Novos rumos da fotografia diante de sua popularização

No debate entre a vida privada e o narcisismo em excesso das postagens nas redes sociais, a fotografia ganha ainda mais força na contemporaneidade e como documento histórico

Foto vida privada Foto vida privada  - Foto: Priscilla Buhr/ Divulgação

Digital ou analógica, a fotografia fascina cada vez mais entusiastas - profissionais, amadores dedicados ou simples clicadores compulsivos. A qualquer momento, todos podem sacar suas câmeras embutidas no celular para registrar tudo o tempo todo.

E exibir a própria vida, a dos outros, o que quiser, instantaneamente, através das redes sociais. Afora a questão narcísica, graças à tecnologia de equipamentos como máquinas fotográficas, impressoras, papéis e programas de computador, a foto ganhou um status de arte como nunca em sua história de 178 anos, sendo presença constante em museus e galerias e exposições de arte contemporânea.

"Em São Paulo existe há mais de uma década um evento chamado SP-Arte/Foto. As pessoas passaram a perceber mais a fotografia e a fazê-la mais elaborada", avalia a professora Renata Victor, que ministra a disciplina Narrativas contemporâneas da fotografia e do audiovisual, do curso de Fotografia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

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Ela ajudou a fundar a graduação na instituição, em 2010, e acompanhou o crescimento do interesse pela fotografia, que ganhou o primeiro curso superior no Brasil, em 2005. "Houve uma quebra de paradigma: antes só existiam algumas cadeiras de foto em cursos como Publicidade e Jornalismo. Agora temos pós-graduações na área", compara.

Mas mesmo em tempos de pau de selfie, Photoshop e filtros mil, não basta ter a câmera mais cara na mão para conseguir a melhor foto. O olhar de quem está por trás ainda faz a diferença. "Fazer uma foto não é arte. Pode ser apenas um registro", avisa o sociólogo e professor do departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Paulo Marcondes Ferreira Soares.

E há quem diga mais: "Ter câmera na mão não significa necessariamente que se terá uma fotografia. Como disse (o fotógrafo) Sebastião Salgado, imagens não são necessariamente fotos", acredita a fotógrafa Hélia Scheppa, que já trabalhou em jornal, mas ultimamente tem se dedicado aos cliques artísticos, feitos com celular.

Narcisismo
A vida privada, no entanto, Hélia prefere não expor. Diferentemente da colega, Priscilla Buhr, que adora registrar o dia a dia e postar nas redes, assumindo o risco de tornar público o que deveria ser privado. No entanto, chegou uma hora em que a fotógrafa achou que estava se expondo demais.

"Criei uma conta no Instagram em que fotografava tudo. Aí teve um momento em que vi que aquela exposição não agregava nada pessoalmente, nem profissionalmente. Começou a incomodar. Passei seis meses sem postar e depois criei outra conta bem mais sutil. Agora tenho vontade de compartilhar o que estou vivendo desde que fui mãe, de receber carinho. Para o meu filho, criei um Instagram privado para parentes e amigos que moram longe", relata Priscilla.

Focada na autoimagem, no retrato, tanto pessoal quanto profissionalmente, Priscilla declara haver atualmente uma produção de cliques tão massiva que não há tempo de absorver tanto material.

Sociedade atual expressa lado vaidoso com o exagero das selfies

Sociedade atual expressa lado vaidoso com o exagero das selfies - Crédito: Gustavo Glória/Folha de Pernambuco


Paulo Marcondes endossa o momento de voyerismo. "Vivemos uma era da imagem. As pessoas estão publicizando elementos da intimidade com a superexposição sem propósito artístico ou estético", analisa o acadêmico. "Hoje uma criança de cinco anos já manipula um smartphone com tanta agilidade que, em pouco tempo de vida, pode ter produzido mais imagens do que seu avô a vida inteira", compara, ressaltando a sociedade vaidosa em que vivemos.

