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Cinema

Nordestino é o único latino aprovado para programa talentos mundiais em cinema na Suíça

Bernardo LessaBernardo Lessa - Foto: Divulgação

Gago de nascença e apaixonado por falar, Bernardo descobriu aos 8 anos de idade que conseguia se comunicar sem gaguejar através do audiovisual. Natural de Salvador (BA), ainda na escola, criou um vlog (Diário de um Gago) para se comunicar com outras pessoas que passavam pelas mesmas dificuldades de fluência. Aos 18 anos, mudou para Pernambuco para estudar Cinema e Audiovisual na UFPE. Pelo seu ótimo desempenho acadêmico e busca incansável pelo aprendizado, ainda no terceiro período (2017), foi chamado para estagiar no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, nas equipes de programação, curadoria e marketing. Pouco tempo depois, foi efetivado pelo Cinema, trabalhou lá durante dois anos, na programação semanal e na organização de mais de 20 mostras e festivais nacionais e internacionais. Em 2017, o Cinema da Fundação marcou 32 mil ingressos vendidos, em 2019, ele chegou a 83 mil, um aumento de quase 160%.

Frequentando, diariamente, uma sala de cinema, Bernardo descobriu que havia espaço no seu coração para uma paixão ainda maior do que realizar audiovisual. “Ao entrar em contato com mais de 20 títulos por semana, e programar, junto à equipe, quase 300 filmes por ano, fiquei muito frustrado ao descobrir que não basta o filme ser bom para chegar às pessoas”.  A reflexão do jovem estudante traz à tona uma dura realidade brasileira.

Mesmo com o crescimento do número de produções e salas de exibição, o cinema brasileiro ainda tem dificuldade de encontrar o seu público. Nos últimos 10 anos, o mercado audiovisual nacional lançou mais de 1.300 filmes, movimentando cerca de 1,67% do PIB nacional ao ano. Apesar desse enorme crescimento, advindo de fortes políticas públicas e profissionalização do setor, ao tratarmos de fomento direto, apenas 4% de todo valor disponibilizado pelo Fundo Setorial do Audiovisual foi direcionado para a distribuição, elo da cadeia responsável por divulgar, promover e comercializar os filmes.

Ao se dar conta deste cenário nacional, Bernardo iniciou uma pesquisa, com orientação da professora e produtora Mannuela Costa, para mapear as políticas públicas voltadas para a distribuição do cinema brasileiro. Com isso, concluiu a sua graduação com uma monografia publicada sobre o tema, e teve seu diploma laureado pelo desempenho acadêmico, quando já estava longe de Pernambuco. Antes mesmo de se formar (2019), aos 22 anos, Bernardo mudou-se para São Paulo, após receber um convite da Vitrine Filmes, uma das maiores distribuidoras independentes do país.

Atualmente, o jovem de 23 anos é Supervisor de Distribuição na empresa e, a fim de multiplicar todo o conhecimento acumulado na sua breve carreira, criou junto a Amanda Kadobayashi, Lívia Donadeli e Felipe Lopes o Vitrine Lab - um laboratório de formação em distribuição e comercialização de filmes. Na Vitrine Filmes, Bernardo também colaborou no lançamento de grandes títulos como o vencedor do Oscar Druk - Mais uma Rodada (Thomas Vinterberg), Alvorada (Anna Muylaert), documentário sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff, Três Verões (Sandra Kogut), protagonizado por Regina Casé, e A Vida Invisível (Karim Ainouz), premiado no Festival de Cannes em 2019.

Para democratizar o acesso ao conhecimento e agregar ao crescimento do mercado audiovisual brasileiro, Marina Kosa, diretora da Tanto Produções, e Bernardo criaram a página @TantoCinema, que conta com explicações do mercado, listas de editais abertos, notícias do momento e muito mais. Em pouco mais de 3 meses de criação, o perfil já conquistou mais de 6 mil seguidores, e possui um engajamento destaque quando comparado às outras páginas que tratam do tema.

Em maio deste ano, Bernardo Lessa recebeu um convite para ir à Suíça participar do U30 do Festival de Cinema de Locarno, um dos mais prestigiosos do mundo. Foram apenas 8 convidados e, dentre eles, Bernardo é o único da América Latina. O programa para o qual ele foi convidado oferece um espaço para jovens talentos profissionais, abaixo dos 30 anos, que desejam expressar sua preocupação em questões de alta relevância relacionadas ao cinema. Com uma bolsa do Projeto Paradiso e apoio do Festival de Locarno, Bernardo cumprirá todas as medidas de segurança necessárias para chegar à Suíça em agosto, e representar o Brasil.

“Para alcançar um novo público precisamos de novas histórias, novas pessoas, que o público se identifique.”, ressalta Bernardo, “o Brasil está passando por um momento terrível politicamente, com um governo que joga contra a cultura, contra a preservação da memória, mas nós não vamos nos calar. Já resistimos uma vez, e podemos fazer novamente, se estivermos unidos.”

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