Outra forma de encarar a arte

Festival Arte na Usina, na Zona da Mata Sul do Estado, enxerga a cultura de modo sustentável e recebe artistas de todo o Brasil

Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre e tradutor. Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre e tradutor.  - Foto: Divulgação

 

Acultura popular da Zona da Mata Sul de Pernambuco tem desaparecido a cada dia, muitas vezes por disputas políticas. Quando determinada tradição folclórica cai nas mãos de um gestor público com a finalidade de apadrinhar o folguedo financeiramente, e acaba por ficar ligada àquele governo, e não à secretaria de Cultura, ao final do mandato, o apoio é retirado e a manifestação cultural se retira junto. E assim seguem para o limbo as tradições culturais de uma região que, se não forem transmitidas ao longo de gerações, desaparecerão para sempre. Buscando interiorizar a cultura e ainda incentivar a criação e o desenvolvimento artístico fora da metrópole e de forma independente da política vigente, surgiu o Festival Arte na Usina, que realiza sua segunda edição de 11 a 20 de novembro.
O evento ocorre nas dependências da Usina Santa Terezinha, desativada há 15 anos, e atinge tanto os cerca de cinco mil moradores do distrito da usina, como as cidades próximas da Zona da Mata Sul do Estado, como Água Preta e Xexéu. São 25 oficinas gratuitas, shows, performances, mesas de discussão, exibição de filmes, palestras e exposições. “Mais difícil de encontrar por aqui é a cultura de raiz. Contamos que com a oficina do Helder Vasconcelos (músico, ator, dançarino e um dos fundadores do grupo Mestre Ambrósio), vamos conseguir fazer com que essas pessoas da cultura reapareçam no cenário, independentemente de questões políticas”, declara Bruna Pessoa de Queiroz, uma das idealizadoras do projeto.
E o visitante recifense e de outras capitais nordestinas também são bem-vindos. Na programação, nomes importantes do cenário local e nacional, como o estilista Ronaldo Fraga, a poeta Alice Ruiz, os artistas plásticos Laura Vinci e Hugo França, o cantor Silvério Pessoa, o cordelista Adiel Luna, e o grupo Sagrama. As inscrições para as oficinas já estão abertas e podem ser feitas através do site www.usinadearte.org. As vagas são limitadas. No site também é possível conferir a programação dos shows, que é gratuita, assim como as oficinas. O endereço eletrônico também disponibiliza as opções de hospedagem. São leitos e casas no estilo pousada domiciliar, para entrar no clima de vila. Há ainda a alternativa de acampar no terreno da propriedade, pertencente a outro idealizador do projeto, Ricardo Pessoa de Queiroz. Para chegar existe um ônibus do evento que sairá do setor de empresariais do Shopping RioMar diariamente, às 7h30, com retorno às 23h.
O festival, no entanto, é apenas o ponto alto de uma série de ações que visam transformar a comunidade do entorno da antiga usina através da arte. A ideia é criar uma galeria a céu aberto, com obras sensoriais, e abrir um edital público para residência artística, além de escola de música para crianças de até 16 anos. A escola já está funcionando e atendendo 53 alunos da comunidade, que têm aulas teóricas e práticas de violão, violino, violoncelo, viola clássica e flauta, três vezes por semana. Já os adultos tiveram, ao longo do ano, oficinas de curta-metragem, e da edição anterior para cá ocorreu uma residência do artista Carlos Mélo. “Depois do festival, vamos fazer um censo, com a ajuda do Sebrae, para entender o que é a matéria de trabalho da região e, a partir daí, transformar o entorno a partir da criação artística, seja ela popular ou erudita, e do empreendedorismo. Pensamos mais no contato com a população do que na obra em si”, declara o artista paraibano José Rufino, curador do espaço.
Nesta edição, os artistas convidados a criarem obras de grande porte na propriedade da antiga usina são Márcio Almeida, Paulo Bruscky, Marcelo Silveira e Paulo Meira. “É uma construção/intervenção social. Nossa proposta é que as obras saiam do plano apenas individual. Essa matéria tem que ter possibilidade de transformação para que os moradores se integrem ao projeto. Na residência de Carlos Mélo, por exemplo, uma costureira local executou todo o figurino de sua obra. E José Rufino utilizou mão de obra local para fazer as peças”, conta Bruna.
Um jardim botânico projetado pelo especialista Eduardo Gonçalves, o mesmo que projetou Inhotim (MG), já está sendo cultivado com o objetivo de se tornar um equipamento científico de educação entremeado por obras de arte. Em cinco anos será possível conferir 29 hectares com 35 mil plantas de grande porte e 500 espécies diferentes. “A arte convivendo com a natureza, ao ar livre, não precisa de desumidificador, nem de ar condicionado. É mais sustentável”, defende Ricardo.

 

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