Nova HQ de Dave McKean capta guerra pelo olhar de um artista

História em quadrinho 'Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash' recorre às do pintor Paul Nash (1889-1846) durante a Primeira Guerra Mundial

HQ "Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash"HQ "Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash" - Foto: Divulgação

No mundo das histórias em quadrinhos, alguns artistas são cultuados como criadores de realidades particulares. Entre esses nomes que arrastam hordas alucinadas às convenções de fãs está o inglês Dave McKean, 54. Ilustrador de trabalhos de forte caráter onírico, ele chega mais uma vez ao mercado brasileiro com uma obra arrebatadora, "Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash".

"O que me atraiu para esse projeto foi captar a guerra pelo olhar de uma pessoa, no caso uma pessoa extraordinária", diz McKean. Ele se refere a Paul Nash (1889-1946), figura central do modernismo nas artes britânicas. Um dos maiores pintores de paisagens do século 20, Nash lutou na Primeira Guerra Mundial e essa experiência marcou fortemente seu trabalho.

McKean enxerga muitas ligações entre ele e Nash. "Ele retornou da Primeira Guerra e foi viver e trabalhar numa pequena cidade próxima de onde eu moro. Então compartilhamos as mesmas paisagens. Ele perdeu a mãe quando era jovem, e eu perdi meu pai muito cedo. Temos muita coisa em comum, um lado sombrio, melancólico."

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"Black Dog" nasceu de um convite feito pelo projeto "14-18 NOW", que patrocina trabalhos que resgatam o período da Primeira Guerra (1914-18). McKean defende a necessidade de um olhar constante sobre este e outros episódios conturbados da história.

"No mundo que temos agora, existe esse cenário de fake news que tentam reescrever a verdade. Viver em liberdade é um trabalho muito árduo. Muita gente se esquece de que pessoas precisaram morrer para que a liberdade fosse conquistada. É necessário lembrar o custo de tudo isso, o tempo todo."

O autor não define "Black Dog" como um relato da vida de Nash, embora ele tenha escrito todo o texto a partir de trechos da autobiografia do artista e de transcrições de conversas dele com soldados na frente de batalha, muitos travados pouco antes da morte desses homens.

McKean vê a obra como uma sequência de sonhos. Acredita que neles estão as impressões deixadas na personalidade de Nash, que seriam mais importantes do que relatar o que acontecia em sua realidade.

"O sonho é um filtro, que tenta realçar as cicatrizes psicológicas provocadas pelas mortes no combate. Meu livro acompanha a angústia de Nash, que foi para a guerra um jovem ingênuo e encontrou ali uma voz criativa. Quero retratar essa mudança."

Os dois personagens constantes são Nash e um cão negro. Em sua autobiografia, o pintor conta que essa figura é recorrente em seus sonhos desde criança. Uma das diversões dos fãs de McKean é descobrir os inúmeros significados simbólicos do cão nos diferentes capítulos da novela gráfica.

McKean tem no currículo uma aclamada contribuição para a DC Comics, que foi desenhar "Asilo Arkham" (1989), novela gráfica de Batman escrita pelo escocês Grant Morrison, 58.

No entanto, ele revela que abomina o atual momento de inúmeros filmes blockbuster baseados em quadrinhos. Para o desenhista, a perspectiva de fazer muito dinheiro vendendo uma HQ para o cinema acaba afetando a qualidade da obra. "Eu gosto de quadrinho feito para ser quadrinho, nada mais do que isso. É uma arte completa, não precisa ser rascunho para outras."

McKean diz que não pode opinar sobre quem está se dando melhor nessa empreitada, se a DC ou a rival Marvel. "Simplesmente não assisto. Adoro cinema, mas um cinema mais ambicioso, mais criativo. E às vezes eu desisto de ler uma história em quadrinhos quando percebo ser uma obra rasteira, concebida para ser apenas um possível storyboard para um filme."

Serviço

"Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash", de Dave McKean
Editora DarkSide, 120 páginas, R$ 59,90

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