"O artista da Pop Art Andy Warhol certa vez disse que, no futuro, todo mundo teria seus 15 minutos de fama. A criança nasce e, ainda na mesa de cirurgia, com cordão umbilical, a mãe suada do parto, já está no Facebook. A consagração é a curtida do outro, algo precário, volátil, descartável. Daqui a pouco sua imagem não está mais no topo. E viver se torna um exercício de maratonista.

As pessoas estão dedicando pouco tempo a refletir. Nossa capacidade de armazenar está além da capacidade de fruir", analisa Marcondes. Há poucos dias, o Papa Francisco deixou um apelo aos jovens, que afirmou estarem cada vez mais obcecados com as redes sociais e com a quantidade de ‘curtidas’ que conseguem numa fotografia. "Não deixem, queridos jovens, o brilho da juventude se extinguir na escuridão de uma sala fechada, na qual a única janela para ver o mundo é o computador e o 'smartphone'", concluiu.

Será que de tão preocupados em registrar tudo não estaríamos deixando de viver? Há quem diga que sim. "Já perdi momentos importantes da vida para fazer uma imagem", admite Priscilla. Hélia concorda: "A galera vai a um show, filma e fotografa o tempo todo e deixa de curtir. A vivência é melhor do que ver depois", acredita. Compartilha da mesma opinião o também fotógrafo Gustavo Bettini.

"Tenho uma amiga que fotografa tanto nas férias que quando perguntamos a ela como foram os passeios, ela responde: 'Não sei, ainda não revelei as fotos (risos)". A profusão de cliques da contemporaneidade, segundo o fotógrafo e editor adjunto de Fotografia desta Folha de Pernambuco, Alfeu Tavares, não é um problema.

"Já assisti a peças de teatro em que fotografei do começo ao fim e não acho que perdi nada. Pelo contrário, naquele tempo de duração do espetáculo, estive totalmente integrado a ele porque assisti a peça pelo visor", opina Alfeu.

Ao contrário da maioria dos entrevistados nessa matéria, ele não acredita que fotografar nas férias é perder os momentos. "Estaria perdendo se não fotografasse porque quando coloco o olho no visor, entro em um mundo mágico só meu", acredita.

Memória
Por outro lado, a popularização das câmeras de celular possibilitou a uma pessoa sem uma máquina sofisticada poder tirar uma foto. "Esse material também pode ter fins estéticos ou pode ser um registro com fins importantes como algo que está acontecendo na rua e vira um documento", exemplifica Marcondes. Uma simples foto de uma rua, com o passar do tempo, vira documento histórico.

Por isso, fazem tanto sucesso páginas do Facebook como a "Recife de Antigamente", que exibe em um acervo de cerca de seis mil fotos um resgate histórico do cotidiano vivido por muitos e não visto por outros. O fundador da página e entusiasta da fotografia, o nutricionista Wilton Carvalho, 45 anos, conta que começou o projeto em 2012 para mostrar imagens que coleciona da cidade, do século 19 e do século 20, até a década de 1990.

"Para conseguir as fotos, visitava os museus e procurava por livros que falavam sobre o Recife, e nesses museus algumas fotos eram disponibilizadas. Mas quando comecei a ter acesso à internet, encontrei alguns blogs que tinham fotos antigas e comecei a salvá-las", recorda Wilton.

O retorno do trabalho de duas horas diárias vem em forma de mensagens de agradecimento, compartilhamento de relatos de lembranças. "Pessoas recordam parentes, ruas onde caminhavam, colégios onde estudavam, passeios com pais e avós. É muito legal isso. Outras mensagens são de pessoas pedindo fotos e a gente vai pesquisando e postando. Muita gente também faz comparações entre o antes e o depois e se indignam com a falta de preservação dos antigos monumentos e sobrados", revela Wilton, que admite não mais imprimir fotografias. "Apenas coleciono cartões postais", confessa.

Atualmente, Wilton divide a atualização da página com o engenheiro Tulio Couceiro, 53 anos. O agora amigo possui documentos históricos como a fotografia do avião Concorde que pousou no Recife em outubro de 1985, trazendo a bordo o então presidente da França Fraçois Miterrand, e a primeira descida de um Jumbo, também na década de 1980. Observador atento das modificações urbanas, Tulio escolhe dias e horários específicos para clicar a cidade. "Gosto de fotografar dia de domingo de manhã, ou 1º de janeiro, que não tem ninguém", avisa.

