O divisor de águas para Alceu Valença

Cantor lança “Saudade de Pernambuco”, seu álbum perdido gravado na França em 1977 e que se tornou o mais raro de sua carreira

Paulo Rabello realizou ato em frente ao impostômetroPaulo Rabello realizou ato em frente ao impostômetro - Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

Talvez uma das melhores estratégias que Alceu Valença usou ao longo da carreira foi regravar algumas de suas músicas com novas roupagens nos seus discos de inéditas seguintes. Mesmo as canções que não foram sucesso imediato nos seus álbuns de origem hoje caíram na boca do povo graças às recriações que o compositor fez em momentos diferentes. 

Duas delas são “Cana Caiana” e “O Ovo e A Galinha”, que ficaram mais conhecidas pelas versões para os discos “Sol e Chuva”, de 1997, e “Andar Andar”, de 1990, mas o que pouca gente sabe é que as canções são na verdade do disco “Saudade de Pernambuco”, gravado na França em 1977, e que somente agora é lançado pelo cantor, através da Deckdisc. 
O álbum “perdido” de Alceu tornou-se um dos seus trabalhos mais cultuados não só por ser raridade, mas também por ser considerado um divisor de águas na carreira do pernambucano, estreitando os laços da sua obra com as influências nordestinas do aboio, baião, xote e coco.

Isso porque apesar de ter sido bem recebido pela crítica por conta da linguagem rock para a regionalidade dos seus três primeiros discos, lançados pela Som Livre na década de 1970, o pernambucano passou a ter problemas com a gravadora pelas baixas vendas.

Após a saída do selo, o cantor foi tentar contrato em outras gravadoras. Da Polygram, ouviu como resposta: “a cota de malucos já estava completa, já temos o Raul Seixas”.
“Fiquei sem gravadora. Aí pensei em dar um tempo para a minha cabeça, porque o regime ditatorial me chocava.

Me despedi com um show chamado “Alceu em noite de au revoir” e me mandei pra França. Comecei a desenvolver minha carreira lá fazendo muitos festivais, mas aí bateu uma saudade de Pernambuco, de Olinda, da Família, de tudo, uma coisa de doido”, relembra o compositor, natural de São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco.

E assim Alceu entrou nos estúdios franceses acompanhado de Paulo Rafael, na viola, Zé da Flauta, na flauta, e Fernando Falcão, na percussão, além de mais alguns convidados improvisados. “Se demora mais um pouco pego um avião, vou comer sarapatel, carne de charque com feijão. Quando lembro do Recife dá uma dor no coração. Sanfona do Sivuca, do chefão pra conversar”, diz a faixa de abertura homônima de “Saudade de Pernambuco”, que acabou se tornando um dos álbuns mais intimistas do compositor, trazendo arranjos mais enxutos e letras cheias de nostalgia, como “Por Toda Lã”, que depois também foi gravada pelo grupo MPB4.
“Era o que eu queria falar naquele momento. Eu queria dizer o que eu trazia no meu matulão, que eram as minhas influências primais: as referências do Sertão e Agreste, depois do Recife e depois do Brasil africano e ameríndio”, observou Alceu, que voltou para o Brasil mais inspirado logo após finalizar o trabalho.

Paradoxalmente, a distância, na verdade, aproximou o músico ainda mais de suas raízes, tornando a saudade um elemento fundamental para explorar a fundo a identidade nordestina, que ganhou tons mais fortes a partir de “Coração Bobo”, de 1980, quando enfim Alceu ganhou as paradas. O disco foi lançado pela Ariola, que o contratou logo após sua participação no Festival da Canção de 1978, ao lado de Jackson do Pandeiro.
Trabalho completo
Engolido pelo sucesso do cantor na década de 1980, “Saudade de Pernambuco” acabou ficando em segundo plano na época. Tanto que todo o seu material chegou a ser dado por perdido, até que em meados da década de 1990, um técnico de som da Rádio Transamérica ligou para Alceu avisando que havia encontrado as fitas originais do disco, que chegou a ser comercialiado em 1998 em uma edição especial do extinto jornal paulistano A Tarde.
O que faltava para Alceu lançar o material oficialmente era a capa, que traz um registro do músico trajado à moda sertaneja no Jardin de Luxemburg. “Um ano atrás, a filha de um amigo me disse que tinha achado as fotos que fiz para o disco, aí eu pensei: agora esse disco tem que sair”, comentou o artista, que diz só divulgar seus trabalhos quando considera que o projeto está completo.
“Quando cheguei na França, o presidente da CBS (hoje Sony) na Europa queria que eu gravasse um compacto de “O Canto da Ema”, de Jackson do Pandeiro. Eu disse que não ia gravar ela sozinha, porque Gil já havia feito, mas disse topava fazer um LP. Disco para mim é como cinema, tem que ter roteiro”, resume Alceu.
Relançamentos
“Saudades de Pernambuco” chega às prateleiras remasterizado com os relançamentos de “Molhado de Suor”, “Espelho Cristalino” e “Vivo!”. Esse último também ganhou reedição em DVD, cuja gravação ao vivo ocorreu no Teatro de Santa Isabel, no primeiro semestre deste ano. Os discos estão disponíveis nas plataformas digitais e ainda em CD e Vinil.

 

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