerge melancolias do Sertão nordestino em meio aos ares soturnos do acordeon de Toninho Ferragutti e a quase declamação de Bethânia. “‘Tia, eu tenho uma música para você’. Esperei e quando ouvi, me encantei. Zeca é tão urbano, mas com tanta delicadeza regional...”. 

Em “Lapa Santa” Bethânia dá continuidade ao nordestino de sua cantoria remetendo-se a Bom Jesus da Lapa (BA) e ao ‘Velho Chico’ e suas águas e com “De Onde Eu Vim” o melodiar saudoso pela Bahia é consolidado. As sete cordas de João Camarero enobrecem “Vidalita” (Mayte Martín) e “Música Música”, já em “Prudência” ela estreia canção de Tim Bernardes ("O Terno"), talento admirado por ela e pelo irmão, Caetano Veloso. “Foi engraçada a reação de Caetano, ouviu a música sem saber que era do Tim”. 

Em “Cria da Comunidade” (Xande de Pilares) Bethânia não hesita em exaltar o compositor carioca. ”Como ele sabe fazer samba, menina! É um sambinha gostoso, né?”. E “Dois de Junho”, de Calcanhotto, já interpretada por ela em live no Carnaval, integra o repertório. “É difícil cantá-la, pelo sentimento que traz toda na narrativa. É uma peça de teatro”.  

"Noturno" é clean
“Noturno” tem capa simples e justificada por ela: “Não cabia nada rebuscado, estamos em um momento difícil. Os críticos da internet desconhecem a realidade de um mundo que existe do lado de cá”. No encarte dois bordados feitos durante a pandemia - um de coração e um de lona de circo com a legenda “fechado” – denotam alguns simbolismos. “Fecharam o circo. Isso me remete à tristeza, porque circo é sonho e alegria”. 

 


Musicalmente o álbum se encerra com “Luminosidade”, cuja letra de Chico César é súplica na voz da intérprete e, ao mesmo tempo, como lampejo de um porvir. “O Chico é um dos compositores que mais admiro, essa música tem muita beleza (...) Depois dela vem o poema ‘Uma Pequena luz’”, alerta Bethânia sobre o entranhar das faixas do disco que culmina no poema de Jorge Sena, recitado ao final. “Noturno”, portanto, sai do breu de um ‘bar da noite’ e dos ébrios de amor que circulam por ele para findar em luz como perspectiva premente para os tempos atuais, tal qual se faz Bethânia há mais de cinco décadas na música.

“Estou feliz por reproduzir com a música o que carrego em mim”, conclui, mas não sem antes se despedir, reforçando sua adoração pelo Recife: “Sabe uma coisa que sempre digo por aqui quando não estou com a cabeça lá tão boa? Tenho que ir para o Recife cantar Antônio Maria”.


 


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