Mas dois tesouros que já divulgou na página do Facebook não são de sua autoria, e sim do seu irmão: a Avenida Rui Barbosa com tráfego em mão dupla, em 1975, e uma cheia atrás do Colégio São Luís. "Foi aquele auê no meio do mundo", recorda Tulio, que também deixou de lado o hábito de materializar o que fotografa.

Guardadas em mídias digitais, as fotos costumam ficar por lá, esquecidas, e possivelmente se perdem com o rápido avanço da tecnologia. Com o registro fotográfico se esvaindo pelo ralo, se vai também a memória. Pensando nisso, muita gente tem feito o caminho contrário e investe em impressões de qualidade - as chamadas FineArt. O fotógrafo Gustavo Bettini possui um ateliê de impressão na Galeria Arte Plural, no Bairro do Recife, há dez anos. De três anos para cá, o espaço que ocupava aumentou de 30 para 130 metros quadrados por causa do crescimento pela procura do serviço de impressão de fotografia em alta qualidade.

Além de maior variedade de cor, existem vários tipos de papel, como algodão, celulose, com brilho, ou impressão em tela. O material mais barato, em um tamanho A4 custa R$ 25 a impressão. A durabilidade pode chegar a 250 anos, dependendo de onde for exposta a foto.

Gustavo Bettini, fotógrafo, mantém ateliê de impressão

Gustavo Bettini, fotógrafo, mantém ateliê de impressão - Crédito: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco


"Agora as pessoas querem opinar sobre tratamento: mais clara, mais contrastada, mais amarelada. Essas pessoas são mais entusiastas. Há também o arquiteto que quer combinar a foto com o ambiente. Há os artistas/fotógrafos que vêm fazer trabalhos para museus. Os que fazem arte no computador. Outros que vêm para fazermos uma reprodução de tela. Podemos emitir certificado de tiragem da obra. Vai assinado pelo artista e pelo impressor. Seguimos todos os cuidados museológicos", garante Bettini. Para Alfeu, enquanto estiver em mídia digital, a fotografia ainda está em processo. "Ela só se concretiza quando vai para o papel", defende ele, que imprime tantas fotos e não tem mais espaço em casa para colocá-las.

Ética
Ainda que a fotografia seja considerada um documento histórico, não acredite piamente nela como um retrato da verdade. "A verdade é de quem faz a foto", diz Hélia Scheppa, que já presenciou um casal brigando em um restaurante e fazendo uma pausa na briga para tirar uma foto sorrindo abraçados e postar. Para Renata Victor, existe uma diferença entre o tratamento de imagem do fotojornalismo e a manipulação, que sempre existiu. "Escolher um ângulo é manipulação.

Mas na questão digital é diferente. Na França, por exemplo, existe uma lei que obriga a colocar ao lado que a foto foi manipulada, como mulheres sem celulite", revela. Para ela, essa falsa realidade é vendida não somente nas revistas, mas também nas redes sociais, onde as pessoas só aparecem bonitas e felizes. Isso gera ansiedade e depressão. "Vejo pelos alunos querendo alcançar um patamar que não existe. Ninguém é feliz 24 horas por dia".

No fotojornalismo a manipulação é bastante comum. Mas nem sempre quer dizer que padrões éticos estão sendo quebrados. Paulo Marcondes lembra o caso do fotógrafo sul-africano Kevin Carte, que clicou uma criança desnutrida com um abutre atrás dela no Sudão, na África, em 1993. O retrato da fome lhe rendeu o Prêmio Pulitzer e muitas críticas por não ter ajudado a criança. Kevin não suportou a pressão e se matou. A criança não morreu de fome.

Quando está trabalhando e se depara com situações extremas, Alfeu prefere fotografar antes e ajudar depois. "A foto eu posso perder e deixar de fazer meu dever de mostrar algo importante ao mundo. Mas posso ser solidário assim que terminar de clicar. No fim das contas, sempre é possível fazer as duas coisas", pondera. 

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