“Moonlight” trata da homossexualidade e de questões raciais de forma adulta e inteligente

A jornada de Chiron o leva da delicadeza da infância à brutalidade da idade madura

Vencedor do Oscar de melhor filme, obra do diretor Barry Jenkins narra a jornada de Chiron da infância à vida adultaVencedor do Oscar de melhor filme, obra do diretor Barry Jenkins narra a jornada de Chiron da infância à vida adulta - Foto: Diamond Films/divulgação

 

 Já estamos no fim de “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, quando Kevin, o amigo de Black, pergunta quem, afinal, ele é. É tudo o que importa, desde que o filme começa, desde que vemos o menino franzino que foge dos colegas. Ele atende pelo apelido de Little (Alex R. Hibbert), ou seja, pequeno; ou, ainda, frágil.
O que mais chama a atenção em Little são os olhos. Eles não parecem ver nada. É como se não existissem para ver, mas para que ele fosse visto pelos outros. E essa é, em resumo, a história de Little: a de alguém que se constitui de fora para dentro. É como se os outros dissessem a ele, o tempo todo, o que ele é.
Não só os colegas que o perseguem dizem quem ele é (“bicha”). Também sua mãe, a drogada. E também o traficante Juan (Mahershala Ali), que o acolhe como uma espécie de filho (e de quem Little escuta outras coisas que não as que falam os colegas ou a mãe). O que importa: Little é o que dizem que ele é. A mãe, frise-se, o chama pelo nome real: Chiron (Ashton Sanders).
É a identidade, aliás, que o define na segunda parte do filme, quando se torna um rapaz espigado, porém ainda fraco. Um introvertido que mal conversa com outras pessoas. Exceto com Teresa, a namorada de Juan, o traficante (já devidamente morto) e com Kevin, o único amigo com quem pode contar.
Pode, mas nem tanto: é Kevin quem o abandonará meio covardemente durante um episódio decisivo, em que será espancado pelos colegas.
Quando chegamos à terceira parte, tudo parece ter mudado. Como se tivéssemos entrado em outro filme: Chiron tornou-se um fortão, que circula num carro parecido com o de Juan, seu tutor. Tornou-se traficante, também. Usa um protetor nos dentes que lhe dá a aparência agressiva que convém a um traficante. Passou por um reformatório e agora atende pelo nome de Black. Isto é, um genérico.
Um nome que não designa um ser, mas uma cor, uma etnia, uma “raça” - como preferir. Não será segredo dizer que esse homem sem nome só encontrará sua real identidade ao descobrir sua sexualidade. Sua homossexualidade.
Eis, em suma, um tema delicado. Não para Little, mas para qualquer um de nós: a sexualidade é o que somos. E somos ao menos em parte, como Little, aquilo que outros dizem que somos. A busca de si mesmo passa pela sexualidade (ou a busca da sexualidade é o que nos constitui, desde a infância) de forma decisiva. Freud não tocou no tema por acaso...
A jornada de Chiron o leva da delicadeza da infância à brutalidade da idade madura. De vítima a algoz, talvez. Barry Jenkins tem a inteligência de reconstituir essa árdua travessia - nada fácil para ninguém - sem facilitar o percurso nem de seu personagem nem de seu espectador.
Talvez “Moonlight” sofra de certa solenidade - mal que afeta quase todo filme do Oscar -, de alguma falta de humor, o que se explica pela complexidade do tema (para personagem e público).
Em todo caso, a sinceridade, o tranquilo bom gosto de Jenkins e a inserção da sexualidade entre outros temas (crescer; ser negro) garantem a “Moonlight” a primazia de tratar a homossexualidade de forma adulta e inteligente desde “Brokeback Mountain”, de 2005, do qual, diga-se, não herdou a tendência ao melô acaipirado.

 

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