No Porn ferve a pista do Recife com inéditas e o clássico "Baile de Peruas"

Liana Padilha e Lucas Freire se apresentam no antigo Biruta, à beira-mar do Pina, nesta sexta-feira (28)

Liana Padilha e Lucas Freire trazem a No Porn ao Recife nesta sexta (28)Liana Padilha e Lucas Freire trazem a No Porn ao Recife nesta sexta (28) - Foto: Divulgação

Foi com a música "Baile de Peruas" que a paulista No Porn ganhou destaque, em 2006. À época, ainda formada por Liana Padilha e Luca Lauri, a dupla de DJs ampliou o universo underground com as suas batidas, que caíam bem na pista, com um drink, e faziam o público viajar nas frases levemente musicadas, entoadas como num catwalk por Liana. Não há quem curta uma balada de clube e não se anime quando tocam os primeiros beats da canção, que ganhou força com o tempo.

Nesta sexta-feira (28), o Recife terá a chance de assistir mais uma vez ao show da No Porn, agora sem Luca, que vai passar dois anos fora, estudando, e com Lucas Freire acompanhando Liana, ambos artistas plásticos. O agito rola no antigo Biruta, à beira-mar do Pina, onde, aliás, a dupla já se apresentou, no ano passado. 

A No Porn é, além de uma dupla de DJs, um projeto de experimentação artística

A No Porn é, além de uma dupla de DJs, um projeto de experimentação artística - Crédito: Divulgação

Em entrevista ao Portal Folha PE, Liana contou que encara o projeto como um trabalho de pesquisa artística, principalmente sobre a pornografia, então por mais que, eventualmente, não estejam se apresentando, há um esforço de atualização cultural inerente à No Porn. "A gente é educado pela pornografia e não pelos sentidos, não pelas coisas que a gente sente. E como que isso importa para as pessoas a tal ponto da discussão mudar de foco, virar em cima da liberdade individual e não em cima da população, das pessoas que passam fome, sem educação. Eu acho que tem uma coisa perversa nisso de confundir a sexualidade com pornografia. Com aquela coisa plástica e ao mesmo tempo escondida. Não como uma coisa aberta e viva que é da natureza humana. Eu sempre questionei isso", explica.

É dessa inquietação que surge a No Porn, no início dos anos 2000, exalando liberdades, sexualidade e o conceito clubber que bombou nos anos 1990. Também rolava uma identificação inegável com a estética Voguing, dança que deu o tom à vida noturna LGBT nova-iorquina nos anos 1980. Ligando os pontos, percebe-se que o público LGBT do Recife terá um presente e tanto nesta sexta (28), dia do Orgulho LGBTI+ e uma reverência aos 50 anos da Revolta de Stonewall, que mudou o rumo da comunidade em todo o mundo.

Liana Padilha

Liana Padilha - Crédito: Divulgação

A relação da No Porn com esse público não foi pensada, surgiu naturalmente. "Quando a gente foi tocando nos clubes, eu comecei a ver que as pessoas se identificavam. No início, muitos meninos gays. Eles se identificavam muito com minhas letras. A forma como eu falava das coisas. E aí eu comecei perceber isso. Hoje em dia já é mais equilibrado, tem mulheres também. Mas no início eram meninos mesmo, bem novinhos. E eu achei interessante, porque era uma mulher falando, então tinha uma coisa quase maternal, uma mulher falando de sexualidade para um menino", lembra Liana.

A No Porn mantém a sua essência: pensada para a pista, muito embora isso tenha se adequado, com o tempo, ao desejo do público. Por mais que tenha sido, durante 10 anos, um trabalho de clube, de DJ, "de guigueiro", como define Liana, agora já começa a rolar uma pegada mais de show, sem deixar de lado a proposta da tocada. "A ideia não é parar para ficar me olhando. A ideia é a pessoa ficar dançando. Hoje em dia, acaba que as pessoas gostam de ver show. Tudo é muito orgânico. Não tem produtor. Tudo é a gente que cria", esclarece.

