'No Brasil, a corrupção faz parte da lógica política', diz José Padilha sobre 'O Mecanismo'

Com oito episódios, seriado estreia nesta sexta-feira (23) na Netflix

Selton Mello interpreta o delegado da Polícia Federal, Marco RuffoSelton Mello interpreta o delegado da Polícia Federal, Marco Ruffo - Foto: Netflix/Divulgação

Rio de Janeiro* - Ficção e realidade andam de mãos dadas na próxima produção brasileira da Netflix, que estreia nesta sexta-feira (23). “O mecanismo”, série criada por José Padilha ("Narcos", "Tropa de Elite 1 e 2") e Elena Soarez ("Eu tu eles", "Filhos do Carnaval"), tem seu roteiro construído a partir de um assunto que mexe muito com os brasileiros.

Com oito episódios já finalizados, a obra é livremente inspirada no livro "Lava Jato - O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil", do jornalista Vladimir Netto, e leva para as telas um olhar sobre a investigação que revelou um dos maiores esquemas de corrupção do País e seus desdobramentos. “A maior dificuldade é balancear ficção e realidade, política e entretenimento.

Também, do ponto de vista narrativo, para estruturar essa história foi um pouco ingrato, porque o alvo dessa investigação foi se abrindo. Começou com os doleiros, depois, chegou aos chefes das estatais, empresários e políticos. Então, é um desafio colocar essa gente toda em um shake que seja palatável como entretenimento”, afirma Helena, que levou mais de um ano para fechar o roteiro.

“Primeiro, eu tinha que entender tudo aquilo. É muita coisa que vai surgindo. Eu ficava recortando as notícias e, em alguns momentos, acabava picotando o jornal quase inteiro. Mas, depois, a gente engole tudo isso e se afasta, para dar lugar à dramaturgia e aos personagens”, explica a roteirista.

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Para se resguardar de possíveis processos, a produção da Netflix alterou os nomes de personagens, empresas, órgãos públicos e partidos políticos. A comparação com a realidade, no entanto, é inevitável. São claras as referências a algumas figuras públicas, como Lula, tratado nas cenas apenas como Presidente.

As polêmicas que seu trabalho pode suscitar entre pessoas de diferentes ideais políticos não parecem intimidar Padilha. “Existe corrupção em diversos países. Mas, no Brasil, ela faz parte da lógica política, é estrutural. O que eu chamo de mecanismo é o sistema que opera tudo isso. Para mim, ele não possuiu ideologia política. Está presente tanto nos partidos de esquerda como nos de direita”, declara.



Para a atriz Carol Abras, que interpreta a delegada Verena Cardoni, o seriado abre as portas para a reflexão. “Acho que a gente não pode ter medo dessa polarização de ideias. A minha impressão é que isso gera debate, que é uma coisa legal”, opina.

Já que o programa será transmitido para 190 países, uma das preocupações dos seus criadores foi tornar toda essa rede compreensível e atrativa para pessoas de outros lugares. “A gente está falando para o mundo todo. Para explicar para quem é de fora o que é doleiro, por exemplo, é muito complicado. Nesse sentido, os próprios executivos da Netflix foram dando o feedback do que funcionava ou não”, conta Elena.

Filmado ao longo de 16 semanas, o seriado teve quatro diretores. O próprio José Padilha se encarregou de dirigir o primeiro episódio. Os demais foram conduzidos por Marcos Prado, Felipe Prado e Daniel Rezende. “O Padilha deu o tom da série. Nós tivemos a chance de aprimorar isso e trazer nossos pontos de vista. Tivemos muita liberdade para contribuir, mas sem fugir da premissa que já estava estabelecida pelos criadores”, diz Daniel, que assina os dois últimos capítulos.

Enrique Diaz (o doleiro Roberto Ibrahim) contracena com Selton Mello

Enrique Diaz (o doleiro Roberto Ibrahim) contracena com Selton Mello - Crédito: Netflix/Divulgação


Os protagonistas

O enredo de “O mecanismo” foca no delegado da Polícia Federal Marco Ruffo (Selton Mello) e na sua obsessão por capturar o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz), criminoso especializado em lavagem de dinheiro. A relação conflituosa entre os dois personagens, que foram amigos no passado, é o que movimenta a maior parte da trama.

“Essa disputa entre eles me agrada muito, porque independe do fundo político. É bom em si e poderia estar em qualquer outro contexto. Esse duelo entre bem e mal foi muito bem escrito pela Elena”, comenta Diaz.

Na pele do mocinho da história, Selton acredita que a identificação do público com seu personagem pode vir de sua profundidade psicológica. “Primeiro, ele tem o lado do delegado, que não aceita o estado das coisas e quer lutar contra um monstro. Por outro lado, é um cara que ganha pouco e precisa do dinheiro para cuidar da filha que tem problemas de saúde. Nesse sentido, acho que as pessoas podem olhar para o Ruffo e encará-lo como um espelho”, espera.

* O repórter viajou a convite da Netflix



 

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