Marina Lima segue incendiária

Aos 63 anos, a artista está com os pés no chão e a cabeça a mil, dialogando com novos artistas e públicos

Marina Lima falou sobre carreira e o mais recente álbum em entrevista à Folha de Pernambuco Marina Lima falou sobre carreira e o mais recente álbum em entrevista à Folha de Pernambuco  - Foto: Rogério Cavalcanti/Divulgação

Há pouco mais de um ano do lançamento do seu mais recente álbum, “Novas Famílias”, Marina Lima não esconde: está mais ativista do que nunca. Uma passeada rápida por seu perfil no Instagram dá conta de que a cantora está não só antenada nas demandas do mundo, mas, sobretudo, ligada a 220 no Brasil e suas necessidades políticas e sociais. Discreta, reservada e quase misteriosa, a carioca, que mora em São Paulo há 10 anos, leva o mar e as lembranças do Rio no peito; as experiências paulistas, na alma. Em entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco, por telefone, Marina não economizou nas histórias.

Marina gosta de dizer que não foi o tipo de artista que “explodiu como uma bomba”. A sua carreira foi construída, começando a ser sedimentada ainda nos nichos aos quais chegava. Quando um dos seus maiores sucessos estourou, “Uma Noite e ½”, em 1987, ela já havia gravado oito discos. “Começou num nicho, chegou lá a uma coisa comercial, e aí eu não aguentei, porque não era também isso que eu queria, eu meio que dei um tilt, parei e voltei com o que me interessava e pelo caminho que eu queria seguir”, reflete. Ainda revela que, nestes 40 anos, algumas pessoas ficaram pelo caminho. Outras seguiram firmes ao seu lado. E mais: algumas estão chegando por agora.

É categórica quando indagada sobre uma possível mudança de perfil na sua obra. Antes, mais leve, menos preocupada. Agora, mais engajada e militante. Que nada. Marina sempre refletiu o mundo e as inquietações à sua volta. Quando começou, era o fim da ditadura, o final de um tempo de horror que estava na cabeça das pessoas. Era momento de abertura e experimentação. Marina enxergou a falta de liberdade sexual, de representação feminina no rock. A sua presença na cena já dizia muito de ideais.

Marina Lima 2

Marina Lima 2 - Crédito: Reprodução/Divulgação

O seu percurso diz muito da sua essência. Inicialmente na cena alternativa, Marina fez o caminho até o comercial. “Quando eu apareci faltava esse elemento popular (da cultura pop) menos bairrista brasileiro e mais ligado com o resto do mundo. Uma linguaguem pop que não se preocupava tanto em ser brasileira, mas em se comunicar com o resto do mundo. Não tinha internet, não tinha nada disso”, comenta. Ela identificou este lugar à espera no Brasil. Um espaço que, mais à frente, seria ocupado por seus acordes de guitarra. Numa época em que também surgiram Lulu Santos e outros nomes. Marina viveu um boom nas novelas, com suas músicas que bombavam na teledramaturgia. “Fullgás”, “À Francesa”, “Pra Começar” e tantos outros hits que entravam nas casas de todo o Brasil diariamente.

“Eu tenho vivido esses anos todos super colocada. Eu não falo muito de intimidades porque eu não gosto. Eu tenho me sentido representada por muita gente jovem corajosa que está se colocando, isso me orgulha. Quando eu era mais nova, isso era muito chato. Eu tinha que ficar brigando, tinha fama de difícil”, lembra. Marina lançava questionamentos ao público através de letras cheias de referenciais. Continua a fazê-lo.

Hoje, aos 63 anos, Marina não é do tipo que cultiva uma semente de melancolia, de saudade do passado. Ao contrário: sempre gostou de viver e absorver o que o presente oferece. “O problema de envelhecer é quando você fica cristalizado. Eu não quero ser isso. Eu quero ser uma pessoa ventilada. Quero poder ser sólida em algumas situações, mas líquida em outras. Não quero perder minha crença, minha essência. Mas eu quero entender, eu quero me misturar, quero me arriscar ainda”. A história de sua obra também comprova essa inquietação. De álbuns em álbuns, são perceptíveis mudanças que quebram o padrão. “Eu sinto que minha impaciência aumenta, ou a minha tristeza, tudo é um reflexo do que eu estou vivendo. Eu me reconheço em todos eles (discos). É a minha história”.

