Os desafios para se tornar palhaço profissional no Recife

Enne Marx e Nara Menezes organizam o festival Palhaçaria, que se encerra neste domingo (17) e comentam sobre a formação de clown

Ensaio da Cia AnimèeEnsaio da Cia Animèe - Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Carregada de simbolismos, a figura do palhaço desperta um misto de fascínio e curiosidade nas pessoas e, por isso mesmo, costuma ser bastante explorada em diversas mídias. Dois filmes lançados recentemente mostram visões bem diferentes da imagem serelepe e ingênua tradicionalmente atribuída a essa persona.

Longe da ficção, no entanto, a maioria dos artistas deste segmento não tem nada a ver com o apresentador infantil viciado em drogas interpretado por Vladimir Brichta, em "Bingo - O rei das manhãs", ou com o macabro Pennywise, terror das criancinhas de "It - A coisa". Apaixonados pelo que fazem, esses profissionais não medem esforços, investindo tempo e recursos, para manter viva uma arte milenar e encantadora.

No Recife, há vários artistas que encaram com total seriedade essa brincadeira. A Cia. Animée, comandada por Enne Marx (palhaça Mary En) e Nara Menezes (palhaça Aurhelia), é um exemplo disso.

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A companhia existe desde 2007 e, além de rodar o Brasil com seus espetáculos, é responsável pelo PalhaçAria - Festival Internacional de Palhaças do Recife, evento que destaca a participação feminina no ofício da palhaçaria, cuja terceira edição chega ao fim neste domingo (17).

"Existe, preconceituosamente, a visão de que a palhaçaria é um segmento menor dentro das artes cênicas. Mas isso vem mudando muito, graças ao trabalho de formação de público dos festivais e de grupos que prezam pela qualidade em suas produções", afirma Enne.

Apesar de todo o interesse em torno da profissão, é difícil encontrar espaços de formação para quem quer ser iniciado no mundo da palhaçaria. Os cursos na capital pernambucana são esporádicos e de curta duração. No Recife, uma das raras oportunidades tem início neste domingo, no Espaço Cênicas, bairro do Recife.

Enne Marx, a palhaça Mary Enn, e Nara Menezes, a palhaça Aurhelia

Enne Marx, a palhaça Mary Enn, e Nara Menezes, a palhaça Aurhelia - Crédito: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco


Até o dia 15 de outubro, o ator Rafael Barreiros (palhaço Dom Gentileza) ministra 48 horas de aulas voltadas para a iniciação ao clown. Ao longo do ano, o instrutor costuma trabalhar com turmas direcionadas a projetos de extensão de algumas instituições. O público é, portanto, formado por profissionais de áreas diversas.

"Descobrir o seu palhaço interior não é bom apenas para quem é artista. Já atendi de advogados a programadores do Vale do Silício, que aprendem a lidar com o autoconhecimento, através da construção dessa figura brincante", explica. Informações: 99609-3838.

Clown ou palhaço?

Embora as palavras clown e palhaço tenham, em português, o mesmo significado, os dois termos estão ligados a escolas de pensamento diferentes. "Existem caminhos metodológicos diferentes, mas que resultam em um mesmo produto estético", diz Rafael.

Para Nara Menezes, o bufão dos circos tradicionais e os palhaços contemporâneos guardam a mesma essência. "A raiz é a mesma. Todos bebem de uma só fonte inesgotável, que é o circo e as figuras clássicas do cinema, como Chaplin e Os Três Patetas. O que muda é a dramaturgia. Há um interesse, cada vez maior, de colocar nos números questões reais, mais ligadas à política e ao social", aponta.

Na opinião de Caio Marinho, integrante do grupo paulista A Próxima Companhia, a palhaçaria nacional precisa direcionar seu olhar para métodos que fujam da tradição europeia.

"Ficamos muito restritos a perpetuar o que vem de fora. Faltam pesquisas sobre o palhaço brasileiro. No Nordeste, por exemplo, há os brincantes do Cavalo Marinho, da Folia de Reis e de outras manifestações populares, que também são palhaços, mas não recebem tanta atenção", alerta.

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