Peça de teatro em que travesti interpreta Jesus é censurada mais uma vez

'O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu', que estaria no festival Janeiro de Grandes Espetáculos, foi retirado da grade do evento. Nota oficial diz que decisão aconteceu por conta de 'questões que extrapolam os critérios artísticos'

Renata Carvalho (à esquerda) e a diretora Natalia Mallo, para quem "em nenhum momento o texto vilipendia a liturgia cristã"Renata Carvalho (à esquerda) e a diretora Natalia Mallo, para quem "em nenhum momento o texto vilipendia a liturgia cristã" - Foto: Lilian Fernandes/Divulgação

A polêmica em torno da peça "O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu" está de volta a Pernambuco. Estrelado pela atriz transexual Renata Carvalho, o espetáculo estava previsto para entrar em cartaz nos próximos dias 12 e 13, no Teatro Barreto Júnior, dentro do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos.

Mas, após uma série de postagens feitas pelo deputado federal eleito André Ferreira (PSC), a produção do evento enviou uma nota à imprensa cancelando as apresentações "de forma a garantir a realização" do festival, e explicando que a decisão se deu "por questões que extrapolam os critérios artísticos".

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A Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), responsável pelo evento, disse ainda que a peça "motivou ações judiciais e passou por outros cancelamentos", mas não apresentou razões específicas para sua decisão, limitando-se a declarar seu "compromisso com a liberdade de expressão" e seu "propósito de abrir as portas para toda e qualquer manifestação artística".

"Achamos tudo isso lamentável", criticou Natalia Mallo, que é a diretora e a tradutora do texto de "O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu". Em entrevista à Folha de Pernambuco, ela afirmou que a nota do festival foi pouco elucidativa, por não explicar os reais motivos da decisão. "Se o festival realmente acreditasse no trabalho da gente, estaria dando nome aos bois e contando o que está se passando. A nota termina dizendo que há uma valorização da liberdade de expressão. Eu não entendo como se pode valorizar e, ao mesmo tempo, cancelar um espetáculo cedendo à pressão de grupos politicos e religiosos", disse Natalia.

Procurado pela reportagem, o coordenador geral do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, Paulo de Castro, não quis se pronunciar e prometeu enviar uma nova nota padrão a toda a imprensa, mas ela não chegou até o momento do fechamento desta matéria.

Renata Carvalho, que faz papel de Jesus como transexual

Renata Carvalho, que faz papel de Jesus como transexual - Crédito: Mariana Mesquita/Folha de Pernambuco

Em julho, a peça fez Garanhuns ferver num imbróglio que mesclou preconceito, religiosidade, picuinhas políticas, protestos durante shows, duas decisões judiciais e até ação policial. Prevista para ser apresentada durante o 28º Festival de Inverno de Garanhuns, foi cancelada após forte pressão tanto dos setores evangélicos como do bispo católico do município, Dom Paulo Jackson, que ameaçou não ceder a catedral ao evento caso a peça fosse mantida. Por meio de mobilização via redes sociais, um grupo de artistas e intelectuais conseguiu realizar uma sessão de forma paralela, vendendo ingressos de forma colaborativa.

A confusão não se configurou como novidade: a peça vem sendo censurada em todo o País, em lugares como Jundiaí (SP), Salvador (BA) e Rio de Janeiro, sempre com a mesma justificativa - de que desrespeita a religião, pelo fato de ser interpretada por uma travesti.

"Ela afronta, sim, o Cristianismo. Vai contra a palavra de Deus. Não tem nenhuma passagem na Bíblia que mostre Jesus como travesti e eu, como representante do segmento evangélico em Pernambuco, legitimado através do voto, não poderia ficar calado diante disso", confirmou André Ferreira. "Já tinha ocorrido aquele problema em Garanhuns, por isso achei sem sentido o poder público patrocinar uma peça assim. Graças a Deus tiraram da grade. Eu tenho certeza de que foi retirada por causa da pressão que fiz através de uma nota de repúdio e das redes sociais", acrescentou.

Natalia Mallo reforçou que a ideia central da peça é mostrar que Jesus pode estar presente entre os marginalizados, e em nenhum momento o texto vilipendia a liturgia cristã. Ela lamentou que o espetáculo, mais uma vez, não tenha tido a chance de se apresentar no Recife. "Teria sido uma grande vitória, depois do acontecido em Garanhuns", avaliou.

A diretora destacou que os festivais e curadorias de eventos têm a responsabilidade de preservar a livre expressão e os espaços artísticos de reflexão e de contestação. "Mas não foi isso que aconteceu, e a gente lamenta e repudia toda essa situação. A partir de agora, vamos escolher bem nossos parceiros, porque não adianta fazer o convite e depois não bancar a realização do espetáculo", criticou.

Ela disse, ainda, que o cenário cultural brasileiro está piorando. "Mas se tem uma coisa que aprendi com esse espetáculo, é que nesses momentos a gente entende um pouco o que é uma vivência travesti. A Renata e o corpo dela estão sendo censurados para além das questões religiosas. Elas, as travestis, assim como o povo negro, indígena e as pessoas com deficiência ou fora da norma, sofrem isso desde que o Brasil é Brasil. É uma questão estrutural e quem fala que a coisa hoje está pior, é porque estava num lugar de privilégio, porque na verdade quem vive a opressão enfrenta essa realidade sempre", finalizou.

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