'Penélope Africana' resgata história de escrava que entrou na Justiça para pedir sua liberdade

O documento de apelação de Cândida Maria da Conceição está arquivado no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco. Autor André Resende recriou sua história a partir de dados reais

André Resende criou história de ficção a partir de dados documentais sobre a escravidão em PernambucoAndré Resende criou história de ficção a partir de dados documentais sobre a escravidão em Pernambuco - Foto: Divulgação

O nome que escolheram para dar a ela só pode ter sido ironia: a vida que Cândida foi obrigada a levar não tinha nada de inocente. Ser chamada de Cândida, aliás, foi uma violência extra: ela já tinha um nome e era uma pessoa com uma história e uma vida, até ser capturada contra a sua vontade na África e levada a morar no Recife, por 14 longos anos.

Parte da história de Yaá, a "Penélope Africana" de que o livro de André Resende trata, é inventada, e a porcentagem de verdade é difícil de mensurar. "O romance inteiro imagina a vida que ela poderia ter tido", explica o autor.

De efetivo, existe um documento forense de 58 folhas, atualmente arquivado no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, em que uma mulher chamada Cândida Maria da Conceição apela à Justiça para ser liberta.

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Apesar da lei antitráfico então em vigor, que em novembro de 1831 passou a declarar livres todos os escravos vindos de fora do Brasil e a penalizar as pessoas que os traziam para o país, o governo brasileiro criava empecilhos para dar a efetiva liberdade aos cativos.

No caso da personagem retratada no livro, ela estava a bordo da escuna Clementina, apreendida próximo ao município de Goiana. Mas, por ordem do governo, a menina foi "arrendada" a uma família de senhores, que teriam como obrigação oferecer comida, ensinar a língua portuguesa, repassar ensinamentos religiosos e dar-lhe um ofício, usufruindo de seu trabalho enquanto pagava uma taxa administrativa anual.

A situação não era incomum. Só entre 1831 e 1843, 20 mil africanos chegaram a Pernambuco (número que pode ser maior, já que muitos navios conseguiram desembarcar sua carga ilegal sem que fossem pegos, levando as pessoas a serem escravizadas da forma usual). Na época, os compradores tinham preferência por mulheres, em especial crianças e adolescentes, para utilizá-las com fins reprodutivos.

Os africanos que eram detectados pela fiscalização do governo se tornavam, na prática, escravos - mesmo sendo legalmente livres. Cândida, contudo, ao tomar conhecimento de seus direitos resolveu apelar à Justiça, pedindo sua emancipação. Por conta disso, foi alvo de críticas, desconfiança e represálias.

   Base documental 

Narrado na primeira pessoa, o livro conta as impressões de uma adolescente africana diante da viagem no navio negreiro e as coisas, pessoas e vivências experimentadas em uma "aldeia" chamada Boa Vista, localizada no Recife dos anos 1830. Ao longo das 196 páginas, André tenta deslocar seu olhar para se colocar na posição de Cândida, chegando a criar palavras como as que ela, de origem bantu, possivelmente usaria para se expressar.

Com base em muita pesquisa realizada nas bibliotecas da Fundação Joaquim Nabuco e do Arquivo Público de Pernambuco, André Resende transmitiu detalhes sobre os hábitos da época. Alguns livros foram cruciais para que conseguisse recriar cenários e situações, entre eles "Doenças dos Escravos em Pernambuco", de Orlando Parahym; "O direito de ser africano livre - os escravos e as interpretações da lei de 1831", de Beatriz Gallotti Mamizomian; "Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre Golfo de Benin e a Bahia", de Pierre Verger; "O comércio Atlântico de Escravos", de Hebert S. Klein; e "Alguns documentos para a História da escravidão", de Leonardo Dantas Silva.

A Yaá inventada por André Resende é uma mulher forte, determinada, com grande espírito empreendedor e criativo que, apesar de tudo isso, não teve a liberdade de poder exercer seus talentos.

Cento e trinta anos após a abolição da escravidão, esta continua sendo a realidade de muitas brasileiras, e pensando nisso o autor decidiu que metade do valor arrecadado com os direitos autorais do livro serão destinados ao Instituto Casa de Yaá, voltado para ajudar mulheres negras e pobres do Recife a obter recursos para iniciarem pequenas atividades comerciais individuais. 

"Essa era uma história que precisava ser contada e espero que, além das pessoas terem prazer de ter contato com meu texto, usem o livro para refletir e fazer diferença. Mesmo que alguns critiquem pelo fato de ser um livro escrito por um homem branco, o importante é dar voz a Yaá e tantas outras como ela. Cerca de 70% das famílias de baixa renda do Recife atualmente são mantidas por mulheres que trabalham muito e têm pouco retorno financeiro, então que cada um de nós faça algo para ajudar", diz André.

A resposta à apelação judicial de Cândida Maria da Conceição segue em aberto, e o autor está organizando um pedido coletivo para o Tribunal de Justiça de Pernambuco conceda postumamente sua emancipação, reconhecendo seu direito à liberdade.

Serviço:

Lançamento de "Penélope Africana", de André Resende
Dia 6/06, às 18h
Livraria Jaqueira (r. Antenor Navarro, 138 - Jaqueira)
Preço médio: R$ 35, livro impresso, ou R$ 12, e-book
Editora: Cubzac/Cepe; 196 páginas

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