A-A+

Não podemos sucumbir aos ataques a artistas e imprensa, diz Adnet

O humorista colaborou pela primeira vez do samba-enredo da São Clemente, que entra na Sapucaí nesta segunda (24) pontualmente às 21h30

Marcelo AdnetMarcelo Adnet - Foto: Reprodução/Instagram

A São Clemente entra na Sapucaí nesta segunda (24) pontualmente às 21h30 com a missão de, pela primeira vez, se classificar para voltar no sábado (29) para o Desfile das Campeãs, quando as primeiras seis colocadas se exibem novamente. No ano passado, a escola ficou em 12º e, para realizar o feito inédito, conta com a colaboração de um marinheiro de primeira viagem em seu samba-enredo, o ator Marcelo Adnet.

Botafoguense de frequentar estádios, ele torce pela escola de seu bairro, a única da zona sul do Rio, desde que seu pai o levou ao desfile "aos 3 ou 4 anos de idade". Mas é a primeira vez que verá um samba-enredo escrito por ele cantado na avenida. O ator da Globo não vai cantar, mas estará em cima de um carro alegórico.

Leia também:
Escolas de sambas preparam desfiles com suor, amor e criatividade
Ex-dirigente de escolas de samba é pivô de investigação sobre Crivella
Escolas de samba de SP iniciam ensaios técnicos para carnaval


"O Conto do Vigário", que descreve o país como uma terra de malandros, foi composto com seus sete parceiros ao longo de "dez encontros bebendo cerveja, soltando frases". Conhecido pelas imitações de políticos e paródias de música popular, Adnet falou do atual momento do país e das fake news que assolam as redes sociais.

Você é formado em jornalismo e seu samba-enredo fala de fake news. Qual é sua opinião sobre o que está acontecendo no país?
Para atuar e criticar quem quer seja, é preciso ter coragem. O jornalista também, ele saiu de um lugar de conforto e está apanhando para caramba. Está sofrendo uma pressão desproporcional, antidemocrática e muitas vezes criminosa.

A imprensa não foi feita para passar a mão na cabeça. Já tive várias coisas publicadas a meu respeito que não concordei. Quando é da vida pessoal, quando é mentira, é antiético e a imprensa tem que ser cobrada. Ela pode cobrar e pode ser cobrada, mas não ser ameaçada e vista como inimiga.

"Vamos minar, atacar, investigar a vida e criar uma máquina de fake news para atacar pessoalmente quem ousar levantar a voz contra a gente". Então, eu passo por isso como ator, e o jornalista também. É uma pena, mas a gente precisa ser forte. Não podemos sucumbir a isso.

Você já foi agredido na rua?
Não fisicamente, mas de falarem e gritarem coisas, sim. Uma vez andando na rua em Botafogo e outra em um supermercado na Barra. "Vagabundo, vai embora" e fazendo arminha com a mão. 

E uma vez no Humaitá veio uma senhora dizendo que eu apoiava a ditadura cubana. Eu disse "não, eu não apoio". "Mas e o Che Guevara" e sei mais lá o quê. Eu disse : "Senhora, não sei do que está falando". "Ah, mas eu li no Facebook que você apoia o Freixo [deputado federal do PSOL], isso quer dizer que apoia Cuba".

É algo virtual, forjado propositadamente para distorcer a opinião pública para um lado.
Foi tão distorcido que pessoas que são de centro são consideradas hoje de esquerda, "tudo comunista". A Globo, a Folha estão sendo chamadas de extrema esquerda; não acho que sejam.

Outros consideram que essa grande mídia ajudou o Bolsonaro a se eleger.
Claro, mas eu achava a questão dos petistas um pouco mais leve. Não era uma coisa tão pessoal, era contra a instituição. Agora é contra o repórter, acusações gravíssimas, coisas horrorosas sobre as mulheres, pegando o lado sexual. Uma coisa muito covarde, mas ficar de pé é a melhor resposta.

De onde vem seu interesse pelo Carnaval?
Talvez o fato de eu ter ido na Sapucaí aos 3 ou 4 anos tenha me marcado. Minha família é de músicos e o cara que mais gostava de samba na família inteira era eu, criança. Sempre torci para a São Clemente, que é do bairro onde cresci, Humaitá e Botafogo. Depois isso ficou um pouco de lado na minha vida, mas há dois anos uns amigos me chamaram para fazer um samba. Fizemos dez encontros bebendo cerveja, soltando frases.

E como seu samba-enredo foi escolhido?
A disputa aconteceu em oito sábados na quadra. Começam 16 sambas em duas chaves de oito, caem dois de cada uma, depois mais dois, e vai caindo até que sobram três. A gente contrata puxador, cavaquinista e violonista, a bateria é a da escola, e levamos torcida. Com menos de 50 pessoas fica caído, então dá um trabalho.

A diretoria anuncia o campeão, mas cada escola tem um processo. A Tijuca, por exemplo, encomendou um samba do Jorge Aragão. Outras pediram CDs com o samba gravado. Mas a maioria faz disputa.

Sua fama como ator trouxe grande visibilidade para a São Clemente. Você acha que isso ajudou na escolha?
Esse fator teria entrado em campo se não tivéssemos um bom samba, mas o nosso era o melhor da disputa. Falo isso como músico. Tinha um outro muito bom, mais apurado tecnicamente e poeticamente, mas era menos para cima. Portanto, ele empolgou menos a quadra. Por isso, a decisão foi justa. Tudo isso pode ter, sim, uma influência, mas é algo que nunca vou saber.

