Mestre Galo Preto lança primeiro DVD aos 82 anos

“Histórias Que Andei” é o primeiro registro das canções do coquista, que é Patrimônio Vivo de Pernambuco

As reuniões acontecerão no Espaço Casarão, na Boa Vista.As reuniões acontecerão no Espaço Casarão, na Boa Vista. - Foto: Divulgação

Desde os 12 anos de idade, Tomás de Aquino Leão encarna o personagem de terno branco da cultura popular do Estado. “Só quando eu visto essa roupa eu me sinto o Galo Preto”, completa ele, que é um dos Patrimônios Vivos de Pernambuco, desde 2011. O título foi um reconhecimento às várias décadas dedicadas ao coco e à embolada, que o mestre cria espontaneamente e improvisa a cada apresentação.

Porém, neste domingo, pela primeira vez, o Mestre Galo Preto irá cantar versos já definidos por conta do seu primeiro disco, chamado “Histórias Que Andei”, cujo lançamento ocorre neste domingo, no Quilombo Rainha Isabel, em Bom Conselho, onde ele nasceu.

“Já fiz jingle e propaganda, mas nunca registrei nada meu, porque eu não ligava para a coisa e perdi meu tempo. No tempo das vacas gordas, eu ia muito ao Rio de Janeiro para cantar, mas não tinha empresário, não botava nada para frente. Agora, eu estou tendo dificuldade para decorar o que eu fiz”, explica ele, que se queixa da falta de eficácia da memória aos 82 anos. Diferente da maioria dos artistas, Galo Preto encarou o microfone do estúdio Fábrica, onde foi gravado o material, somente com os refrãos prontos, o restante das letras foi improvisado na hora, como os emboladores costumam fazer.

Os registros foram capturados no primeiro take, mas agora, a preocupação é repetir as mesmas rimas para o público que gosta de acompanhar o ao vivo baseado em discos.

Porém, ao contrário do que alega, Galo Preto ainda lembra com detalhes da sua carreira, que teve o pontapé inicial dado por Ascenso Ferreira. “As ruas do Recife antigamente eram uma cantiga. Não tinha supermercado, então os vendedores passavam com o produto na cabeça anunciando a mercadoria e eu fiz o meu bordão: ‘batata inglesa que é hoje freguesa, não dá pra pobreza, só dá pra riqueza, que é uma beleza’, recorda o mestre, que sempre passava na casa do poeta, até que um dia o escritor resolveu testar o menino.

“Ele disse que eu era um artista e me deu um cartãozinho para eu me apresentar na Rádio Clube. Fui lá, cantei “A Pinta”, minha primeira música, que fiz aos 9 anos, ganhei o prêmio que estava acumulado e fiquei conhecido”, diz Galo Preto.

Depois de ter tocado em rádios, nos lugares mais prestigiados de Recife e ter viajado o Brasil inteiro para shows e aparições na TV, Galo Preto avalia que o segmento está desvalorizado atualmente.

“A chegada da televisão acabou com tudo, porque só aparecia a elite nela, o popular não entrava. Começaram a proibir o embolador de cantar na rua e a classe foi ficando sem palco. Agora está voltando a ser visto, mas não é valorizado como se deve”, observa ele, que apesar de defender o espaço dos colegas, nunca gostou de se apresentar na rua. “Sempre preferi cantar somente depois de contratado”, diz.

Galo Preto defende o ritual do público sair de casa para assisti-lo e tanto persistiu que agora será o primeiro a levar um espetáculo inteiramente de coco para o Teatro de Santa Isabel no próximo dia 1º de dezembro, quando fará o lançamento de “Histórias Que Andei” no Recife. “Para mim é motivo de muito orgulho poder levar uma manifestação do povo para um lugar que já foi elitizado. Eu me sinto gratificado pelo reconhecimento não só meu, mas também dos outros”, conclui ele.

Além do pandeiro, zabumba e ganzá

Viabilizado pelo edital do programa Rumos, do Itaú Cultural, “Histórias Que Andei” conta com 12 faixas e está disponível nas plataformas de streaming. O disco físico deve começar a ser comercializado a partir do fim deste mês para os fãs do mestre aprenderem seus versos, que falam de acontecimentos pessoais e do cotidiano dos pernambucanos.

Galo Preto começa a cantar na segunda música “Bate o Pandeiro”, quando apresenta os elementos centrais do coco, que são o pandeiro, a zabumba e o ganzá. O disco ainda explora outros instrumentos como alfaia, surdo e caixa para potencializar a força estética do coco. Em “Recife, Olinda”, o embolador versa sobre ter sido caluniado em 1991, mas que seu reconhecimento nas duas cidades permitiu sua superação.

“A Pinta”, como foi intitulada a sua primeira embolada, ganha também seu primeiro registro em uma dobradinha com “Pitó”. Em “Ararão”, o repentista emprega suas rimas em uma melodia forrozada para falar de amor. Em “Aruvalhado”, por sua vez, Galo Preto lembra a que o disco veio: “Aí eu lembro porque eu me sinto bem em fazer meus versos improvisados deixando pra aquela turma que vai surgir desde agora pra se lembrar de outrora, o que era o coco rimado”.

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