Mostra coletiva 'Os da minha Rua' discute como o negro existe e resiste na arte

Exposição no Museu da Abolição, reúne dez artistas para falar sobre a presença do negro nos espaços de arte no Brasil

Mostra coletiva reúne artistas negros e negras, de diversas origens e linguagensMostra coletiva reúne artistas negros e negras, de diversas origens e linguagens - Foto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco

Dez artistas negros e negras ocupam o Museu da Abolição a partir desta sexta-feira (19). Até 16 de dezembro, o casarão no bairro da Madalena vai sediar a exposição coletiva "Os da minha Rua: Poéticas de R/Existência de artistas afro-brasileiros", que traz diversas vozes para expressar o espaço ocupado pelo negro na arte.

 O evento começou a surgir em 2016, quando a professora e pesquisadora Joana D´Arc Souza Lima começou a se confrontar com a ausência do corpo negro nos acervos, escolas e museus. "Eu me percebi completamente cega, como moradora do Brasil, Pernambuco, Recife, Graças. Não enxergava a presença nem a ausência do negro", revela. O nome da exposição veio da obra do escritor angolano Ondjaki, permeada por questões políticas e sociais muito próximas às do Brasil. 

Os pernambucanos Ana Lira, Edson Barrus, Izidoro Cavalcanti e José Barbosa vão se juntar a Maré de Matos e Priscila Rezende (MG); Moisés Patrício e Rosana Paulino (SP); Dalton Paula (GO) e Renata Felinto (SP/CE). Está programada a participação de jovens poetas da cena pernambucana, como Adelaide dos Santos, que faz parte do Recital Boca do Trombone. Outro artista convidado pela curadoria é Ypiranga Filho, que vai apresentar "Ogum", uma escultura gigante, em ferro, que integra uma série de trabalhos do artista sobre os orixás.

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A mostra levanta questões importantes em relação ao lugar dos negros na sociedade brasileira. "Metade dos 200 milhões de brasileiros se autodeclaram negros no Censo do IBGE, mas mesmo assim a gente é como poeira estelar dentro desse macrocosmo que é a arte no Brasil. Onde estão os negros? Em lugares muito demarcados, no samba, no grafite, na arte de rua. Não estamos nos museus, tirando algumas exceções que acontecem até mesmo como uma espécie de concessão", aponta Ana Lira. Para ela, não adianta participar dessa realidade de uma forma única. "O padrão imobiliza. Os corpos diferentes precisam existir para representar essa pluralidade, e por isso temos que buscar nosso lugar dentro da arte contemporânea, que é seletiva e segregadora", acrescenta.

Entre as obras que podem ser vistas na exposição, estão o lambe-lambe "Cão Mulato", uma espécie de bula que ensina como produzir geneticamente um cão vira-lata e que integra um projeto de Edson Barrus, que busca meios para dar visibilidade àquilo que considera uma ideia-síntese de Brasil híbrido; os trabalhos de Rosana Paulino, que dialogam com os diversos tipos de violência sofridos pela mulher negra; as séries fotográficas "Cor da Pele" e "Corpo Receptivo" e o vídeo "O batedor de bolsa", onde Dalton de Paula ressignifica seu próprio corpo; e a série de fotografias "Aceita?", de Moisés Patrício, que vai também comandar uma oficina de quatro dias sobre os processos de criação em rituais de performance negra.

 "É uma oportunidade única que foi, de muitas formas, negada a meus antepassados. A arte é um dispositivo de libertação e eu tento criar geografias poéticas, possibilidades de convivência nas cidades", descreve Moisés.

Já Ana Lira vai realizar uma vivência performática, em que articula uma dinâmica de compartilhamento e escuta sobre a invisibilidade como ferramenta de poder. Por sua vez, Maré Matos traz um trabalho ligado à memória, com uma instalação chamada "Rio Doce" (sua terra natal, em Minas Gerais, palco da maior tragédia ambiental vivenciada pelo País, em 2015). “Como mineira do Vale do Rio Doce, a narrativa evidencia que minha memória é atravessada e, por vezes, confundida com a prática da exploração”, analisa.

O pernambucano Izidoro Cavalcanti produziu peças exclusivas para a exposição

O pernambucano Izidoro Cavalcanti produziu peças exclusivas para a exposição - Crédito: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco

Izidoro Cavalcanti vai apresentar dois trabalhos inéditos, feitos para a exposição. “Vou colocar meu corpo como objeto de resistência", adianta. Ele denuncia a dificuldade de inserção dos negros no mercado da arte. "Os curadores não têm o olhar voltado para os artistas negros locais. Embora eu viva da arte há 20 anos, na minha experiência não existe cota nem reserva de mercado". José Barbosa expõe dois entalhes em madeira, remetendo aos fazeres artísticos africanos, e três pinturas que mostram a representação do negro no carnaval de Olinda.

Renata Felinto traz a obra "Embalando Mateus ao som de um hardcore" (2017), em um trocadilho com o ditado (popular e bastante machista) “quem pariu Mateus que o embale”. A artista reflete sobre a maternidade negra solo, trazendo vários trabalhos produzidos em linguagens diversas e frases ditas por mães que criam seus filhos sozinhas. Por fim, em 20 de novembro (dia da Consciência Negra), Priscila Rezende virá ao Recife realizar uma performance nos jardins do Museu da Abolição. Durante esta semana comemorativa, vai haver uma série de atividades extras no espaço.

Serviço:

Exposição "Os da Minha Rua: Poéticas de R/existência de Artistas afro-brasileiros"
Quando: 19 de outubro a 16 de dezembro
Onde: Museu da Abolição - Rua Benfica, 1150 - Madalena
Informações: (81) 3228-3248
Visitação: de segunda a sexta, das 9h às 17h, e aos sábados, das 13h às 17h
Entrada gratuita

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