O impacto emocional da performance no novo trabalho de Carol Azevedo

Pernambucana lança novo projeto nesta quinta-feira (16), no espaço Saracura, no Rio de Janeiro

“[A performance] é uma linguagem pela qual sempre me interessei”“[A performance] é uma linguagem pela qual sempre me interessei” - Foto: Divulgação

Um casamento tem momentos de calmaria e de tempestade. Alguns são como um céu de brigadeiro por anos a fio; outros têm a rotina de um furacão. Em uma sociedade machista, o peso da união pode começar ainda na cerimônia matrimonial, representado pelo vestido. Três quilos de brocados e uma cauda enorme. “Imagina a noiva que usou isso. Nem se mexia!”, declara Carol Azevedo, conhecida pelo público recifense por suas criações como estilista e figurinista. Intrigada com o peso físico do vestido e emocional do casamento, Carol será abafada pela roupa, assim como muitas vezes o matrimônio amordaça a mulher. Nua, deitada, o belo e sufocante vestido será colocado sobre ela, se movimentando como se tivesse vontade própria e exercesse relação de poder sobre a pobre noiva, que o público nem vê. Quem se importa, afinal? O importante é a beleza do vestido.

Mas em certo momento a mulher não aguenta mais, quer colocar para fora toda a carga simbólica do feminino: louças, calcinhas, sutiãs, roupas de bebê, mamadeiras... Essa é uma das performances que Carol pretende fazer em breve, desde que se jogou, de corpo e alma, literalmente, na arte da performance. Radicada na capital carioca há dois anos, a artista buscou expressar o sentimento decorrente da mudança de cidade, do deslocamento, que é físico e principalmente emocional. Nesse momento, uma espécie de crise a fez repensar a vida profissional, e os 22 anos como bailarina clássica e contemporânea foram um estímulo.

A performance não era nenhuma estranha para ela, que já foi convidada a participar de trabalhos para o grupo coletivo de artes visuais Carga e Descarga, para o Grupo Experimental e para a Companhia dos Homens, nos anos 1990, e recentemente participou de uma obra do artista pernambucano Márcio Almeida. “É uma linguagem pela qual sempre me interessei”, diz. Mas a ideia de performance como algo autoral só chegou a Carol quando ela foi convidada a participar do espetáculo “Visões Contemporâneas do Recife”, em 2003, com o dinamarquês Peter Dietz e mais quatro bailarinos, como Maria Paula Costa Rêgo e Cláudio Lacerda. “Peter abriu minha cabeça para o que eu achei mais performance do que dança, porque ele não trabalha com coreografia”, diz.

Daí partiu um convite de Peter para seguir em frente: ir a Lisboa, em Portugal, ingressar no grupo Centro em Movimento (http:// www.c-e-m.org/), voltado ao estudo da performance. Naquele momento, ela não pôde aceitar. “Mas, anos depois, com a mudança para o Rio e a crise profissional, comecei a procurar o contato de Peter na internet e encontrei. Coincidentemente, eles estavam com edital aberto para a Formação Intensiva Acompanhada (FIA). Fiz a inscrição e passei sete meses em Lisboa, imersa na prática autoral da performance, diariamente, das 11h às 17h”, relembra Carol. No espaço experimental do local ela apresentou “About Her” e “Beco do Encarnado”. “Foi interessante porque tive um retorno legal. Desde então, não parei mais”, diz.

Quando voltou para o Rio de Janeiro, Carol começou a criar fotoperformances, em que trata do feminismo, do casamento, do ambiente doméstico e da natureza, fotografando a si mesma. Em entrevista à Folha de Pernambuco, ela contou um pouco do seu processo de inspiração. “Olho para o objeto, construo uma cena e me autofotografo, pois consigo investigar a arte em mim”, revela. Muitos desses cliques acontecem no ambiente privado da casa da artista, que começa aos poucos a encarar áreas externas, como quando se amarra a uma árvore, envolta por uma espécie de tule. Ano passado, em um espaço carioca multiartístico chamado Solar dos Abacaxis, a artista exibiu em vídeo a obra “Descamada”, dentro do evento “Esforços#4”, em que a performance foi tratada a partir de várias óticas, como teatro e música.

A descamação de Carol retirou de si um amargor seu e dos outros. Costurada em um colchão com uma meia-calça nude, a artista quer fazer entender que costurou a própria pele, da qual se despe como uma cobra. “O colchão é para mim um lugar simbólico, pois está presente no casamento, no hospital; é também a morada dos sem-teto... Quando me desligo dele é como me transformasse”, explica. Esse trabalho dialoga com a primeira coletiva da artista, que será apresentada no espaço Saracura, também no Rio, dia 16 de fevereiro, numa série de oito fotografias chamada “Dormitório Público”. “São de colchões que encontrei pelas ruas durante cinco meses”, adianta.

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