O livro aberto de Gerald Thomas

Diretor e dramaturgo não foge das polêmicas em autobiografia, lançada pela editora Record

Paulo Rabello de Castro durante ato contra aumento de impostos nesta sexta-feiraPaulo Rabello de Castro durante ato contra aumento de impostos nesta sexta-feira - Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

 

O diretor e dramaturgo Gerald Thomas acostumou-se a ser humilhado em público, algo que ele conta tão melancólica quanto ironicamente em "Gerald Thomas - Entre Duas Fileiras", autobiografia lançada agora pela Record. Houve o episódio da bunda - que ele mostrou após as vaias na estreia de sua versão para "Tristão e Isolda", de Wagner, no Municipal do Rio de Janeiro.

Houve a mão boba sob o vestido de Nicole Bahls em 2013: filmado pelo "Pânico na Band", o episódio varreu as redes sociais e pegou mal entre feministas. O hábito da exposição criou um velho artista calejado, que declaradamente não se importa mais com o bullying e a defenestração moral. Sua infelicidade, hoje, vem de "uma perspectiva diferente", diz nas primeiras páginas do livro que levou cerca de onze anos para escrever: "Minha profissão está morta", crava o artista, ao falar sobre o teatro experimental.
Pode soar dramático, e quem sabe o seja literalmente. Thomas sabe como teatralizar momentos de vertigem da vida privada -não apenas da sua. Em "The Flash and the Crash Days" (1991), por exemplo, criou com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres uma cena em que mãe e filha compartilharam a masturbação.

Momento emblemático na carreira deste que é considerado um dos maiores encenadores do país, o famoso quadro das Fernandas tem sua relevância registrada no livro, mas não sem um contraponto: "Que cena horrível, Gerald. Aquela cena da masturbação entre mãe e filha", criticou Ellen Stewart, a diretora do La MaMa, onde Thomas trabalhou. Ele mesmo relembra a situação no texto.
Absolutamente crítico ao movimento "Procure Saber", que combateu a livre apuração de biografias, Thomas passa a imagem de ser hoje o artista com mais propriedade para dizer "minha vida é um livro aberto". Conta, por exemplo, que ainda na adolescência se relacionou com Hélio Oiticica, o que já havia descrito em entrevistas e textos de jornais. Sem muito pudor, retoma as situações em que consentiu o sexo, mesmo na ausência de libido.
As redes sociais têm sido um campo de expressão frequente. Nos últimos dias, intercalou comentários sobre tentativa de suicídio e vídeos em que aparece na academia, a regata revelando músculos incomuns aos homens de 62 anos. Se sai do drama e cai na comédia, o faz com facilidade. Diz em entrevista por skype, de Nova York, onde mora, que se sente deprimido e solitário. Depois descreve uma amiga que fala pelos cotovelos. Cômico, interpreta a si próprio nos momentos em que, com ela tagarelando ao telefone, afasta o aparelho do ouvido.
Ao olhar sua carreira em retrospecto, considera que os últimos espetáculos realmente bons foram "Ventriloquist" (1999) e "Um Circo de Rins e Fígado" (2005). "Fiz um monte de peças, mas não consegui acertar o alvo dessa forma". E, ainda assim, não é recomendável acreditar que a vida de Thomas seja um livro tão aberto assim. Ele assume que sabe ser perverso. E classifica o ato da escrita como algo escatológico -"para mim é como mijar"- o que decerto soa bem para expressar a face de alguém que não tem nenhum filtro.
"Entre Duas Fileiras", porém, não vai muito fundo nos bastidores das criações de Thomas em sua terra natal. Focado na carreira fora do país, não saberemos muito sobre a relação de Thomas com os atores Bete Coelho e Luiz Damasceno, entre outros artista que compartilharam o palco com ele.
Por que não, Gerald? Ele explica que a Companhia de Ópera Seca e outras criações no Brasil são parte de uma longa estrada. "A Ópera Seca, para quem é brasileiro e me acompanha, pode ser muito importante. Mas será que ela foi importante para mim? Foi um período muito pequeno na minha vida", diz.

 

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