Drama

Os motivos que fazem 'I May Destroy You' a série do ano

A obra é uma co-produção britânica entre a BBC e HBO, criada, escrita, co-dirigida e interpretada por Michaela Coel

A série conta a história de uma escritora londrina de ascendência ganesa famosa no TwitterA série conta a história de uma escritora londrina de ascendência ganesa famosa no Twitter - Foto: Divulgação

Na última década, séries dramáticas estão demarcando um espaço nas grades televisivas e nos painéis do streaming em um território perdido para as grandes produções de comédia que marcaram os anos 2000. “This is Us”, “Leftlovers”, “O Conto de Aia”, “Atlanta” e “Insecure” são alguns exemplos de refinamento de roteiro, atuação e direção em temáticas que passeiam por relacionamentos familiares contemporâneos, gênero, racismo e políticas de Estado. Aposta da vez é “I May Destroy You”, uma co-produção britânica entre a BBC e HBO, conhecida por arrematar os principais prêmios televisivos dos últimos anos. Criada, escrita, co-dirigida e interpretada por Michaela Coel (Ex-Chewing Gum), a produção é considerada um dos melhores seriados de 2020 e deve concorrer às principais categorias das premiações de 2021.

A  jornada é uma espécie de produção semi-autobiográfica. A série britânica conta a história de Arabella (Coel), uma escritora londrina de ascendência ganesa famosa no Twitter, a qual é adorada pela geração millennial. No processo de escrita do seu segundo livro, ela vai a uma festa com amigos, em que acaba sendo drogada e abusada sexualmente. A narrativa vira a chave a partir da percepção de Bella sobre o estupro, em uma tentativa de resgatar suas memórias para construir o que ocorreu naquela noite na balada. Esses registros, com lapsos de memórias, são confusos, e sem saber o que aconteceu, a personagem passa etapas de trauma, sendo acompanhada por dois amigos: a atriz Terry Pratchard (Weruche Opia) e Kwame (Paapa Essiedu). Este segundo personagem é estuprado em um encontro feito pelo aplicativo “Grindr”, em um momento que a série se mostra a propor uma discussão sobre violência e permissão sexual.



Sem pragmatismo em relação ao assunto, Coel faz uma imersão de maneira contextualizada, contemporânea e sem filtros. Chegando ao Brasil no último dia 12 de maio, “I May Destroy You” estreou em um momento em que o mundo ferve em discussões - com manifestações antirracistas e uma pandemia sem previsão de término. Nesse sentido, o seriado vai levando o telespectador de maneira natural, às vezes com humor, sobre consentimento e assédio sexual, com um roteiro que brinca e recebe brilho também de uma trilha sonora cadenciando os momentos de drama e humor. Inclusive, o texto é um dos pontos mais elogiados pela crítica em relação à produção. Assinado pela própria Coel, não economiza em diálogos ácidos, rápidos e inteligentes sobre os problemas enfrentados pelo arco principal de seus personagens.

A abordagem sobre abuso sexual é até uma narrativa pessoal para Michaela, já que a própria vivenciou esse tipo de violência na 'vida real'- o que imprime na personagem um autorretrato. Além de abordar abuso, a série também fala racismo, já que faz uma imersão na história de protagonistas descendentes de ganeses em Londres, na Inglaterra. Em uma trama minuciosa sobre o tema, o racismo surge de maneira mais evidente no sexto episódio da primeira temporada, em que eles se reúnem para combater uma mentira provocada por uma jovem branca. Nesse caso, a própria atitude de Coel demonstra uma postura ativa, ao mesmo tempo sensível, desse jovens negros no combate ao racismo na terra da rainha.

Direitos à própria narrativa

Michaela Coel é, talvez, um dos maiores talentos que surgiram nos últimos anos na televisão mundial. Vencedora de prêmios importantes por seu papel em Chewing Gum (Netflix), a multi-artista tem se desdobrado em desenvolver projetos elogiados em crítica e audiência, únicas e que expressam suas próprias vivências. Embora tenha êxito sobre esses papéis, a artista recebeu uma proposta considerada baixa pelo mercado por uma das executivas da Netflix para a produção de “I May Destroy You”. “Houve apenas um silêncio no telefone. E ela disse: ‘Não é assim que fazemos as coisas aqui. Ninguém faz isso, não é grande coisa.’ Eu disse: ‘Se não é grande coisa, então eu realmente gostaria de ter 5% dos meus direitos”, disse a atriz e criadora à Vulture.

Após a rejeição da plataforma de streaming estadunidense, Coel fez um acordo com a BBC para a produção, que tem co-produção da HBO, e ela tem participação direta nos direitos autorais da série. Hoje, o seriado pode ser acompanhado na HBO Brasil ou no aplicativo HBO Go, com 12 episódios na primeira temporada. “I May Destroy You” consegue traduzir os comportamentos da geração millennial de forma crítica, mas sem ser brega, com personagens complexos, naturais e emblemáticas que percorrem além da dualidade de gênero e raça. E, isso tudo, sem ser didática ou pedante, levando ao telespectador minuciosas características que já são presentes nas tramas anteriores de Michaela Coel.

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