Se em 40 anos Marina construiu uma história sólida, nem sempre linear, ela não o deixa de fazer aos 63. A artista segue incendiando, tirando a calma (no melhor dos sentidos) de quem ouve os seus trabalhos. Sejam os que continuaram no trajeto, sejam os que chegaram agora. Marina está em sintonia total com a cena musical independente. Agora faz parte dela, com convicção. “É um caminho de gente corajosa”, explica.

Ao passo que é referência para uma nova safra que surge engajada, também busca inspiração nos novos nomes. E fala quase se derretendo de uma pessoa em especial: “O sucesso da Letrux, pra mim, caiu do céu, foi um fator acalmador. Eu saí do Rio tem quase 10 anos. E uma das razões era que todo mundo só falava em samba, pagode, caipirinha. Foi antes do funk que eu saí. Então a Letrux ter surgido com esta força eu fico: graças a deus, uma coisa do rio que me representa muito fortemente”. Letrux é o nome artístico de Letícia Novaes, de 37 anos. Juntas, gravaram “Puro Disfarce” e “Mãe Gentil”. A lista de admirados é longa e inclui, ainda, nomes como Jaloo e Silva.



Novas Famílias

O álbum, que saiu pela Pommelo, revela todas as inquietações de uma artista brasileira preocupada com a realidade do seu País. Marina sai do campo do entretenimento pelo entretenimento. Adentra em espaços que nem sempre garantem popularidade. Mas que realizam uma função esclarecedora. “Não tem como. Só se você for alienado. Você não ficar indignado, tocado com os absurdos que acontecem [...]Pra mim, é extremamente desagradável, constrangedor ter uma vida melhor enquanto milhões de pessoas têm uma vida horrorosa. Eu não mudei. O mundo mudou. As necessidades agora são outras. Eu continuo viva, participante, interessada”, lamenta.

Marina Lima 3

Marina Lima 3 - Crédito: Reprodução/Divulgação



As nove faixas revelam uma Marina com os dois pés no chão e a cabeça a mil. Sintomático de uma fase política e existencial marcada por leituras do porte de “Como as democracias morrem?”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. O abre é de um impacto otimista, na canção homônima ao disco: "Céus, e essas novas famílias/Com terras molhadas de amor/Minando qualquer ditador". O disco segue com músicas igualmente gigantes, passeando entre os mundos sentimental e concreto, como algo mesmo indissociável. Em Juntas, Marina revela São Paulo em miudezas e grandezas. E conta que o "Rio se zangou de vir pra cá". Em Mãe Gentil, Marina ateia palavras de fogo em gente “escrota e mesquinha”. Mas é em Só os Coxinhas que o álbum vive o seu ápice. E Marina também. Um funk rasgadinho com umas batidas eletrônicas, regadas a doses cavalares de deboche.

O álbum é fechado pela regravação do clássico Pra Começar. Não à toa. A provocação de antes é a mesma de agora: Pra começar/Quem vai colar/Os tais caquinhos/Do velho mundo/Pátrias, famílias, religiões/E preconceitos/Quebrou não tem mais jeito.

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Get a life

Sempre foi reservada, nunca se mostrou tanto, tampouco as suas relações, e prefere assim. Mas conta que esta geração que vem por aí a encoraja muito, dá orgulho. E se sente mais à vontade e forte para encarar os desafios enquanto mulher e lésbica. “Eu estou muito impressionada como mulheres, trans, gays. As pessoas não vão voltar para o armário. Não adianta. Se acostumem com isso. Get a life. Arrume uma vida pra você, porque ninguém vai mais se reprimir. Isso acabou no mundo inteiro. Ninguém está mais disposta. Então se acostumem conosco”, brada.

Vem, Marina

O Recife ainda não assistiu ao show do novo álbum. A última vez que esteve em Pernambuco para fazer show foi no Festival de Inverno de Garanhuns, no Agreste do Estado, em 2017, quando “Novas Famílias” ainda estava no forno. Marina está a fim de vir. E o Recife fica à sua espera.

 

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