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Para além do gospel: artistas da música cristã inovam na maneira de louvar

Novos representantes da música de origem evangélica buscam manifestações mais ligadas a necessidades reais do público e que dialoguem com a cultura brasileira de fato

Marcos Almeida, músico mineiroMarcos Almeida, músico mineiro - Foto: Daniel Brito/Divulgação

O crescimento do número de evangélicos no Brasil - que hoje já chega a 31% da população, segundo pesquisa do Datafolha - colocou em evidência todo um nicho cultural voltado para o segmento religioso. Assim como o perfil dos fiéis se diversifica, as canções consumidas por esse grupo também passam por mudanças, na tentativa de conquistar novos públicos ou se desprender de antigos rótulos. Para além da difundida cena gospel, que importa muitos elementos estrangeiros em sua estética, há músicos interessados em criar um novo caminho para a música de raiz cristã, mais conectada com elementos da cultura brasileira.

"Não acredito que exista uma música gospel no Brasil", afirma o músico mineiro Marcos Almeida. A negação do ex-vocalista da banda Palavrantinga, que, desde 2014, segue em carreira solo, faz sentido. No Brasil, o termo originado de um tipo de canto religioso das comunidades negras dos Estados Unidos é comumente utilizado para denominar qualquer canção com conteúdo cristão. Sendo assim, a classificação é capaz de abranger os mais variados ritmos existentes, sem configurar como um gênero musical específico.

O fato é que, pelo menos enquanto cena cultural, o gospel brasileiro existe e possui muita força. De acordo com o levantamento da Associação de Empresas e Profissionais Evangélicos (Abrepe), é um mercado que movimenta R$ 21,5 bilhões por ano. Os números vultosos vêm chamando a atenção de gravadoras e de serviços de streaming como o Deezer. A empresa francesa começou a investir mais no segmento, após verificar que ele era o segundo mais ouvido em sua plataforma, ficando atrás apenas do sertanejo.

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Ao longo das últimas décadas, o cenário gospel passou por diferentes transformações. Após a consagração de nomes como Ana Paula Valadão, Aline Barros e Fernanda Brum, novos ícones musicais vêm caindo no gosto do público mais jovem. Priscilla Alcântara, ex-apresentadora infantil, representa bem essa modernização. Com milhares de seguidores em suas redes sociais, músicas com tom motivacional (que nem sempre fala diretamente de Deus), amiga de celebridades e visual tatuado, a cantora consegue fazer sucesso entre quem não é necessariamente evangélico também. O vídeo da música "Girassol" (parceria com o humorista Whindersson Nunes), por exemplo, conta com mais de 12 milhões de visualizações no YouTube.

Mistura de ritmos

Para Marcos Almeida, o rótulo gospel não se encaixa no tipo de som que ele faz. O músico, que transita por gêneros como MPB, rock e folk, classifica sua música apenas como brasileira. "Vejo uma grande limitação no gospel do Brasil. Como é uma cena dependente do que acontece lá fora nos Estados Unidos, ela é subserviente. Os artistas não têm liberdade para fazer uma música brasileira dentro do cenário evangélico, porque isso soaria muito extraterrestre", comenta.

No ano passado, Marcos lançou seu segundo disco solo. Em "Lá de Casa (Lado A)", as canções transmitem mensagem otimistas, falando sobre amizade, sonhos e alegrias, mas sem apologia de cunho religiosa. Uma das músicas, "Que onda", foi composta em parceria com Paulo Nazareth e a cantora Baby do Brasil. "O meu desejo é fazer uma música existencialista, que trabalhe os temas mais importantes da vida, cantando de um jeito que a gente gosta de ouvir", diz. O mineiro tem show marcado no Recife. Ele apresentará o novo trabalho no dia 21 de março, a partir das 21h, no Centro Cultural Cais do Sertão.

Nordestinos e com orgulho

A sensação de que o tal mercado gospel não contemplava a música produzida no Nordeste foi um dos impulsionadores do Coletivo Candiero. Criado no início do ano passado, o projeto agrega 13 nomes da cena musical cristã nordestina, com representantes da Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Bahia e Pernambuco. "Por muitos anos, quem ditou o repertório dominical das igrejas foi o Sudeste. Parece que as únicas plataformas musicais possíveis são as de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Mas sempre desconfiei que se a gente formasse um time com artistas na nossa região, as chances de nos sentirmos um pouco mais satisfeitos com o resultado da nossa arte seriam maiores", afirma o músico Marco Telles (PB), diretor-geral do coletivo.

Há uma vantagem no fato de não existirem grandes artistas nordestinos em destaque na cena musical evangélica nacional, na opinião de Telles. "Como o Nordeste não participou da configuração desse mercado, agora podemos oferecer uma contraposta ao gospel, com uma preocupação gigante com a estética e o conteúdo. Temos oferecido, inclusive, uma nomenclatura diferente para o que a gente faz: pós-gospel", aponta o músico, que é autor do livro "Vida após o gospel", em que crítica as práticas adotadas por esse segmento.



Telles concorda que ainda existe uma barreira entre as músicas cantadas nas igrejas e a cultura brasileira. A origem do problema, segundo ele, vem de um sentimento que abrange não somente o público evangélico. "É aquela sensação que o brasileiro tem de que tudo o que ele possui é inferior ao que vem de fora. Infelizmente, quando isso vai para o campo da religião, acredito que recebe uma intensificação. O cristianismo nos foi pregado por meio dos europeus e, posteriormente, pelos norte-americanos. Então, isso construiu na gente a ideia de negar os sons variados de origem indígena ou africana", explica.

O potiguar Júlio César, conhecido artisticamente como Julhin de Tia Lica, conhece bem o distanciamento das suas próprias raízes. Morador da zona rural do município de Jardim do Seridó, no Sertão, ele vem ouvindo as charangas (bandas de festas populares), seguindo os papangus e brincando com os mamulengos. "Deixei o que eu conhecia de lado quando entrei para a igreja, na adolescência. Tudo isso era demonizado no ambiente novo que estava vivendo. Só depois fui perceber a graça comum que existe nas canções que não são religiosas. Comecei a ver como Deus se manifesta há tempos na cultura popular. Isso acendeu uma chama dentro de mim e passei a sentir orgulho na minha identidade", conta.



Julhin lançou seu primeiro single, "Oração de São Pedro", no ano passado, através do coletivo. Na canção, as batidas do maracatu e a influência do movimento Manguebeat são bem perceptíveis. "Minha ideia é lançar um estudo de ritmos nordestinos, como ijexá, ciranda, xote e baião, até o final do ano. São músicas mais poéticas. Quero que mesmo que não é evangélico possa ouvir e se deleitar com a minha arte", declara. O Candiero produz, divulga e lança as músicas de seus componentes nas plataformas de streaming. O próximo passo é oficializar a existência de um selo musical. Os artistas promovem a segunda edição da Conferência Candiero na capital pernambucana, com workshop, mesa redonda e apresentações musicais. O evento será realizado em três dias, entre 5 e 7 de março, na Igreja Mosaico, localizada no bairro de Boa Viagem.

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