Maria Madalena: uma figura simbólica para o Cristianismo

Já apontada como prostituta, adúltera e até esposa de Jesus, Maria Madalena segue envolta em mistério. Livro e filme sobre ela lançados recentemente trazem ótica menos machista

Protagonista vivida por Rooney Mara rejeita casamento imposto pela família para ser discípula de CristoProtagonista vivida por Rooney Mara rejeita casamento imposto pela família para ser discípula de Cristo - Foto: Universal Pictures/Divulgação

Ela já foi apontada pela tradição religiosa como prostituta, adúltera e, até mesmo, esposa de Jesus. Retratada de diferentes formas ao longo dos séculos, Maria Madalena continua sendo um mistério para os pesquisadores que se dedicam a estudar os personagens e histórias bíblicas. Duas obras lançadas recentemente - um livro e um filme - reacendem as discussões em torno da real identidade desta figura tão simbólica para o cristianismo, revisitando-a a partir de uma perspectiva menos machista.

No filme "Maria Madalena", em cartaz nos cinemas brasileiros, a protagonista interpretada por Rooney Mara desafia o patriarcalismo da sua época, rejeitando o casamento imposto pela família e decidindo seguir a Cristo (Joaquim Phoenix) como discípula. Em parte, o longa-metragem dirigido por Garth Davis está alinhado a uma nova postura adotada pelo Vaticano, que em 2016 reconheceu o papel de Maria Madalena como evangelista. O próprio Papa Francisco a definiu, tempos depois, como a "apóstola da esperança".

Em seu recém-lançado livro, "Maria Madalena - Da Bíblia ao Código da Vinci: companheira de Jesus, deusa, prostituta, ícone feminista", o historiador britânico Michael Haag mostra como cada período histórico tem reinterpretado a imagem de Madalena à sua maneira. Durante muito tempo, a versão que prevaleceu foi a de pecadora arrependida.

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A própria Igreja Católica a tratou dessa maneira até o ano de 1969, quando houve uma revisão no Calendário Romano. Até lá, muitos erros se estabeleceram no imaginário dos fiéis. É comum, por exemplo, a equivocada associação com a mulher acusada de adultério, que Jesus salva do apedrejamento. Na história contada no texto do apóstolo João, no entanto, a personagem permanece anônima.

"Apesar do Novo Testamento não mencionar isso em nenhum momento, Madalena passou a ser tradicionalmente representada como prostituta. A verdade é que a narrativa dos evangelhos é pouco descritiva e quase não traz detalhes sobre a maioria dos personagens", diz Carolina Dantas, professora do Departamento de Comunicação da UFPE.

Ao longo do tempo e das sucessivas traduções, muito do sentido original dos textos se perdeu, abrindo lacunas para a imaginação dos leitores. Neste caso, o cristianismo preenche esse espaço com uma vivência que aponta a mulher como algo antagônico ao divino, ligada ao pecado e ao proibido", observa Carolina Dantas.



Essa faceta mundana da personagem também foi a mais explorada pelo universo das artes e do entretenimento. Nos filmes "A última tentação de Cristo" (1988), de Martin Scorsese, e "A paixão de Cristo" (2004), de Mel Gibson, ela é representada como adúltera. No musical "Jesus Cristo Superstar", de Andrew Lloyd Webber, e no romance "O evangelho segundo Jesus Cristo", de José Saramago, aparece como prostituta. Já o longa-metragem "O código da Vinci", baseado no best-seller de Dan Brown, sustenta a versão de que ela teria se casado com Jesus e gerado um filho dele.

Livro

Para o escritor Raimundo Carrero, que desde 2012 se dedica a escrever um livro sobre a trajetória de Jesus, a única versão de Maria Madalena sustentada pelo texto bíblico é a de seguidora fiel e atuante.

"A Bíblia mostra que ela estava ao lado de Cristo em alguns dos seus momentos mais importantes. Só que o protagonismo feminino, naquela época, era totalmente desconsiderado. Por isso, se ela exerceu uma liderança efetiva, após a morte de Jesus, isso ficou obscuro com o passar do tempo", diz.

Atriz Rita Guedes, que interpreta a personagem na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém em 2018

Atriz Rita Guedes, que interpreta a personagem na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém em 2018 - Crédito: Gustavo Glória/Folha de Pernambuco

A atriz paulista Rita Guedes, que neste ano encara a missão de interpretar Madalena na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, classifica a personagem como a mais desafiadora da sua carreira.

"Ela foi uma mulher muito forte, passou por todos os sofrimentos: preconceito, humilhação e pouco reconhecimento. Acredito sim que ela teve um papel extremamente importante como discípula. Tanto que algumas passagens bíblicas chegam a provar isso. Foi para ela que Jesus primeiro apareceu, quando ressuscitou, e não os apóstolos homens", comenta.

 

 

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