Os limites entre realidade e fantasia

O autor de “Reparação” e “Amsterdã” (Booker Prize em 1998), disse que a dificuldade de apresentar o mundo real na ficção está na visão

RebanhoRebanho - Foto: Ivve Rodrigues/Arquivo Folha

 

O escritor britânico Ian McEwan gaba-se de ter “a lava-louça mais vazia do mundo”. Ele se dedica à pilha de pratos sempre que encara um bloqueio criativo -termo que ele não gosta de usar; prefere chamar de hesitação, “saudável” para um escritor. Mas cenas comezinhas assim não devem aparecer em sua obra: o realismo na literatura exige uma espécie de névoa. “Não quero ser pro­saico, [escrever que] o personagem entra no carro, dirige, entra no prédio...”, afirmou, durante sua fala no ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, na semana passada, no instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
O autor de “Reparação” e “Amsterdã” (Booker Prize em 1998), disse à mediadora, Fernanda Mena, repórter especial da Folha de S.Paulo, que a dificuldade de apresentar o mundo real na ficção está na visão. “Somos criaturas visuais, e a chave para uma cena real, impactante, é conseguir os detalhes visuais certos.”Detalhes que requerem pesquisa. Para escrever “Sábado”, romance de 2005 no qual o principal personagem é um neurocirurgião, passou dois anos acompanhando um médico neurologista.

Apesar disso, o romance lhe valeu uma carta de um médico, dizendo que certo procedimento, no livro feito com um pincel, só poderia ser realizado com esponja. “Correções são bem-vindas”; “o realismo tem uma dívida com a verdade”. Ainda as­sim, ele se diverte ao questio­nar o fato de “ninguém escre­ver a Kafka dizendo que pessoas não viram besouros”.

Uma obra em que um ho­mem acorda como um inseto invade o terreno de fantasia – o mesmo que permite a um feto narrar uma história de dentro do ventre da mãe, como em “Enclausurado”, mais recente romance de McEwan, nascido da convivência do escritor com sua nora grávida de oito meses. Eles falavam sobre maternidade quando o autor pensou que o bebê ali dentro poderia estar ouvindo. O leitor precisa ceder à fantasia: “Se não aceitar que um feto fale, não passa da primeira página”.

 

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