Miró (re) nasceu poeta

Escritor e artista performático, o pernambucano da Muribeca está longe do álcool e em fase bem-sucedida de produção

Humberto Costa (PT) e Mendonça Filho (DEM)Humberto Costa (PT) e Mendonça Filho (DEM) - Foto: Divulgação

Quando quase morreu, João Flávio Cordeiro da Silva já era Miró da Muribeca. Na escuridão, acordou em uma ala do hospital Oswaldo Cruz onde só havia doentes de câncer. Eram oito. “Ô, poeta, chama ali a enfermeira para trocar meu soro. Secou”, pediu um. “E porque você não vai?”, indignou-se o poeta. “Por que só quem anda aqui é tu”. Foi aí que “caiu a ficha, caiu o orelhão”.

“Então eu vou sair daqui, e andando”, relembra Miró, arregalando os olhos expressivamente, como de costume. Saiu correndo e foi chamar a enfermeira, que se surpreendeu com tamanha disposição: “tá bom de ter alta, doente não corre”. Voltou a comer e em 17 dias, foi hora de recomeçar - não de voltar a ser quem era antes do álcool, mas ser além. Internado em uma clínica de reabilitação há seis meses, ele se reinventa e evolui - gente e poeta.
Antes desse episódio do hospital, João Flávio tinha tentado se livrar do alcoolismo; 10 meses sem tocar num mísero copo de cerveja e ele achou que poderia beber. Era Natal, ele tinha dinheiro e solidão suficientes, tomou o primeiro gole e passou quatro meses bebendo sem parar.

Desviava das ruas conhecidas, escapulia dos amigos e foi perdendo ajuda até afundar. Como se sabe, Miró está vivo por um triz. “Quando vomitei verde, liguei para Wilson (Freire): vou morrer aqui sozinho. E ia mesmo, porque Samu nenhum ia me encontrar num edifício da Muribeca que não tinha ninguém”, diz, batendo incisivamente o dedo indicador na mesa.

Ali Miró estava afundado no álcool a ponto de desfigurar João Flávio e era apenas um cara que chorava a morte da mãe, dona Joaquina. “Antes eu bebia, mas não era alcoólatra. Quando ela morreu, eu não soube viver minha solidão, esqueci de mim, parei de ir ao cinema. Era um homem morto, só que o coração batia”.
Miró relata com detalhes, mas como se estivesse falando de outra pessoa, até que envereda pelos próprios sentimentos com sinceridade. “Faz mais de oito anos que não vejo uma mulher nua, que não tenho um amor. Eu poderia ver uma prostituta, mas não é a minha praia. Eu não preciso de sexo, de um orgasmo, preciso de um amor”, diz num desabafo.

Décimo quinto dia após a internação, João Flávio pôde sair da clínica pela primeira vez e voltou à antiga residência - uma pensão próxima ao largo de Santa Cruz, ironicamente o “câncer alcoólico do Recife” - para pegar documentos e uns livros de Drummond, alguns exemplares de “Adeus” (que fez depois da primeira morte).

Com a liberdade concedida de ir e vir da clínica, desde que respeitando os horários, João Flávio devolve-se a Miró, agora sóbrio, “totalmente limpo, inclusive da maconha”. “Não tenho vontade nenhuma de beber, fujo.

Quando vou ao mercado da Boa Vista, peço água tônica com limão e gelo, o cara me deixa colocar os livros pra vender. Quando dá quatro e meia, que começa o inferno, eu me recolho. Minha mãe me disse que eu tinha que cuidar da minha poesia e tudo o que ela me alertou está acontecendo agora”.

Miró ainda não se compreende do tanto que se vê diferente. “Estou surpreso comigo, mais seletivo, nunca mais perdi nada e me surpreendo de fazer cinco coisas durante o dia e dar tudo certo, porque não fazia nenhuma. Hoje, quando eu saio, eu sei para onde vou, sei o que fazer para não morrer, o que fazer para ganhar dinheiro”, assegura. Sem álcool, drogas e sexo, seu prazer está no reconhecimento do seu trabalho. Como se póstumo, mas vivo.

Produzindo
Rotulado pelos outros como “poeta marginal”, João Flávio virou “oficial” com “Miró até agora”, recentemente lançado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) - e para levar algo novo para a Semana do Livro de Pernambuco (onde estará em 4 de dezembro), produziu “20 para pensar um pouco”, um envelope com 21 folhas de pensamentos escritos a mão (20 dele e um de Wilson Araújo, Was). “Ele escreveu: ‘Existe abismo maior/ Que cair no esquecimento?’”, recita Miró. “Descobri que ele virou um livro sentimentalmente descartável porque as folhas são soltas e levam vários rumos. Você lê ‘Quando um bêbado vai embora/ Nem o bar sente saudade’ e lembra de alguém”.

O sóbrio Miró não para. Acaba de ser convidado para a Balada Literária, em São Paulo. Conta que em 2017 vai lançar “Oitavo dia”, poemas referentes àquele quarto do Oswaldo Cruz e seus oito ocupantes. “Comecei quando meu delírio foi acabando, mas ainda não terminei”, conta o autor de 12 livros publicados desde 1985.

 

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