No ano passado, a São Clemente ficou em 12º lugar, a última escola que não caiu de divisão. Você se sente pressionado para melhorar essa posição?
Quero que o público goste, cante nosso samba. Se isso acontecer, tenho quase certeza que a escola não cai. Se ficarmos em sexto lugar seria um sonho, porque estaríamos no primeiro Desfile das Campeãs. Nunca aconteceu na história da escola. Em 1990, a São Clemente ficou em sexto, mas, justamente naquele ano, o desfile das campeãs teve apenas as cinco primeiras. Estamos há dez anos sem cair, mas não chegamos lá. O público tem grande simpatia pela escola, mas os jurados pesam a caneta.

A São Clemente é a primeira escola da zona sul do Rio. Como você vê isso?
É a única da zona sul. Acho natural, o Carnaval é de todos, de todas as classes, de todo mundo que se dispuser a suar. Eu não estou num camarote, bebendo algo diferente. É legal ter representantes de todas as regiões e é a escola que tem como marca ser irreverente, crítica e alegre. É a única escola que tem essa marca, inclusive nosso mote é "olha a crítica".

Sempre são sambas divertidos?
A escola havia abandonado essa tendência, mas agora está reencontrando. Estava falando de coisas mais clássicas, o pintor francês Jean-Baptiste Debret, Revolução Francesa. No ano passado e neste ano, voltamos a falar de coisas mais esculachadas, esculhambadas, que é o Brasil.

Teve em 2004 "O Boi Voador" com o refrão: "Todo mundo pelado, beleza pura/ Todo mundo pelado, que loucura/ Ninguém segura a perereca da vizinha/ É um barato a buzina do Chacrinha". Teve "O Samba Sambou", de 1990, que é uma crítica ao próprio desfile: "Carnavalescos, dirigentes poderosos/ Dirigentes vaidosos/ Criam tanta confusão/ E o samba vai perdendo a tradição". É uma escola necessária, muito simpática e o público sabe disso.

Por ser da zona sul, é uma escola com mais brancos do que negros?
Na nossa parceria sim, mas na escola não. Na hora do desfile a coisa é bem dividida. É uma escola miscigenada, que tem todo o espectro e acho isso bonito. E se alguém achar a escola um pouco mais branca, é porque ela é da rua São Clemente, da zona sul, que tem uma população provavelmente mais branca do que a média da cidade.

Parte do seu trabalho mais conhecido é a das paródias musicais. Este samba-enredo está nessa linha de trabalho?
Não. Samba é bem diferente da música pop. O samba é uma música épica. Ou ele explora uma história de tragédia e superação ou uma saga com alegria e conquista, a ilusão do Carnaval. A música popular é mais simplória, a extensão das emoções é menor.

E o samba-enredo vem atrelado a uma história, está conectado a muita coisa. Se fosse o Power Point de Deltan Dallagnol [coordenador da Lava Jato que, em 2016, fez apresentação com acusações contra Lula], ele estaria ali no meio, tudo apontando para o samba-enredo. A evolução, a cadência do desfile, a harmonia, a bateria, tudo isso depende do samba. Tem que ter mais seriedade, mais objetividade e mais poesia do que a paródia. Tudo isso estou aprendendo, é meu primeiro ano.

O Fora de Hora não está tendo críticas tão boas quando o Tá no Ar. O modelo se esgotou? Ou a crítica está errada?
Bom, eu nunca acho que a crítica está errada. Eu não tenho acompanhado tanto. No Tá no Ar eu era roteirista geral, ator, fazia todos os clipes musicais, as locuções. E ainda tinha a Escolinha do Professor Raimundo e mais algumas participações. Era coisa demais. Agora eu faço uma coisa só, que é atuar.

Mas analisando o porquê de o programa de cara não tenha o mesmo sucesso, eu acho que o Tá no Ar elevou muito o patamar. Tinha uma linguagem especial, era muito ácido. Tinha como universo a programação da televisão. Criou uma expectativa grande também porque o novo programa tem um novo elenco muito bom.

A segunda coisa é que o universo da TV é maior do que o universo jornalístico da TV. E esse tem a característica de ser sempre quente. A gente nem grava segunda e terça mais, só de quarta para frente para ficar mais colado no noticiário. É muito mais difícil porque a redação tem que funcionar em cima do lance.

E a história do assédio moral, quando Dani Calabresa e outras artistas acusaram o Marcius Melhem, ator e coordenador do departamento de humor da Globo?
Então, eu não presenciei nada. Até saiu que eu testemunhei e me coloquei do lado delas, mas isso não aconteceu. Também não quis desmentir oficialmente para não parecer que eu não estava do lado delas. É muito simples. O Marcius é meu amigo, a Dani Calabresa também, todos se falam e acho leviano falar porque não presenciei.

RAIO-X

Marcelo Adnet, 38 Ator, compositor, roteirista e apresentador de televisão, nasceu no Rio de Janeiro em 1981. Formou-se em jornalismo, mas logo passou para os palcos, onde desenvolveu seu lado cômico. Começou a chamar a atenção com imitações em 2008, na MTV. Na Globo, escreveu e atuou, entre outros, no programa Tá no Ar. Neste ano, passou a atuar no humorístico "Fora de Hora", que vai ao ar às terças à noite.

Veja também

Cinco jogos de arrepiar os cabelos para você ir entrando no clima do Dia das Bruxas
TECNOLOGIA E GAMES

Cinco jogos de arrepiar os cabelos para você ir entrando no clima do Dia das Bruxas

Super fã? Adele tem chiclete mastigado por Celine Dion
Inusitado

Super fã? Adele tem chiclete mastigado por Celine Dion