Funciona como ao vivo: só se concretiza no momento em que se faz. "Eu chego para passar o som, eu sinto como é o lugar, eu penso como as pessoas vão estar e eu tento fazer um show para aquilo. Não tem um show formado. É uma ideia de DJ mesmo".


Clássico da pista

Baile de Peruas virou um must have do dance floor. E o processo de sua composição revela não só um trabalho baseado na experimentação, mas, sobretudo, a marca de um período do jornalismo de moda e da própria cena fashion do Brasil. "O 'Baile de Peruas' foram críticas negativas de jornalistas do Brasil todo a um desfile do estilista André Lima na São Paulo Fashion Week. Falaram muito mal: 'cafonice intrínseca', todas as frases são reais, nenhuma é minha", conta. "Só que aí ele me deu, na estação seguinte, os textos, o clipping destrutivo e disse: escolhe as piores frases e faz uma música", lembra.

E teve mais: no desfile seguinte, a No Porn cantou a música ao vivo, e aí os jornalistas se reconheceram. Resultado: ninguém teve coragem de "xoxar" mais. Era, segundo Liana, "um momento de mudança do jornalismo de moda, porque falavam muito mal dos trabalhos, mas aí com a era dos likes, dos seguidores, não se pode falar tão mal assim".

A letra diz, entre outras coisas, o seguinte: A temporada apresentou uma coleção que não deu certo/Baile de Peruas/Peruas, peruas/Coleção decadente cigana/Tecido de cortinas e almofadas/Cafonice intrínseca/Auto ironia a toda prova/A latejoula apareceu de novo//Pretensão no blazer/Saias em camadas/Bordadas, bordadas/Chiques e decadentes/Perfeição, excelência e riqueza/Escolheu a beleza errada/Momentos de falta de acabamento/Olhar antigo/O que era kitsch/Virou Brega.

 

A estética Voguing pode ser vista nas batidas da No Porn

A estética Voguing pode ser vista nas batidas da No Porn - Crédito: Reprodução Paris is Burning 

 

Mas, bem, a parceria com o paraense não parou por aí. Depois do "Baile de Peruas", veio "Maiô da Mulher Maravilha", uma prima da primeira. Recentemente, vieram mais três, agora compostas com o propósito de embalar desfiles de jovens estilistas do Norte do Brasil: "Índia Vedete", já disponível nas plataformas digitais, "Sol de Plumas" e "Mulher Peixe", que serão apresentadas com ineditismo no Recife. Juntam-se à No Porn na noite Potyguara Bardo (RN), Triinca (PE) e os DJs Claudinha Summer, Ursal e Iury Andrew. Será uma noite para quem curte o clima de inferninho e música para se jogar na pista.

Dia do Orgulho LGBTI+

Este show da No Porn terá um quê de especial para a comunidade LGBTI+ do Recife, que certamente deverá lotar o Biruta para assistir à dupla. O Dia do Orgulho LGBTI+, celebrado internacionalmente no 28 de junho, marca os 50 anos da Revolta de Stonewall, uma série de manifestações de membros da comunidade LGBTI+ contra uma invasão da polícia ao bar Stonewall Inn, no Greewich Village, em Nova Iorque, em 1969. A partir daí, foram 10 dias de conflito e violência intensos.  

Marcha P. Johnson e Sylvia Rivera foram pessoas importantes na Revolta de Stonewall

Marcha P. Johnson e Sylvia Rivera foram pessoas importantes na Revolta de Stonewall - Crédito: Divulgação

Eram as populações gay, lésbica, transsexual , absurdamente reprimidas e proibidas, dizendo não só aos Estados Unidos, mas ao mundo que não iriam aguentar mais a homofobia e a transfobia. Para LGBTs, esta sexta é dia de celebrar a vida e reverenciar quem veio antes abrindo caminho para as liberdades de hoje.


Merece destaque, na programação da noite, a performance de Potyguara Bardo, com um show que mistura música, arte drag, dança e psicodelia. Em cena, a artista, natural do Rio Grande do Norte, interpreta canções do álbum “Simulacre”, que propõem um mergulho musical inusitado: letras autorais existencialistas em roupagens que envolvem ritmos como funk, lambada, reggae e pop eletrônico – música feita para dançar.

 

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