Mosaico de vozes de vasto quintal

De Maria Bethânia a Barbeirinho do Jacarezinho, Zeca Pagodinho consegue juntar em seu novo DVD estrelas da música brasileira ao lado de artistas menos conhecidos

 

O DVD “O quintal do Pagodinho 3” começa com Maria Bethânia declamando “Mora comigo” (poema de Luiz Carlos Lacerda que ela registrou no disco “Drama - 3º ato”), com o anfitrião ao lado. A certa altura, ele completa os versos (“Ele sabe, e isso é lindo“, comenta a cantora). Uma abertura adequada para legitimar a presença de artistas da MPB em meio aos compositores de samba que fornecem sucessos para Zeca - originalmente, o projeto era uma vitrine exclusiva para esses nomes menos conhecidos. A escalação do volume 3, portanto, vai de Barbeirinho do Jacarezinho a João Bosco, Marquinho China a Luiz Melodia, Claudemir a Maria Rita.

“Eu ouvia Bethânia, muita coisa de MPB, meus irmãos compravam esses discos. Desde moleque, eu já mostrava esse lado. Enquanto estava todo mundo jogando bola, eu estava ouvindo discos em casa”, explica Zeca, no quintal de sua casa em Xerém, onde gravou o DVD (também lançado no formato de dois CDs). “As pessoas têm a impressão de que só gosto de samba, mas música não tem fronteira. Escuto Jackson do Pandeiro, Fundo de Quintal, Luiz Gonzaga... Só não boto Zeca Pagodinho, que não aguento mais”.

A música pode não ter fronteira para Zeca, mas ele faz questão de marcar as do seu quintal. Ao lado de compositores que participaram da gravação, o artista diz que não é qualquer um que pode chegar mostrando samba - há um ritual não escrito (como todos os rituais do samba) a ser respeitado. “Pra chegar alguém novo aqui tem que chegar com (nota) dez. Quando me falam “Zeca, vou te mandar um sambinha”, eu digo que se for pra mandar sambinha é melhor não mandar. Porque aqui só tem craque, e eu também componho, dou minhas canetadas”.

Dunga, um dos compositores do time, resume, sem modéstia: “O quintal do Pagodinho é a seleção brasileira do samba”, diz, antes de completar, rindo: “A seleção de 1970”. Claudemir (autor do sucesso “Ser humano” ao lado de Marquinho Índio e Mario Cleide) lembra como foi a primeira vez em que mostrou um samba para Zeca em seu quintal. “Não consegui mostrar meu samba durante a roda. No fim, já estava com o violão no saco quando surgiu a oportunidade”. O compositor Brasil do Quintal lembra: “Fui eu que insisti pra ele mostrar. E era ‘Ogum’”, diz sobre a música de Claudemir e Marquinhos PQD, gravada por Zeca no disco “Uma prova de amor”, de 2008, e interpretada por Marquinhos PQD em “O quintal do Pagodinho 3”.

Claudemir, o mais jovem do grupo, conta que ouviu Zeca pela primeira vez aos 13 anos, com o disco “Raça brasileira” (“Bati de frente com a voz dele e me apaixonei”). Zeca aproveita a deixa para chamar atenção para o caminho que a música brasileira faz de uma geração de artistas a outra, dos ídolos se tornando colegas: “Eu lembro de botar o compacto de Martinho, “Felicidade, passei no vestibular” (cantarola “O pequeno burguês”), ficar cantando junto. E de repente Martinho está aqui no quintal (ele participou de “O quintal do Pagodinho 2”). E quem imaginou que Bethânia viria em Xerém?”

A peneira entre os jovens para se tornar frequentador do quintal passa pelo projeto “O quintal do Pagodinho em Vargem Grande”, comandado por Brasil do Quintal e Gilson Bernini. “Eles apresentam seus sambas na roda de Vargem Grande, e quando vemos que eles estão prontos, trazemos pro Quintal em Xerém”, explica Brasil.

A escalação dos nomes para o projeto (feita por Zeca com os diretores artísticos Max Pierre e Victor Kelly) inclui, além dos já citados, artistas como Wilson Moreira, Marcos Valle, Zeca Baleiro, Nelson Sargento, Neguinho da Beija-Flor, Zélia Duncan e Paulinho da Viola. Marquinho China (que canta no DVD “Ter compaixão”, sua com Arlindo Cruz e Zeca) aponta a beleza de “O quintal do Pagodinho” exatamente nessa diversidade: “É bonito quando junta esse Brasil, é bonito quando se festeja o encontro da diferença. Aqui você tem o samba do Recôncavo, o samba da Serrinha, o meu samba de Pilares, as diferentes vozes que formam esse quintal imenso. O quintal do Zeca é isso aqui (diz, apontando para os animais criados ali): tem zebu, tem pato, tem cavalo, tem pavão...”

 

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