O punk como salvação para João Gordo

Mais do que uma biografia, o livro “Viva La Vida Tosca”, sobre João Gordo, traça um panorama musical dos anos 1980 e 1990

“É um livro sobretudo sobre superação”, diz cantor e apresentador que relembra passagens de sua vida, sem censura nem meias-palavras“É um livro sobretudo sobre superação”, diz cantor e apresentador que relembra passagens de sua vida, sem censura nem meias-palavras - Foto: Avener Prado/Folhapress

 

“Você quer cantar com a gente no show?”. Assim começou o episódio mais marcante da vida de João Gordo, ao ser interrogado pelos quatro Ramones em maio de 1991, o tornando uma exceção na trajetória da banda, que não costumava dividir o palco com convidados. Tudo porque o Ratos de Porão, grupo no qual João Gordo é vocalista até hoje, havia gravado uma versão de “Commando” no disco “Anarkophobia” e chamou a atenção da produção do evento, que convidou os paulistanos para abrir as três apresentações do quarteto norte-americano em São Paulo.

O relato sobre os dias de shows traz algumas curiosidades surreais, como o “baculejo” feito nos Ramones pela polícia, que sequer suspeitava se tratar de um grupo famoso, mas deixa a desejar nos detalhes. Embora tenha sido anunciada como uma autobiografia, “Viva La Vida Tosca”, onde está o relato, é um livro de memórias do cantor e apresentador de TV, que reprisa sem censura toda a sua vida, mas não relembra de tudo rigorosamente. O material foi escrito em parceria com o amigo e jornalista André Barcinski.

“Não vou ficar com ‘não me toques’. Eu não sou tão politicamente correto assim porque isso já virou politicamente hipócrita. Muita gente pode ver preconceito, mas é a maneira como se fala por aqui, são as gírias de São Paulo. Só mudei o nome de algumas pessoas que pudessem possivelmente se sentir ofendidas”, explicou João Gordo, em entrevista à Folha de Pernambuco.

A importância do encontro com os Ramones no palco é embasada desde o começo do livro. De origem humilde, João Francisco Benedan, como foi batizado, foi criado em uma família desestruturada, principalmente por conta do pai opressor. Militar de práticas agressivas, o patriarca exigia obediência a uma expectativa de comportamento que o filho não podia e nem queria atender.

Embora fosse punido por gostar de coisas reprovadas pelo pai, Gordo se aproximava cada vez mais dessa zona proibida. Foi o caso da sua adesão ao punk. Além de ter servido como ferramenta de escape, a música também foi o espaço no qual o artista deixou de ser o gordinho excluído para se tornar uma figura respeitada. “Os Ramones mudaram a minha vida. Eu comecei a ser punk por causa deles”, diz ele no livro.

Embora também tenha oferecido riscos, a aproximação de João Gordo ao punk é várias vezes apontada como sua salvação por ter lhe garantido uma identidade e motivação profissional à frente do Ratos de Porão, que ao longo dos anos foram mudando a sua linha musical, investindo em outros segmentos, como o metal.

“É um livro sobretudo sobre superação. A história de um gordão de 190 quilos que casou e virou um cara normal. Eu tinha tudo pra morrer, mas não morri. Mas normal mesmo eu nunca vou ser, passei a ter responsabilidades que me levaram a ser correto”, explicou Gordo, que atualmente tem 52 anos e dois filhos.

Mas, para além de um exemplo de superação, o livro é interessante principalmente porque revela bastidores da música dos anos de 1980 e 1990, dentre eles a passagem do Nirvana pelo Brasil. A convivência de João Gordo com o trio de Seattle é a parte mais mítica da publicação, na qual relembra o péssimo show do grupo no festival Hollywood Rock, no Morumbi, em 1993.

Horas antes de subir ao palco, Kurt Cobain soube por Gordo sobre a ligação do nome do evento a uma marca de cigarros e teria ficado revoltado com proposta midiática do evento. “Muita gente, inclusive a banda, achou aquela uma das piores apresentações da carreira do Nirvana. E acho que boa parte disso é culpa minha. Falei tão mal do festival que os caras entraram para zoar tudo”, comentou no livro.

Embora estivesse no auge do seu consumo de drogas, Gordo também ficou impressionado com a “sede” de Cobain. “Vinha aquele prato de ‘tecão’ e ele mandava nas duas narinas. Nunca vi nada igual”, disse. Toda a experiência, além da própria personalidade sa­gaz, levou o Gordo a enveredar pelo lado da comunicação.

Veio o talk show na MTV, que popularizou ainda mais seu nome. “Lógico que eu voltaria a fazer televisão, mas precisa ser uma coisa de que eu goste. Não adianta ter grande salário e não curtir como aconteceu na Record. Eu tinha vergonha”, conclui. Ele atualmente apresenta o programa “Panelaço”, no YouTube.

 

Veja também

Anitta, Lázaro Ramos, Belutti e outros famosos revelam seus favoritos no BBB 21
Big Brother Brasil

Anitta, Lázaro Ramos e outros famosos revelam seus favoritos

Semper Volt propõe uma viagem sideral com a estreia do clipe "Arrepiou"
Música

Semper Volt propõe uma viagem sideral com a estreia do clipe "Arrepiou"